Existe, no imaginário do senso comum, uma concepção de vida humana que se baseia no amor. A ideia de amor está diretamente ligada à família, pois é esta o resultado final daquele. Tudo começa antes mesmo do nosso nascimento, quando todos são obrigados a visitar a grávida da família, levar um pacote de fralda descartável no chá de bebê, alisar a barriga, e já começar a projetar a vida que gostariam que o feto levasse assim que nascesse. A chegada do filho deve ser celebrada pois ele é o fruto do amor daquele casal. Se duas mulheres engravidam em períodos próximos e de bebês de gêneros diferentes, a ditadura do amor começa antes mesmo do ser humano ver a luz do mundo. Mas até aí isso tudo é aceitável, pois existem pessoas na vida dos pais, e até eles mesmos, que valorizam estes momentos e acham de fundamental importância a participação de todos neles.
Na infância, as crianças brincam, normalmente, separadas em gênero. Meninas de um lado e meninos do outro. Isso causa um distanciamento, sobretudo com a concepção, que costuma vir dos adultos, de que a relação entre o menino e a menina só é permitida quando ambos são mais velhos. Isso cria, na cabeça da criança, uma ideia de que o gênero oposto só lhe terá serventia e só lhe proporcionará bons momentos quando a idade de ter relacionamentos amorosos for atingida. Ora, criança nenhuma nasce com essa ideia. A separação, feita por pais, professores e adultos responsáveis é que planta isso nas jovens mentes. É claro que meninas e meninos são diferentes e, portanto, desenvolvem brincadeiras e relações de amizade diferentes. Mas a separação dos grupos feita em casa, na escola, nos programas de tv, nos filmes infantis e em praticamente todo o cotidiano, reforça que meninas e meninos não só são diferentes como não vivem relações de amizade, apenas relações de interesse amoroso. Posso estar errada, mas acho muito mais saudável que uma criança interaja igualmente com todas as outras crianças ao invés dela crescer com a ideia de que amizade só é possível com um determinado grupo, enquanto o outro serve somente para o amor. Este tipo de pensamento acaba, automaticamente, descolando a relação de amor da relação de amizade, cumplicidade, como se estas duas não pudessem existir em um relacionamento amoroso. Isso também obriga a crinaça a atrair-se por alguém do grupo do amor desde muito cedo e, caso contrário, ela se sentirá excluída e diferenciada das demais.
Na adolescência, período de muitos amores não-correspondidos, as meninas já têm seu objetivo: encontrar o amor da sua vida. Os meninos também: se tornar o macho-alfa para poder escolher qual delas será a mulher da sua vida. Aquelas que não pretendem arrumar o amor da sua vida no momento e, naturalmente, acabam envolvendo-se com mais meninos do que as outras, são taxadas de putinhas, é claro. E os meninos que não querem ser garanhões são taxados de homossexuais (preconceito criado na separação de funções de cada gênero, durante a infância), perdedores, etc. Conforme crecem, a cobrança por um relacionamento "sério" aumenta cada vez mais. Muitos familiares dizem que a pessoa "precisa é arrumar um namorado (a)" frente a qualquer tipo de problema ou expressão que possa parecer de tristeza. Elas, ficarão para titias enquanto eles serão solteirões fadados à solidão. O amor é pregado em praticamento qualquer produção artística, televisiva, cinematográfica. A pessoa precisa amar alguém, precisa encontrar a metade da sua laranja. Não é permitido simplesmente viver a vida e construir a uma história, de modo que os relacionamentos existam nela mas não sejam o único propósito dela. Quem faz isso não é normal e o pior, não ama de verdade.
Na obrigação de amar, as mulheres sofrem. Foi assim que elas viram acontecer durante toda a sua vida e essas pessoas que sofreram eram exemplos, pois estavam amando. Os homens, também na obrigação de amar e ainda, na obrigação de tomar a atitude que vai ser determinante para a existência deste amor, acabam se precipitando e procurando mulheres que nem sempre eles gostam suficientemente para lhes ter fidelidade ou lhes proporcionar felicidade. As mulheres, temendo ficar pra titia também se precipitam e embarcam em relacionamentos com homens que nem sempre possuem uma personalidade e um estilo de vida que combina com o delas. Frente ao medo de perder aquela pessoa para outra, sentem muito ciúmes e fazem exigências que obrigam um dos envolvidos a se adaptar àquela pessoa e àquele relacionamento que o outro projetou durante todos esses anos. Apesar de tudo, esses relacionamentos dão certo, sim. Muitas pessoas acabam se apaixonando ainda mais no decorrer da relacão e vivem felizes por muito tempo. Mas quando isso acaba, muitas pessoas não se permitem deixar um relacionamento infeliz de lado pelo medo ficar sozinhas, pela dependência da condição de fazer parte de um casal. Assim ocorrem brigas, desgastes, traições, sofrimento, abalo emocional e, as vezes, efeitos colaterais muito mais profundos na vida das pessoas.
Acredito que as relações amorosas seriam muito mais produtivas, muito mais saudáveis e acrescentariam muito mais positivamente na vida dos indivíduos sem este medo e esta cobrança, que se manifesta de maneiras diferentes para os homens e as mulheres. Um exemplo disto é que, na maioria das vezes, ao final de um longo relacionamento, o que fica dele é só mágoa. São raros os casos em que ex-namorados e ex-namoradas, sobretudo quando o casal é jovens, convivem em harmonia, conseguem manter uma relação saudável e conseguem deixar algo de positivo na vida do outro depois do relacionamento. As pessoas são descartadas umas pelas outras porque não lhes servem mais como parceiro amoroso. E claro, é muito estranho quando é diferente disso. Alguém sempre vai dizer que o outro está querendo reatar a relação. É impossível que uma pessoa que conhece, que viveu bons momentos ao lado da outra e que sabe que ela também lhe conhece, queira conversar. Muitas vezes, depois de um relacionamento, os grandes amigos se distanciaram e a amizade já não é mais a mesma. A única pessoa que, de fato, sabe como a outra é o ou a ex, e está proibido ter uma conversa com ele ou com ela.
Em seguida, começa outro relacionamento, pois o que não pode é ficar sozinho. O indivíduo que não faz parte de um relacionamento estável é infeliz e tem algum problema. O que está apaixonado, que sente muito ciúmes, chegando a pensar que uma pessoa lhe pertence e proibindo-a de viver certas coisas pelo simples fato do primeiro não gostar que o segundo as faça, este, é normal. É absurdo pensar que alguém pertence a alguém e que a vida do outro deve ser vivida da maneira que a outra ponta do casal gostaria que fosse. Não faz sentido uma pessoa saber exatamente como é o amor de sua vida, iniciar um relacionamento com outra que não é assim e querer transformá-la naquilo que foi projetado. As pessoas são o que elas são e as mudanças que ocorrem são a partir de experiências e opiniões das próprias pesssoas. O que faz do ser humano uma criatura apaixonante é exatamento o que ele é e as coisas que o diferem dos demais. Se não é possível viver em harmonia mas mesmo assim duas pessoas se gostam, sejam companhias agradáveis e não cônjujes cansativos.
Amar é maravilhoso, e o amor correspondido é um prazer único. Mas é preciso saber reconhecer quando ele não é o suficiente para sustentar um compromisso. Duas pessoas podem, ou deveriam poder, se amar e manter um relacionamento sem combranças excessivas, projeções, ilusões, limitações e sofrimento. E uma pessoa pode, ou deveria poder, viver muitos pequenos relacionamentos que a satisfaçam amorosamente e que a outra ponta de todos eles esteja consciente disto. Mas existe a ditadura do amor eterno, e ela obriga o homem e a mulher a estarem sempre caçando alguém que se disponha a servir de parede branca para as projeções do outro. O amor, então, deixa de ser sinônimo de felicidade e torna-se obrigação.
Desta forma, tenho cada vez mais certeza de que farei parte do grupo das titias, solitárias, infelizes, e qualquer outro adjetivo que seja usado para definir uma pessoa que não encontrou alguém que não lhe exigisse ser a sua parede. O grupo das pessoas que acabou sem um amor eterno por não ter conseguir enxergar quem eram as pessoas por trás da ânsia que elas estavam de encontrar o seu.
Entre linhas, pontos e vírgulas
Muito mais entrelinhas do que qualquer outra coisa.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
domingo, 18 de dezembro de 2011
Inspiração
Morreu de inspiração. Aquilo lhe enchia e não esvaziava enquanto dali não saísse. O medo de se enxergar fora e de o que seria visto pelos outros não lhe deixava externar mais nada. O corpo machucado de tudo aquilo que debatia-se ali dentro, sangrando, fervendo, apodrecendo. Dolorido, cansado, inchado, ferido, ele se entregou. O corpo não mais conseguia suportar o peso. Morreu. Tinha espasmos mesmo depois de morto. O cadáver foi encontrado ferido, e logo descobriu-se que os ferimentos foram todos posteriores à morte. O medo foi-se junto com a vida e tudo que ali tinha ficado por tanto tempo correu desesperadamente para fora, jogando aquele pedaço de carne contra pedras, paredes, espinhos.
Não havia mais dor, não havia mais medo e agora, finalmente, a inspiração também conseguiu libertar-se.
Ainda cheirava bem pois de nenhum dos ferimentos saiu sangue. De cada abertura daquela pele saiu um pouco do havia lhe matado. Não apodreceu e, inclusive, sobreviveu. Sobreviveu depois de morrer de inspiração pois aquilo que os ferimentos exalavam era cheiroso para qualquer olfato. E cheirar era pouco. Queriam ver, ouvir, tocar, sentir.
Foi morrendo que finalmente libertou-se do medo. Só a morte o levou embora, e assim, abriu-se espaço para desconhecidos. Desconhecidos sentimentos e desconhecidos cadáveres tentando sobreviver também, perguntando-lhe como conseguiu, implorando por ajuda, tentando ter ali um lugar. O medo nunca mais voltou, nunca mais conseguiu espaço para entrar pois todas as portas eram vigiadas interna e externamente. Só o máximo de segurança podia garantir que o medo não entraria mais ali. Quando outras portas se abriam a segurança era reforçada, pois o medo, sabendo que todo o recente é vulnerável, logo tentaria utiliza-las de entrada. Não era fácil impedir mas conseguia e utilizaria de qualquer força para que assim continuasse.
Não havia mais dor, não havia mais medo e agora, finalmente, a inspiração também conseguiu libertar-se.
Ainda cheirava bem pois de nenhum dos ferimentos saiu sangue. De cada abertura daquela pele saiu um pouco do havia lhe matado. Não apodreceu e, inclusive, sobreviveu. Sobreviveu depois de morrer de inspiração pois aquilo que os ferimentos exalavam era cheiroso para qualquer olfato. E cheirar era pouco. Queriam ver, ouvir, tocar, sentir.
Foi morrendo que finalmente libertou-se do medo. Só a morte o levou embora, e assim, abriu-se espaço para desconhecidos. Desconhecidos sentimentos e desconhecidos cadáveres tentando sobreviver também, perguntando-lhe como conseguiu, implorando por ajuda, tentando ter ali um lugar. O medo nunca mais voltou, nunca mais conseguiu espaço para entrar pois todas as portas eram vigiadas interna e externamente. Só o máximo de segurança podia garantir que o medo não entraria mais ali. Quando outras portas se abriam a segurança era reforçada, pois o medo, sabendo que todo o recente é vulnerável, logo tentaria utiliza-las de entrada. Não era fácil impedir mas conseguia e utilizaria de qualquer força para que assim continuasse.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Diálogo
- Que qui tem te feito feliz?
- Ãnh? Feliz? Nem sei. Sei que eu tô sempre feliz, sim.
- Por isso te perguntei. Nem parece mais a mesma criatura melancólica que eu conheci esses dias. Há tanto tempo atrás.
- Na verdade, eu não sei. Não me lembro quem era e como era essa criatura. Mas a minha felicidade é melancólica, mesmo. Não repara.
- Não te parece mais. Eu não te vejo mais. Nunca aparece onde ando, como fazia antes. Quer dizer, até aparece, mas quando já estou sufucientemente fora de mim pra ser como tu.
- Nós somos iguais. Tu sabe disto. Não me venha com essa conversa de novo. Já sabemos qual vai ser o desfecho. Não quero choradeira hoje, por favor. Sabemos que tá tudo errado. Mas faz tanto tempo, tem tanta coisa pra falar. Não fica me analisando. Eu não gosto disso.
- Mas eu sei que tu tá sempre analisando todo mundo. Não consigo evitar.
- Só quando me pedem.
- Ninguém pede, ninguém quer isso.
- Mas me pedem, sim. Tu que não sabe. Porque nunca te pedem, tu nunca tá lá quando começam a pedir isso. Tu sempre vai embora cedo. Eu fico até amanhecer. Até mais, as vezes.
- Morro de sono e sei que vou querer ir embora muito antes de amanhecer. Daí já não tem mais ter como.
- Tem como, sim. Se tu quiser, fica até a hora que tu achar melhor. Mas a tua preguiça e teu comodismo e teu comprometimento excessvo com coisas que nem são tudo isso nunca te deixam ficar até a hora que tu quer.
- Ah, sim, meu comprometimento excessivo, sim. Como se tu soubesse te comprometer com alguma coisa.
- Não sei mesmo, não sei. Quando eu tiver que aprender, eu aprendo. Quando a água bate na bunda a gente aprende a nadar. Que se foda.
- Acho que já me bateu faz tempo. Meio que me afoguei mas tô tentando correr atrás. Pior tu que nem tenta. Na primeira brecha já tá boiando e parando na primeira costa.
- Sim. Eu sei. Tu quer mesmo ficar nessa? Logo hoje?
- Não.
- Toda vez é assim. Não queria que fosse assim. Não aguento isso, sempre se radiografando, que merda. A gente não julga ninguém, só nós. Vamos parar com isso, sério mesmo.
- Deu. Sério.
- Tá.
- Ãnh? Feliz? Nem sei. Sei que eu tô sempre feliz, sim.
- Por isso te perguntei. Nem parece mais a mesma criatura melancólica que eu conheci esses dias. Há tanto tempo atrás.
- Na verdade, eu não sei. Não me lembro quem era e como era essa criatura. Mas a minha felicidade é melancólica, mesmo. Não repara.
- Não te parece mais. Eu não te vejo mais. Nunca aparece onde ando, como fazia antes. Quer dizer, até aparece, mas quando já estou sufucientemente fora de mim pra ser como tu.
- Nós somos iguais. Tu sabe disto. Não me venha com essa conversa de novo. Já sabemos qual vai ser o desfecho. Não quero choradeira hoje, por favor. Sabemos que tá tudo errado. Mas faz tanto tempo, tem tanta coisa pra falar. Não fica me analisando. Eu não gosto disso.
- Mas eu sei que tu tá sempre analisando todo mundo. Não consigo evitar.
- Só quando me pedem.
- Ninguém pede, ninguém quer isso.
- Mas me pedem, sim. Tu que não sabe. Porque nunca te pedem, tu nunca tá lá quando começam a pedir isso. Tu sempre vai embora cedo. Eu fico até amanhecer. Até mais, as vezes.
- Morro de sono e sei que vou querer ir embora muito antes de amanhecer. Daí já não tem mais ter como.
- Tem como, sim. Se tu quiser, fica até a hora que tu achar melhor. Mas a tua preguiça e teu comodismo e teu comprometimento excessvo com coisas que nem são tudo isso nunca te deixam ficar até a hora que tu quer.
- Ah, sim, meu comprometimento excessivo, sim. Como se tu soubesse te comprometer com alguma coisa.
- Não sei mesmo, não sei. Quando eu tiver que aprender, eu aprendo. Quando a água bate na bunda a gente aprende a nadar. Que se foda.
- Acho que já me bateu faz tempo. Meio que me afoguei mas tô tentando correr atrás. Pior tu que nem tenta. Na primeira brecha já tá boiando e parando na primeira costa.
- Sim. Eu sei. Tu quer mesmo ficar nessa? Logo hoje?
- Não.
- Toda vez é assim. Não queria que fosse assim. Não aguento isso, sempre se radiografando, que merda. A gente não julga ninguém, só nós. Vamos parar com isso, sério mesmo.
- Deu. Sério.
- Tá.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Naturalmente
Certo dia ela apareceu no fim da tarde, convidando-o para dar uma volta por ali. Assim mesmo, sem avisar. Era o dia mais quente do ano e o sol ainda estava imperdoavelmente escaldante àquela hora. Como não poderia deixar de ser, andaram até o boteco de preço mais acessível da redondeza, sentaram-se na única mesa de ferro da calçada e pediram um cinzeiro e a cerveja mais barata que o estabelecimento oferecia. Conversaram por horas. Riram como há tempos não riam. Conseguiram até esquecer do quão corridos foram os últimos dias, do estresse, da insatisfação, das dívidas, dos questionamentos, dos juros, das dores. Esqueceram até mesmo do calor que os castigava durante aquela estação.
Já anoitecia quando começaram a contabilizar os gastos e os ganhos. Na verdade, os gastos não importavam muito naquele momento. Os salários recém-depositados ainda passavam a impressão de inesgotabilidade, sobretudo depois de alguns copos e tantas risadas. Os ganhos eram contabilizados não só deste dia ou semana, mas desde o início de todo o processo de aproximação. Uma das coisas mais interessantes das relações humanas é este processo de aproximação entre duas pessoas interessadas em fazê-lo. Vontade mútua de saber mais do outro, pretextos para estar próximo, contatos físicos discretos e involuntariamente forçados são algumas das diversas pequenas construções de casualidades, que variam de interessado para interessado, e que caracterizam esta aproximação.
Já era tarde da noite quando levantaram-se para ir embora. Caminharam pela rua vazia, ouviram uma música qualquer e ensaiaram alguns passos de um dança que só eles conheciam, talvez por terem criado naquele mesmo instante. Um trocar de pernas colocou eles no chão e por ali mesmo ficaram. A chuva caiu-lhes sobre os ombros, sobre as cabeças, sobre as pernas, fazendo questão de manter os dois calados. Sentiram aquela chuva de verão como se fossem estas as últimas gotas que o céu lhes ofereceria.
Deitaram-se na cama, nus, com a água do chuveiro ainda espalhada pelo corpo. Se olharam naquela luz baixa que entrava pela janela entreaberta. Sorriram. Noite adentro, passearam um no outro com a liberdade de quem já conhecia cada trecho do passeio. E conheciam. Nos pensamentos de cada um deles, conheciam, sim. Tanto imaginaram aquele momento que ele acabou por acontecer naturalmente. É assim que acontece o amor. Naturalmente. Não importa a circunstância, importante é ele acontecer.
Eles, por exemplo, amaram-se muito.
Apesar disto, naquela manhã de calor, questionamentos e dívidas, acordaram não mais se amando. Mas amaram-se. Infinitamente. Desde o primeiro gesto de aproximação, até a hora de acordar. Infinitamente.
Já anoitecia quando começaram a contabilizar os gastos e os ganhos. Na verdade, os gastos não importavam muito naquele momento. Os salários recém-depositados ainda passavam a impressão de inesgotabilidade, sobretudo depois de alguns copos e tantas risadas. Os ganhos eram contabilizados não só deste dia ou semana, mas desde o início de todo o processo de aproximação. Uma das coisas mais interessantes das relações humanas é este processo de aproximação entre duas pessoas interessadas em fazê-lo. Vontade mútua de saber mais do outro, pretextos para estar próximo, contatos físicos discretos e involuntariamente forçados são algumas das diversas pequenas construções de casualidades, que variam de interessado para interessado, e que caracterizam esta aproximação.
Já era tarde da noite quando levantaram-se para ir embora. Caminharam pela rua vazia, ouviram uma música qualquer e ensaiaram alguns passos de um dança que só eles conheciam, talvez por terem criado naquele mesmo instante. Um trocar de pernas colocou eles no chão e por ali mesmo ficaram. A chuva caiu-lhes sobre os ombros, sobre as cabeças, sobre as pernas, fazendo questão de manter os dois calados. Sentiram aquela chuva de verão como se fossem estas as últimas gotas que o céu lhes ofereceria.
Deitaram-se na cama, nus, com a água do chuveiro ainda espalhada pelo corpo. Se olharam naquela luz baixa que entrava pela janela entreaberta. Sorriram. Noite adentro, passearam um no outro com a liberdade de quem já conhecia cada trecho do passeio. E conheciam. Nos pensamentos de cada um deles, conheciam, sim. Tanto imaginaram aquele momento que ele acabou por acontecer naturalmente. É assim que acontece o amor. Naturalmente. Não importa a circunstância, importante é ele acontecer.
Eles, por exemplo, amaram-se muito.
Apesar disto, naquela manhã de calor, questionamentos e dívidas, acordaram não mais se amando. Mas amaram-se. Infinitamente. Desde o primeiro gesto de aproximação, até a hora de acordar. Infinitamente.
domingo, 27 de novembro de 2011
As vezes
Sou invisível. Desconheço o motivo. Pode ser a feiura, mas também pode ser o sobrepeso. Não tenho nada a ver com nenhum de vocês. Eu sou desespero e medo, exalando solidão. Sempre. Vocês são sorrisos, expectativa, promissão. Posso estar no mesmo lugar onde milhares de pessoas estão, mas minha solidão acontece pelo fato de que nenhuma destas pessoas está neste espaço pelo mesmo motivo que eu. Estou sozinha nos meus motivos, e, portanto, estou constante e completamente sozinha. É uma questão de perspectiva.
Eu não existo no lugar onde estou. É como se não ocupasse lugar nenhum. E é muito constrangedor não ocupar lugar nenhum. Sou incômodo aos outros.
A tristeza disso tudo é uma questão de consciência. Um indivíduo só é triste quando se dá por conta de que as atitudes dele interferem negativamente em contextos onde ele acreditava que elas interfeririam positivamente.
Eu sou triste demais. As vezes.
Eu não existo no lugar onde estou. É como se não ocupasse lugar nenhum. E é muito constrangedor não ocupar lugar nenhum. Sou incômodo aos outros.
A tristeza disso tudo é uma questão de consciência. Um indivíduo só é triste quando se dá por conta de que as atitudes dele interferem negativamente em contextos onde ele acreditava que elas interfeririam positivamente.
Eu sou triste demais. As vezes.
domingo, 20 de novembro de 2011
Em casa
Mais uma vez arrasto os pés como quem caminha à procura dos seus sonhos perdidos em outras horas, em outras vidas, em outras camas. Só não estou mais em casa quando os arrasto e os procuro. Já nem sei mais onde ela fica. Desconheço o lugar exato onde posso estar em casa. Talvez me sinta em casa numa quantidade muito grande de lugares distintos.
O importante de se sentir em casa, acredito eu, é estar à vontade. Eu consigo me sentir à vontade em tantos lugares que acabei por perder minha própria casa. E a questão não é lugar, e sim, as pessoas. De novo, as pessoas. Elas sempre são o fator determinante.
Em casa, tenho as pessoas que ali vivem, sendo elas as mesmas com as quais vivi parte da minha vida. Nos demais lugares onde me sinto em casa também existem pessoas com as quais vivi parte da minha vida. Esta parte é pequena, mas, dela, é imensa a importância.
No mesmo lugar onde me senti desconfortavelmente isolada, me senti em casa. Uma única pessoa conseguiu fazer-me inverter as sensações. Poucos detalhes me fizeram estar à vontade.
Tranquilamente, eu disse coisas absurdas. Sou sempre assim. Absurda, mas tranquila. Não me importo com as percas de controle. Gosto delas. Gosto de ver, gosto de me envolver nisto e é a única maneira de saber que isto está acontecendo, quando, no futuro, decorrer-se novamente.
Eu dispenso o rancor. Só sei guardar a saudade. Dói muito mais. É muito melhor, e não pela dor, mas porque a saudade é quando a gente lembra do que sentiu e quer de novo. E sempre me falta um pouquinho. De tudo.
O importante de se sentir em casa, acredito eu, é estar à vontade. Eu consigo me sentir à vontade em tantos lugares que acabei por perder minha própria casa. E a questão não é lugar, e sim, as pessoas. De novo, as pessoas. Elas sempre são o fator determinante.
Em casa, tenho as pessoas que ali vivem, sendo elas as mesmas com as quais vivi parte da minha vida. Nos demais lugares onde me sinto em casa também existem pessoas com as quais vivi parte da minha vida. Esta parte é pequena, mas, dela, é imensa a importância.
No mesmo lugar onde me senti desconfortavelmente isolada, me senti em casa. Uma única pessoa conseguiu fazer-me inverter as sensações. Poucos detalhes me fizeram estar à vontade.
Tranquilamente, eu disse coisas absurdas. Sou sempre assim. Absurda, mas tranquila. Não me importo com as percas de controle. Gosto delas. Gosto de ver, gosto de me envolver nisto e é a única maneira de saber que isto está acontecendo, quando, no futuro, decorrer-se novamente.
Eu dispenso o rancor. Só sei guardar a saudade. Dói muito mais. É muito melhor, e não pela dor, mas porque a saudade é quando a gente lembra do que sentiu e quer de novo. E sempre me falta um pouquinho. De tudo.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Pressa
O relógio não me acompanha. Sempre pro mesmo lugar, ele parece também estar constantemente parado. Me entristece. Não sou assim. Passo rápido demais e corro em diversos sentidos. Não faço voltas completas e fico sempre com o gosto amargo do inacabado. Vou embora mais cedo, deixo todos dormindo sozinhos. Todos os meus breves amores eternos foram abandonados assim, covardemente joguei-os de volta à solidão. Na verdade, estava me devolvendo à ela.
Eu não consigo ter as pessoas tampouco deixar que elas me tenham. Anseio por amar todos numa única vida e compreender amplamente este sentimento, ponto exato onde erro. Não é de se compreender e sim de sentir, responderia-me um romântico qualquer. Mas corro porque desejo compreender de tudo, por mais errado que isto seja. Sou breve e logo associo a resposta à outra dúvida que persigo apressadamente.
A pressa tem me cegado. Preciso dormir melhor para conseguir ficar atenta.
Eu não consigo ter as pessoas tampouco deixar que elas me tenham. Anseio por amar todos numa única vida e compreender amplamente este sentimento, ponto exato onde erro. Não é de se compreender e sim de sentir, responderia-me um romântico qualquer. Mas corro porque desejo compreender de tudo, por mais errado que isto seja. Sou breve e logo associo a resposta à outra dúvida que persigo apressadamente.
A pressa tem me cegado. Preciso dormir melhor para conseguir ficar atenta.
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