quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Ano novo, vida nova

Trinta de dezembro de dois mil e dez. Aquela calmaria característica de penúltimo dia do ano para a maioria dos viventes, enquanto os mais avoados tentam resolver as pendências que deveriam estar resolvidas há algumas páginas anteriores do calendário. Todas as roupas brancas se esgotando dos estoques das lojas de departamento, todos os espumantes de preço acessível sumindo das gôndolas dos supermercados. As estradas, se preparando para o engarrafamento fenomenal que viria nas próximas horas, a areia da praia aproveitando o vento que os milhares de pés a caminho não mais a possibilitariam de sentir. O diretor de arte das grandes emissoras de televisão cuidando dos últimos detalhes daquele relógio digital responsável pela contagem regressiva da chegada do novo ano.
Eis que da televisão, é emitido um dos mais temidos, quiçá, o mais temido dos sons que o povo brasileiro tem conhecimento. Aquele que faz as donas de casa, fãs de programas matinais apresentados por moças simpáticas, sentirem arrepiar até o último fio de cabelo alisado artificialmente, aquele que faz com que os empresários larguem suas xícaras de café ao encontro do chão, voltando todos os olhares para a caixinha mágica que tudo sabe: A musiquinha do plantão. Musiquinha esta, que nunca havia durado tanto tempo quanto naquele penúltimo dia do ano. O país havia parado para saber da útima tragédia que 2010 havia reservado ao sofrido povo brasileiro. Dentro da televisão aparece a imagem daquele homem, que devido a constante presença entre os jantares de família, pode ser chamado, carinhosamente, de Bonner. Naquele momento ele não sustentava mais sua expressão neutra de jornalista sério, referência em sua área. Ele não vestia um terno superliso, brilhante, e eu diria até, cheiroso, como costumava fazer no telejornal que apresentava. Bonner vestia uma camiseta verde, dessas de andar em casa, que combinam com bermuda de temas florais. Possuía uma expressão cansada, de todas as más notícias que deu durante o ano e de não ter conseguido passar na sala da maquiadora para disfarçar suas imperfeições. Parecia assustado. Lia em um pedaço de papel que, aparentemente, havia sido anotado à mão, a notícia que, provavelmente, lhe tirara de casa direto para frente daquela câmera. Dizia que o ano tinha acabado. Que o ano, cansado de acabar sempre no final do dia trinta e um de dezembro, resolvera acabar na metade do dia trinta. Simultaneamente, no twitter, o G1, o Terra, a Folha, e todos os similares a estes também publicavam suas versões do ocorrido.
O povo entrou em pânico e logo espalhou-se o boato de que era coisa do atual presidente. No twitter, diversas piadinhas foram feitas e tantas outras hashtags criadas para o acontecimento. Tamanho foi o burburim gerado pela notícia, que a rede de miniblogs começou a anunciar "over capacity." Mas sem a baleia, que havia se preparado para chegar somente amanhã, próximo à meia noite, nas telas dos computadores.
Um sentimento de vazio instalou-se por todos os lares brasileiros. Perguntavam-se sobre os seus planos para a virada, sobre as sete ondinhas, sobre o seu último porre do ano, sobre os abraços que planejavam dar em seus entes queridos. Perguntavam-se sobre a dieta que haviam planejado fazer em 2011, mas só depois da ceia, que não estava nem próxima de ficar pronta. Alguns estavam na fila para pagar o bacalhau - cujo preço subiu absurdamente - e já não sabiam mais se importava comer ou não o bicho que nada pra frente, agora que o ano já havia terminado. Outros, olhavam aquele lombinho de porco, que fuça também para frente, e se perguntavam se deveriam colocar ele no forno ou no freezer.
Perante à bombástica notícia, a estrada sentiu-se aliviada, assim como a areia da praia. Pelo menos um ano de folga pras elas, pobrezinhas. Fogos de artifício foram estourados sem que praticamente ninguém percebesse, pois o sol brilhava muito mais forte que todos eles juntos.
As pessoas não se abraçaram, não se declararam uns pros outros. Elas não haviam estourado suas garrafas de espumante barato, nem a cerveja comprada para a festa estava gelada. As listas de promessas para 2011 ainda não estavam concluídas, mas foram deixadas de lado. Quem sabe no que vem a virada aconteça no dia certo. A população inteira entrou o novo ano reclamando do dia que havia lhe sido furtado por... por quem mesmo? Bom, não importa. Um dia é muito tempo. Dois mil e onze estava perdido para sempre. Nenhuma promessa seria cumprida, nada seria comemorado, nenhuma roupa nova seria usada. Prevaleceria durante o ano todo, no coração de cada um, o rancor pelo dia a menos de 2010. Comentários de que "ele não podia acabar assim" tornariam-se quase um mantra na vida das pessoas, que passariam 2011 inteiro sentindo medo do calendário. Ele poderia lhes tirar tudo o que tinham. Toda a expectativa. Toda a espera. Todas as festas. Todos os momentos de felicidade. E passariam o ano inteiro esperando o dia 31 de dezembro, do qual tanto sentiram saudade, para que 2011 acabasse e eles recomeçassem a viver tranquilamente suas esperas, quero dizer, suas vidas.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Falência

O telefone tocava, ecoando por todos os cômodos daquela residência vazia, deixando o som debater-se pelas paredes sujas e escapando pelas janelas entreabertas. Um filete de sol iluminava o ambiente, tornanado visível a poeira que o tempo deixou acumular, que o vento fez levantar. Era só a poeira daqueles móveis que pareciam conversar entre si, pareciam quebrar o silêncio que o vazio trazia até ali. E o telefone permanecia tocando, sem que ninguém atendesse, sem que ninguém escutasse. Naquele mesmo instante, a caixa de correspondências recebia um envelope que jamais seria aberto, e alguns dias depois, receberia panfletos mal feitos de lugares mal planejados, que jamais seriam lidos. Talvez, a caixa de correspondências recebesse até alguma carta que nunca seria lida, e receberia contas que nunca seriam pagas. A campainha também tocaria para que ninguém abrisse.
Lá dentro, tudo encontrava-se intacto. Todos os elementos que formavam aquele ambiente estavam no lugar. O fogão, no lugar de onde jamais saíra, a geladeira também. A pia transbordando pratos e tralheres sujos, roupas no varal. A cama desarrumada, como sempre esteve, a porta do armário quebrada e o chão do banheiro marcado do sangue de uma barata morta ali, em algum dia do passado. A porta da frente destrancada, fato que jamais seria percebido, pois tudo aquilo formava um ambiente que parecia esperar por alguém que o completasse. Alguém que não só fazia parte dali, mas que tinha feito com que tudo aquilo existisse. Se os móveis efetivamente conversassem como pareciam fazer, perguntariam-se uns aos outros se faltava muito para este alguém retornasse. Ele saíra como se tivesse ido até a calçada da frente levar os sacos de lixo e logo fosse retornar. Como fazia todos os dias. Mas naquele dia, ele não retornaria. Ele deixara seus móveis, seu fogão, sua geladeira, seu telefone, suas correspondências, seu chão marcado de sangue de barata, abandonara tudo como se nada jamais tivesse lhe pertencido. Aquele lar de onde nada fora tirado. Nada, em parte. Se observado com atenção, poderia-se perceber que os únicos objetos que faltavam ali eram aqueles que escreviam, aqueles onde poderia ser escrito algo e um violão com uma corda ausente. E uma mochila, surrada como todo o resto das coisas que viviam naquele lugar.
Um pouco afastado dali, todos os elementos que faltavam naquele ambiente se reuniam num canto da calçada. Ele, sua mochila surrada, as coisas que escreviam, aquelas nas quais seria possível escrever e o violão com cinco cordas. Aquela calçada não era melhor do que sofá ou a cama deixados para trás, ela era apenas uma calçada que escolheu um andante qualquer para acolher. E o andante, sendo fraco e vulnerável à escolhas que envolviam ele mesmo, deixou que a calçada lhe acolhesse sem titubear.
"Não seira possível descrever em palavras o que eu sinto agora. Sinto que meus olhos ardem como se estivesses a dois centímetros de distância do sol. Eles brilham tanto que não consigo mais enxergar o mundo da mesma maneira. É difícil dizer como tive coragem de acordar no mesmo horário de sempre de um dia qualquer e decidir que nenhum outro dia que viesse depois deste seria um dia qualquer. Não sei como eu tive de coragem de deixar todos os meus trabalhos atrasados para trás sem sequer avisar, como eu tive coragem de lagar tudo logo no dia de pagar a vaquinha do café e do açúcar? Se bem que quem deveria receber algum pagamento, nesta história toda, sou eu. Além de tudo aquilo que eu fazia para encher as gavetas do setor financeiro, além de todas as oito horas diárias de bunda que dei àquela cadeira desconfortável, todo o carinho que dei aquele mouse empoeirado, toda a força que deixei nas janelas que resolvi abrir durante o dia para ver de longe um raio de sol. Eu deveria é ser indenizado por todas as horas de sono que perdi para ir pra lá gastar a luz deles, com o computador e o ar condicionado que passavam o dia todo a me acompanhar. Deveria receber um auxilio-tristeza por todas as vezes que deixei de aproveitar agradáveis tardes de outono para permanecer contribuindo com aumento dos dígitos na conta de pessoas que deixaram o dinheiro tomar conta de suas próprias vidas."
...
"Eu nunca acreditei no dinheiro e acho que ele nunca foi assim, muito achegado na minha pessoa também. Sempre tive birra com ele, mas ele, muito malandro que é, sempre acabava se fazendo necessário para algumas coisas na minha vida. Ele sempre acabava ganhando nossas discussões e posso dar como certo que no momento em que eu virava as costas, ele ficava rindo da minha cara. Malandro. Mas eu também sabia mostrar pra ele que era muito mais feliz com as coisas que não eram conseguidas por intermédio dele do que com aquelas que ele me proporcionava. Vivíamos, e vivemos, um relacionamento agridoce, eu e o dinheiro. E não foi por ele que eu resolvi abandonar a mediocridade que eu chamava de vida. As minhas razões até eu mesmo desconheço. Sei que conheci um sentimento nunca antes presente em mim. Deve ser liberdade, mas também pode ser medo. Mas é bom. Eu, que era um trabalhador-pagador-de-contas como qualquer outro, tornei-me viajante, talvez artista de rua, talvez mendigo. Depende do ponto de vista. Na verdade me tornei o que eu sempre fui mas o mundo em que vivia jamais me deixou ser. Me tornei livre. Me sinto humano como jamais me senti e me sinto vivo de uma maneira que desconhecia até então. Não sou audacioso ao ponto de dizer que nunca mais retornarei, mas posso dizer com toda a convicção que nunca mais serei o mesmo..."
E naquela hora já não havia mais luz do sol para que continuasse a escrever, e a estrutura precária da rua onde estava não lhe oferecia um poste que iluminasse suficientemente o papel amassado onde contava a si mesmo sua história. Levantou-se e seguiu andando, aguardando que o sol voltasse a brilhar para que ele pudesse retomar sua conversa com aquele pedaço de papel amassado. O mundo parecia ser muito maior do que toda aquela vida que deixou pra trás, com a porta destrancada e as janelas entreabertas. Muito maior que o ar condicionado, o computador ou o setor financeiro do lugar para o qual se dirigia todos os dias de manhã. Até as pessoas pareciam diferentes. Talvez a mudança ocorrida tenha sido não no tamanho do mundo ou nas pessoas que nele viviam, mas na perspectiva que ele possuía de tudo aquilo.
(...)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Promessas e tubarões

Ao lado do padre, separados por uma tela que escondia seu rosto, contou sobre tudo que havia se passado. "Não há nenhum pecado nisso" disse o sacerdote. Mas não acreditava. Depois de contar àquele desgraçado fantasiado de santo cada pensamento perturbador que havia passado em sua cabeça, não conseguia aceitar aquela frase. "Como pode não haver pecado em tudo isso?" perguntava-se enquanto observava os desenhos dos paralelepípedos na volta pra casa. O cheiro do almoço que sua mãe preparava era tão bom quanto o cheiro que sentia nos lugares sujos pelos quais vagava nas madrugadas. Já não acreditava mais que as coisas eram aquilo que diziam que elas eram, ultimamente defendia a ideia de que tudo era relativo ao estado em que o perceptor se encontrava. Dito isso, tanto o almoço, repleto de temperos e especiarias e preparado com todo o amor e carinho pela sua mãe, quanto a cachaça ingerida e expelida por pessoas dos piores tipos, exalavam o mesmo aroma.
Não acreditava no padre quando ele dizia que não haviam pecados cometidos em suas atitudes. Tinha plena convicção de que estava cometendo os piores pecados já vistos pela humanidade. Também não acreditava na igreja, portanto, era indiferente que o padre considerasse seus pensamentos pecaminosos ou não, este sendo seguidor e representante dos ensinamentos católicos. Mas tinha esperança de que pelo menos a instituição mais preconceituosa e sem argumentos que a sua sociedade conhecia o condenasse a alguma coisa. Mas nem isso.
Antes mesmo daquele almoço com cheiro de ruela vomitada ficar pronto, resolveu sair. Todas aquelas pessoas correndo até os restaurantes de sua preferência para fazer sua refeição, com a devida pressa que o relógio exige. Todos eles portariam-se frente as mesas do recinto, observariam a comida e, apesar da fome que lhes corroía o estômago por esperarem até o meio dia para comer, tentariam fazer a refeição devagar, pois na televisão a nutricionista disse que comer devagar faz bem para a saúde. Todas aquelas pessoas tentariam colocar no prato as gororobas mais saudáveis disponíveis ali, por que a nutricionista também disse que a alimentação saudável faz parte de uma vida feliz. Feliz. "Mas que porra de vida feliz é esta, onde nem comer o que eu gosto é permitido?" se perguntava. "Logo comer, que é talvez a atitude mais solitária e egoísta do ser humano." Atravessou a rua no sinal vermelho, contando com a companhia de diversas outras pessoas que aguardavam o sinal verde trancar a passagem dos carros para seguir seu rumo. Que aguardavam as promoções de natal para adquirir o que lhes faltava. Que aguardavam a ceia do dia 25 de dezembro para abraçar a sua família. O mês de janeiro para tirar férias e o de fevereiro para usar o carnaval como desculpa para entipir o corpo de álcool e sair na rua festejando alguma coisa que não se sabe ao certo o que é. E passariam a vida inteira aguardando alguma liberação do calendário para fazer alguma coisa sem o mínimo de sentido e que não acrescentaria em nada na felicidade que tanto buscam.
Nada que acontecesse naquela rua, nem naquela cidade, nem no país, faria nenhuma daquelas pessoas encontrar a sua felicidade. E nada do que aquelas pessoas condenadas a infelicidade lhe dissessem faria sentido, pois o que mais desejava para sua vida é que ela tomasse um rumo diferente da vida de cada um daqueles que esperavam o calendário fazer milagres. Mas continuaria. Seguiria andando em meio a toda aquela infelicidade encrostada no mundo. Continuaria se esforçando para que isso não lhe engolisse. Não seria capaz de se render agora, apesar de saber que seria muito mais fácil entregar os pontos do que lutar. Mas se tudo havia se tornado tão sem graça naquilo que lhe disseram ser a vida, pelo menos essa luta deveria lhe fazer algum sentido, afinal, aqueles dos quais desejava se diferenciar dedicaram suas pseudo-vidas a fugir dela.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Homem de lata

De mãos vazias e cabeça cheia, ele segue. Trilha cuidadosamente seus caminhos, esquematiza friamente cada passo. E ele segue. Com um punhado de corações expostos como troféus e com um tanto de culpa escondida no fundo do armário. Curiosamente, ele sente cada gota de chuva que lava a sua alma. Mas que alma?
Ele segue sem saber para onde vai. Ele segue iluminando ruas escuras com seu sorriso. Ele segue filtrando o mundo com o seu olhar. E leva com ele tudo que lhe é pertinente. E pensa. E sente.
Por mais que tente fingir que não, sente até demais. Como se isso fosse um crime, ele se condena toda a vez que o sangue parece correr mais forte. Toda a vez que tem vontade de ir além, ele se arrepende de ter entrado. Toda vez que descobre o quão belas podem ser as ruas escuras que seu sorriso ilumina, obriga-se a ficar sério. Como uma máquina, gira nos calcanhares e retoma o caminho anterior. E como uma máquina, ele precisa encontrar combustível. Ele precisa de mais ruas escuras.
Ele precisa fugir, como se tivesse medo daquilo que não pode ver. Aquilo que não parece ser real o suficiente o espanta, apavora. Mas encanta. E os dias vão passando e acumulando nele uma peculiar vontade de conhecer o novo. Uma certa curiosidade por tudo aquilo que não lhe é palpável. Uma vontade tão forte e tão presente que parece não caber em si. Talvez tudo que ele é capaz de sentir seja maior que a armadura por trás da qual ele se esconde.

Me conte seus segredos, homem de lata. Me deixe ver o que os seus olhos não deixam transparecer. Me diga por que ainda insiste nessa armadura enferrujada. Se permita seguir sem ela. Acredite em mim, homem de lata, os seus passos serão mais leves. Acredite em você também, e em toda a capacidade que você tem...
Homem de lata, feche os olhos, me dê a sua mão. Vamos em frente. Se você achar que vai cair, que não conseguirá se sustentar sem a sua armadura, pode se segurar em mim. Faz tempo que eu deixei a minha de lado, e isso me fez mais forte. Vai te fazer mais forte também....

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Poesia

Não sei fazer poesia
Nem faço questão
Não gosto de poesia
Na verdade até gosto
Só acho cansativo esse formato
Frase-sobre-frase

Parece que não conclui
E ainda por cima
Poesia não tem ponto
Nem parágrafo
Nem frase grande cheia de vírgula
Mas justamente por isso
Eu quis fazer

Parece que eu não concluo
É que nem poesia
Parece que rima
Parece até que pode ser música
Parece uma porção de coisas
E na verdade é só
Frase-sobre-frase

Não sei fazer poesia
Mas gostaria
Por que poesia tem uma certa
Musicalidade
É bonito quando rima
Mas só é bonito
As vezes rimas não dizem nada
Só tão ali pra rimar mesmo
Daí é só forjar alguma coisa
Que termine com ada
Por exemplo, estancada
E pronto, é fácil
É fácil e vazio, na verdade

A gente se força
A dizer coisas que nem queria
Pra combinar com a linha de cima
E depois ainda muda outras coisas
Pra fechar com o ritmo
E desperdiça a linha inteira
Pra dizer, as vezes
Umasópalavra

Não gosto de poesia
Não gosto de fechar com o ritmo
Nem de ser musical
Não gosto de rimas
Não gosto de palavras sozinhas
Nem de linhas desperdiçadas
Também não gosto de frase sem ponto
Sem vírgula
Sem fim

Não faz meu tipo
Essa coisa forçada, forjada, desperdiçada
Sozinha
Essa coisa que combina demais

Com a linha de cima
Que dança conforme a música
Que sempre cai
Pro mesmo buraco
Que sempre rima
O ar com o amar

E acaba sempre igual
Sempre normal
Sem sal
Usual
Frase-sobre-frase

Não sei fazer poesia.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Do nosso tempo

No tempo das vacas gordas a gente matava o tempo tomando suco de laranja na antiga padaria e jogando em maquininhas de azar, onde, caso aparecessem três relógios na sequência, a gente podia ganhar umas moedas que há um tempo atrás alguém colocou ali. Só que daí o tempo passou e a gente cresceu, e agora já não tem mais tempo pra nada. A padaria já não é mais padaria, e as maquininhas de jogos de azar foram proibidas. O tempo passou e levou com ele o nosso tempo, quando a gente se entendia sem entender muito bem do resto. Na verdade, não tinha muita importância entender tanto assim. No nosso tempo a gente achava que tinha todo o tempo do mundo pra tudo e temperava nossos dias com sorrisos e histórias que nós viveríamos no futuro. Mal tínhamos passado para nos lembrar. Mas os anos voaram, e talvez levaram algumas partes daquilo que acreditávamos que só cresceria com o tempo. Quem cresceu fomos nós. Descobrimos que o relógio da vida não gira só para um lado, o tempo leva cada ponteiro para uma direção distinta. Talvez não se encontrem mais. Descobrimos que não se cresce só pra cima, não se cresce só com o corpo.
Acredito que hajam poucas coisas que o voar dos anos não leve. E o que fica não tem um nome exato, mas constrói tudo que nos tornamos até hoje, e tudo que nos tornaremos no futuro. Dá saudade. Cada segundo dos tempos pelos quais passamos modifica um detalhe em nós. Talvez tenha sido justamente estes detalhes que fizeram com que o nosso tempo passasse. Guardamos os nossos melhores segundos no fundo do armário, e as vezes, quando nossa casa entra em tempo de mudanças, encontramos eles em meio a bagunça construída pela nossa própria falta tempo. E assim percebemos que a gente se perdeu com o passar dos anos. Já não nos conhecemos mais. Sequer nos vemos. Quando nos encontramos, deixamos um no outro aquela sensação de que nunca vai ser a mesma coisa. E não vai mesmo. O nosso tempo não volta.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Coisas soltas na borda da página

Na verdade queria que você passasse aqui na frente do portão enquanto eu fosse olhar as correspondências. Que daí a gente podia entrar, tomar um suco e conversar um pouco sobre essas coisas que a vida faz com a gente. Você poderia me contar daquilo que te encomodou ou daquilo que te deixou feliz hoje. Eu poderia te contar do sonho que eu tive esses dias. Foi lindo, e ah, não te contei né? Você estava nele. Estava feliz como há tempos não te vejo e sorria como se nunca tivesse deixado de fazê-lo. E a gente ia rir do sonho, ia rir da minha cadelinha que corre torto e late baixinho achando que assusta. E eu ia te oferecer mais um pouco de suco pra gente ter mais tempo pra conversar. E daí eu ia te mostrar uma música que há tempos quero que você escute. Não sei se você ia gostar, mas ela me lembra muito de você e eu ia gostar de te dizer isso, ia querer saber o que você acha. Depois eu até podia fazer alguma coisa pra gente jantar, ou também a gente podia sair pra passear um pouco pela rua. Essa noite tá tão agradável. Na verdade queria te ouvir um pouco. Eu falo demais e sei disso. Mas você não imagina como eu gosto de te ouvir. Eu poderia ficar horas te ouvindo. Tuas histórias, teus anseios, tuas dúvidas, tuas certezas. Você.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Vinhos baratos em taças de cristal

Faz dias que eu olho pra essa tela branca e não me vem nada. Não que eu não tenha nada pra dizer, mas parece que as coisas estão trancadas em mim e essas letras já não acompanham mais o que me vem de dentro. É estranho isso, por que eu não tenho uma grande dificuldade com palavras escritas. Tenho, inclusive, mais facilidade com elas do que com as faladas. Mas é que ultimamente parece que as coisas que eu tenho pra dizer sentem medo de sair daqui, e preferem ficar se confundindo com o resto. Ensaio títulos pra tudo que me acontece mas na metade do caminho eu acabo fechando o projeto e guardando num arquivo que nem sempre eu consigo acessar. Talvez eu tenha medo de não conseguir sair do lugar-comum onde eu sempre me encontrei, para discutir comigo mesma as coisas que eu quero saber de mim. Ou, quem sabe, eu tenha medo de parecer confusa demais aos olhos dos outros. Eu não sei mais não me importar com o que aquele que está de fora vai achar do que eu digo, talvez as críticas que fazem isso conosco.
Queria me deixar falar um monte de coisas soltas pra tentar ver se elas se encontram em algum ponto. Mas é complicado. É complicado por que na verdade eu ja não quero mais um ponto de encontro. Na verdade eu não sei mais o que eu quero, não sei mais o que eu queria dizer no início desse parágrafo, perdi o fio da meada. E não só aqui, por que eu já perdi o fio da meada de todos os parágrafos, hoje eu tenho andado pra lugar nenhum. E tem gente que lida super bem com essa coisa de "lugar nenhum" mas acontece que eu não sou assim, entende? Não sou mesmo. Não sei mais o que pensar. Nem o que escrever. Nem o que dizer. Não sei terminar um raciocínio, não sei terminar nada, eu acho.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Agosto

Todas as coisas que sabia que lhe atingiriam, mas não tão provavelmente aconteceriam, aconteceram. Todas juntas. Tudo aquilo que lhe ameaçava nos mais remotos e solitários pensamentos tornou-se realidade, bateu-lhe na cara. Era a vida lhe saindo dos eixos e lhe fugindo do controle. Não gostava disso. Parava para pensar e não chegava a conclusão alguma, procurava as fórmulas e os resultados saiam com mais de dez dígitos depois da vírgula. Nada certo nem objetivo, nada redutível. O nó era mais apertado do que imaginara e nada mais lhe parecia encaixar e fazer sentido.
Aceitava os fatos. Modificavam os fatos. Não sabia mais o que aceitar, já nem sabia no que acreditar. Até que ponto aquelas realidades não eram inventadas? E por que alguém inventaria tanto para lhe fazer sentir-se tão pouco? Aquele turbilhão de informações que não informava nada, que só confundia mais ainda. Aquelas perguntas que mais pareciam afirmações de tão insolúveis que eram. Tudo isso lhe rasgava por dentro, lhe doía em cada pedaço do corpo, que já não sustentava mais o peso da alma.
Em contrapartida, nem todos os espinhos machucavam tanto. Alguns fatos positivos lhe colocavam um sorriso discreto no rosto e confortavam temporariamente seu coração perdido. A cabeça fervia, sem compreender mais nada do que antes era aceitável.
Apesar de tudo que parecia querer lhe engolir, ainda restava o fio de esperança, que por muitas vezes foi ameaçado e questionado. Ele era quase uma teia de aranha, que tornava-se eventualmente invisível mas continuava lá, sustentando mais do que parece. Houveram momentos em que sua teia de aranha foi a própria e a única sustentação que lhe restou. Um sentimento de desistência lhe visitava dia após dia em seu próprio quarto, lhe chamando para o nada. Agarrava-se aos lençóis, tentando resistir bravamente, tentando não cair da cama e tentando voltar pro sono - único momento em que sentia que nada seria capaz de lhe atingir. Mas nem isso. Os seus sonhos eram invadidos por todos os pensamento que lhe atormentavam. As vezes nem precisava dormir para sonhar.
Estaria enlouquecendo? Tanto tempo de casulo teria lhe virado a saniedade ao avesso? Cogitou seriamente a possibilidade. Nem sabia mais quem era ou do que gostava. Não se encontrava mais na imagem que enxergava refletida no espelho. Nem lembrava mais de suas certezas, tudo parecia improvável, tudo parecia vazio. Vazio este, que tornou-se fiel escudeiro, que costurou-se com linha fina no fundo de seu coração. Procurou preenche-lo mas logo percebeu que a questão não era preencher ou não. O desafio real era desfazer os pontos e tirá-lo de lá. E sabia, que arrancar algo que já havia sido quase que absorvido pelo corpo não seria fácil nem indolor. Aceitou. Tentou. É, não era tão simples.
E foi assim que percebeu que nada era tão simples. As coisas que mais achava ter domínio foram aquelas que acabaram por lhe dominar. Tudo que mais quis foi o que mais lhe fez sofrer. O que achava conhecer mais profundamente foi o que mais lhe surpreendeu. Não sabia de mais nada e nem se interessava em saber também, afinal, acreditar que sabia só lhe serviu para decepcionar-se.
Entre trancos e barrancos sentia-se vencendo e livrando-se de todo o medo de não ter certeza. Já era um começo, um novo começo, talvez...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Prioridades

É uma questão de colocar as coisas na mesa e ver o seguinte: isso é de verdade, isso é importante e isso é secundário. Por mais que as vezes o secundário ocupe um lugar que na verdade não é dele, lá no fundo a gente sabe que o que é de verdade e é importante vai ser sempre nosso, por que é tudo aquilo que já faz parte de nós. Que vai nos tirar de todos os secundários e vai nos fazer esquecer tudo aquilo que não faz bem pro nosso coração. Aquelas únicas coisas que vão nos confortar, nos arrancar um sorriso sincero, nos fazer sentir saudade e também nos fazer não se sentir tão sozinhos nesse mundo.

Entende?

sábado, 14 de agosto de 2010

For just a little while

Abriu a geladeira, olhou os armários. Foi até o supermercado, obervou as gôndolas, os freezers, as prateleiras. Cigarros, bebidas, doces, salgados. Eles não pareciam ser suficientes.
Desiludida, voltou pra casa e concluiu o que já sabia: Nada preenche este vazio.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Guarde um sonho bom pra mim

Apodero-me desta bela frase pra dizer uma coisa simples: vai. Corre, busca o que tu sempre me dizia que queria e talvez eu não pudesse entender. Vai, nem olha pra trás, não me procura mais onde tu sempre me encontrava. Se um dia quiseres voltar, pode voltar. Vou estar sempre aqui, sempre. Mas veja bem, estar aqui não significa, necessariamente, estar esperando.
Eu já disse isso mas digo de novo, não quero ser como correntes presas nos teus pés que te impedem de andar. Só quero uma coisinha, pequena e simples. Não deve ser difícil e aliás, tu já me prometeu. Precisas cumprir. De todos os nossos sonhos eu só peço que guardes um, e que ele seja só meu. Só nosso, como tudo sempre foi. Foi. O verbo no passado mostra que já não é mais, o "nosso" já não existe mais.

Só não esqueça; guarde um sonho bom pra mim.

sábado, 31 de julho de 2010

Egoísmo

"...sabe quando uma criança joga um brinquedo fora
depois vê um outro brincando e quer de volta?
sou bem assim

eu sempre jogo fora muito rápido..."



Enfim,

não é amor, é egoismo.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

E continuo querendo

Ando querendo muitas coisas ultimamente. Não sei nem por onde começar. Fico querendo coisas novas, coisas que me façam querer mais ainda. Também quero coisas antigas, coisas que eu acho que nunca mais vou ter e o pior, nunca mais vou deixar de querer. Frequentemente me pego lembrando de alguns dias que eu queria de volta, de algumas coisas que ficaram por aí e eu queria encontrar. Quero lembrar do que foi esquecido, do que se confundiu.
Quero fazer virar verdade o que é memória e colocar na memória o que é verdade. Quero que a verdade seja mais suave comigo, quero abrir os olhos e não ter vontade de fechá-los pra fugir. Quero andar com certeza em cada passo e não quero mais tropeçar tanto assim.
Quero enxergar o lugar onde eu deixei o controle e quero conseguir recuperá-lo. Por que sabe, não quero mais que os canais mudem sozinhos. Queria não me importar tanto. Sempre quis, mas nunca soube como. Ainda não sei.
Quero deixar de investir a curto prazo, quero meus sonhos, minhas vontades, meus livros, meus filmes, meus cadernos, meus hábitos. Me quero de volta.
Te quero de volta. Sempre vou te querer de volta. Não sei quando e também não sei se acredito que isso vai deixar de ser um querer e passar a ser. Queria que antes não tivesse sido como foi, tanto e tão pouco. Queria saber o quanto.
Quero sair daqui, bater a porta e não voltar nunca mais. Mandar alguma carta escrita a mão, de vez enquando, para quem eu quiser que saiba o quanto eu estou viva e vivendo. Ou quero, pelo menos, fazer do meu tempo livre alguma coisa egoístamente produtiva. Também quero não pensar nas coisas do trabalho durante o tempo livre.
Quero menos solidão. Quero mais tempo. Quero menos dores. Quero que não seja tão difícil não se arrepender. Quero menos culpa. Queria controle, eu já disse isso né? Eu já disse tudo isso. Queria conseguir mudar, deixar pra trás, olhar pra frente. E queria não repetir tanto isso.

E continuo querendo.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Conversa com Ele (ou Os Barcos Furados)

Entrar sem ser convidada lhe era comum. E foi assim que ela chegou, falando bem alto, falando com os braços, olhos, e principalmente com aquela voz meio taquara rachada.
- Te dou os parabéns, o projeto do mundo ficou ótimo, deu super certo em quase todos os aspectos, a natureza, os animais e claro, o ser humano. Não posso negar que Tu se puxou na hora de criar o tal do ser humano, tão complexo e quase que completo. Todos nós, cada um de um jeito, cada um com seus lindíssimos detalhes físicos e mentais. Com esse monte de manias que nós temos, com toda essa capacidade infinita de pensamento. Lindo, lindo. Mas, Meu Caro, erraste em um pequeno detalhe, que diga-se de passagem faz muita diferença...


Ali Ele até pensou em responder alguma coisa, mas aquela vozinha já se espalhava por tudo e impedia a Sua de continuar.
- ...E sabe, esse teu erro eu penso ter sido proposital. Se bem que é preciso ter muito sangue frio e cara de pau para fazer isso com os pobres seres humaninhos, tadinhos. Na realidade, eu creio que Tu tenha achado que já tínhamos vantagens demais e esse detalhe ficaria por nossa conta. Mas veja bem, se nós não conseguimos nem nos beneficiar das coisas que Tu nos deu somente para o nosso bem, imagina se nos beneficiaríamos daquilo que nem nos foi dado.

Mas uma vez, Ele teve vontade de interferir, mas aquele monólogo começava a ficar quase ameaçador a qualquer um que o tentasse.
- Para encurtar meu discurso, quero dizer é que muito daquilo criado pelo ser humano teve um fundo em comum. Várias pessoas que se inspiraram para trazer algum benefício ao próximo tinham, no fundo de suas almas, um desejo de que aquele fato lhe tornasse alguém especial para alguma pessoa específica. Estou dizendo o que todo mundo já sabe; grande parte de nossas ações são movidas pela nossa eterna carência, por essa incompletude que carregamos. E desde muito novos, nos bombardeam com lindas histórias e músicas e poesias, tudo isso girando em torno de um sentimento muito conhecido, que na realidade ninguém entende direito. Sabe do que eu estou falando, não sabe? Mas desde os tempos de Adão e Eva há um problema nesse cenário, e este problema vem se agravando com o passar dos anos. Não sei se Tu já deu nome pra isso, mas eu chamo de Síndrome de Barco Furado.

Teve vontade de rir mas percebeu que aquela voz não estava brincando.
- Veja só, as pessoas se apaixonam, fazem loucuras uns pelos outros, fogem de casa, se excluem dos amigos. E com o passar do tempo elas já não se lembram mais onde começaram. É como quando alguém se enrola muito pra falar e esquece qual era o objetivo principal.
É isso, o barco fura. Nem sempre ele afunda, mas sempre fura. Alguns barcos passam anos e anos navegando com um saco plástico tapando o furo, ficam até o fim da vida navegando. Alguns navegam em perfeito estado por algum tempo, furam e escondem esse furo com alguma coisa bela e cara em cima. Então um dia, numa limpeza, este furo é percebido. Alguns tentam relevar e seguir navegando mesmo assim, mas a maioria dos barcos furados não aguentam fortes tempestades. Outros, quando percebem o furo resolvem tentar consertá-lo, mas uma vez furado um barco nunca volta a navegar perfeitamente. Há também aqueles que furam logo na costa do mar e são deixados a navegar sozinhos. Estes nunca se recuperam.
Somos assim, todos barcos furados. Podemos ir muito longe, mas sempre haverão alguns remendos, obscuros ou não. Se, por descuido, deixamos a água entrar, cabe a nós ou àquele que assumiu o leme tirar a água de dentro ou deixar afundar. Nestas situações, é comum afundarmos, pois quem assumiu o leme costuma pegar seu colete salva vidas e procurar outro barco para se socorrer - o que é inútil. Ele também é um barco furado. Todos somos.

- Filha, - respondeu Ele - não lhes projetei para navegar em alto mar. O mar é perigoso demais, mas em contrapartida, proporciona um prazer que compensa o perigo. Com todos os outros perigos não tão prazerosos do mundo, acabou tornando-se um refúgio ao ser humano. Minha ideia inicial não era colocar-lhes tão profundamente no mar, não quis nunca que vocês o entendessem ou o mapeassem, como decidiram fazer. Dei-lhes tanta capacidade racional que não achei que buscariam tão profundamente entender o vago. Vago este que nem eu mesmo entendi, e, sinceramente, não creio que vocês entenderão tão cedo. Cada um de vocês espera um barco em perfeito estado a cada porto, mas vocês nunca foram perfeitos em nenhum aspecto, por que seriam perfeitos para navegar em alto mar? Fique sabendo que seus barcos ainda afundarão e retornarão à superfície muitas e muitas vezes durante a vida, até que enfim, aprendam a nadar e não somente a remar.

E ela, que já não sabia mais o que dizer nem se havia entendido Seu recado, ficou quieta e distante. O mar era realmente mais difícil de compreender do que parecia, pensou. Virou as costas e foi indo embora, quando já na saída, ouviu Ele lhe sussurrar baixinho;
- Mas prometo, filha, que quando Eu entender não privarei nenhum de vocês de tal dádiva.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

E o que ela sente você nunca vai entender.

E ela prefere que você nem entenda - não antes dela própria entender. Talvez o melhor a se fazer seja acreditar que quem deixa ir tem pra sempre e deixar ir, por que ela não gostaria de te ver também perdido nesse sentimento sem pé nem cabeça. Um dia teve, e vocês dois sabem disso. Mas a vida decide por outros caminhos e o coração nem sempre conhece esses caminhos. Ironicamente, vocês dois pegaram estradas que, apesar de levarem a lugares diferentes, se cruzam com mais frequência do que se esperava. Talvez em alguma dessas encruzilhadas a estrada dela volte a fazer parte da tua, talvez ela ainda passe alguns dias esperando essas encruzilhadas chegarem... Talvez, daqui a um tempo isso tudo esteja tão atrás e fique tão difícil de enxergar, que acabe fazendo parte só da lembrança.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Detalhes

Sorrisos, gestos, olhares...
Uma palavra dita na hora certa, um aperto a mais no abraço.
Tão pequeno, delicado e sutil.
Invisível aos insensíveis.
Incomparável, incalculável.
Por que, sabe... São essas coisinhas...
Isso sim, faz toda a diferença.

Juventude perdida

Se há alguns anos atrás a juventude era uma banda numa propaganda de refrigerantes, ultimamente a juventude tem sido a maior piada da atualidade. Nos jornais, na internet, em casa, só o que se faz é dizer que tudo é uma fase e vai passar. Nos programas destinados ao público jovem, belos rostos acéfalos são empurrados goela abaixo para que os pobres jovens, tão carregados de carência e descarregados de consciência, possam idolatrar. As músicas não passam de uo-ou yeah-eh e não dizem nada, e eu ainda nem falei do preconceito com tudo aquilo que nasceu antes deles, do "fechadismo mental" que muitos carregam.


Mas nem toda a culpa é deles. O se pode esperar de uma geração criada a bbb, malhação, novela, estágio em órgão público, futebol e todas essas outras coisas que vão impondo uma certa atrofia cerebral nas pessoas? Tem gente que culpa o excesso de informação, mas logicamente isso deveria se reverter de uma maneira positiva, e não negativa. Com um mundo inteiro em alguns cliques, as pessoas deveriam crescer mais conscientes e interessadas por tudo, mas é tão mais fácil tirar algumas fotos com a câmera estrategicamente posicionada, fazendo com que sua aparência transmita uma maturidade que não existe, não é?

A juventude contemporânea se vê cada vez mais sem propósito, cada vez mais obrigada a aceitar tudo que lhe é imposto, a se incluir num padrão social criado justamente para que não hajam questionamentos, para que ninguém pense diferente. E quando eles têm oportunidade de pensar diferente, se negam! As matérias menos levadas a sério no ensino médio são filosofia, sociologia - as únicas que dão oportunidade e liberdade de pensamento aos estudantes. Por que isso? Acham cansativo demais pensar? Difícil demais para entender? E a liberdade, que tanto buscam em seus estágios porcamente remunerados? Não entendem que, apesar disso lhes ter sido costurado na mente ao longo da vida, não é só o dinheiro que traz liberdade. Não entendem que para ser livre é preciso que isso seja vivido, compreendido e não comprado.

Mas ainda creio que o pior disso tudo não é a maioria. É a minoria oprimida - os que notam. Os que buscam alguma coisa a mais do que passar em um concurso e ganhar dinheiro por não fazer nada. Os que questionam a vida que levam, os que sonham com uma vida diferente para eles e para os que neste mundo vivem ou viverão. Os que amam, os que sentem, os que estudam, que criticam. Os que sonham não em casar, ter filhos e morrer como manda o código-de-vida-certa, mas em encontrar o real sentido para sua própria existência. Estes são vistos com olhos de reprovação. "Como é que não gosta de carnaval, futebol? Por que passa tanto tempo lendo ao invés de ir para a balada com os amigos? Deve estar doente! E essas músicas? Já ouviu isso? Que absurdo!"

A minoria incompreendida, que tenta se desamarrar de tudo que lhe é imposto, esta é a errada. O que mais escuta lhe dizerem é que está lutando numa batalha perdida, que a vida é assim mesmo e que com o tempo vai entender e aceitar. Mas o que quem diz isso não entende é que o comodismo não leva a lugar nenhum. Não entende que isso não é revolta, não é batalha. Isso é resultado da vida vazia que querem nos impor, sem caminhar nos próprios pés, sem amar, sem conhecer, sem se arriscar, sem encontrar nada que preencha esse vazio. Sem ser feliz de verdade. Não entende que se o futuro da nação se desilude com sua própria vida, antes mesmo de tentar alguma coisa, o fim do mundo deveria ser antecipado.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Vitória, dos Volantes. Por Valéria.

Me diga sinceramente, quanto tempo mais você quer? Pra que fazer mais charme? Quer ver até onde eu aguento antes de desistir? Por que olha, uma hora eu vou desistir, uma hora eu desisto de ser um fim tão mais fácil. Uma hora eu deixo de achar que o teu abraço faz sentido pra mim. Pare um pouco e ouça bem pra depois não vir dizer que eu não avisei você: Um dia isso vai acabar! Não é que eu queira cantar vitória, mas por favor, vê se não demora mais, não. Entrego meu reino inteirinho por não ter que te esperar mais. Eu sei que tu gosta que eu o faça, mas eu não vou mais insistir, eu já cansei. Dessa vez, se você quiser que venha até aqui. E não é que eu ache que você já não esteja sabendo, mas é que eu não vou dificultar... É que eu sempre quis você, basta você sorrir pra mim... Pra eu ficar perdida. Pra em questão de segundos, quebrar meses de promessas - tanto minhas quanto tuas. Pra esquecer que existem outras pessoas nessa festa, nesse mundo. E só não me engana de novo, tá? Por que, cegamente, eu sempre vou achar que, enfim, chegou a nossa vez.

domingo, 2 de maio de 2010

Velharias e ficção (ou não)

A velha cadeira rangia mais do que a porta que, sem sucesso, ele havia tentado abrir sem fazer barulho. O auge do inverno entrava pela janela, que mostrava a rua vazia e coberta pela neblina daquela madrugada. Não era uma alegre noite de sexta-feira, nem de sábado, e além do mais ele já devia estar em casa há horas, e não ali.

No fundo, ele sempre soube que conheceria aquele lugar, mais cedo ou mais tarde. Havia chegado a conclusão de que aquele era o momento errado, tudo que desejava era acordar e estar na sua cama torta, no seu colchão fino. Mas isso não ia acontecer, e pelo andar da carruagem nem dormir ele ia.
Ficou abraçado em si mesmo, tendo somente ele mesmo para se proteger do frio. No fundo ele sabia que somente ele poderia evitar qualquer coisa que não lhe fizesse bem, mas ultimamente seus anticorpos andavam falhando. Aproveitou a solidão do momento - como se ele não estivesse sozinho em todos os momentos - para olhar um pouco pra dentro. Andou até a janela, e a medida que andava sentia mais frio. Parou em frente ao vidro e olhou no seu reflexo semi-transparente, seus cabelos desajeitados, seus olhos inchados - talvez ele havia chorado sem perceber que o fazia. Olhou suas roupas, sua pele arrepiada, olhou seu coração. Seu coração permanecia vazio.

Naquele momento se lembrou de uma conversa que teve com uma amiga. Neste dia ele disse à ela que encarasse sua vida com maior intensidade. Disse que na realidade acreditava que não tinha sentido viver se fosse somente para acordar de manhã e ir trabalhar, sem sentir aquela brisa da manhã que discretamente parecia lhe rasgar o rosto. Ele também disse à ela que se dedicasse a conhecer as pessoas mais profundamente, que se dedicasse a chegar no coração delas. Lembrando-se disso sentiu um nó na garganta e percebeu que ele havia dito à ela tudo que ele pensava e acreditava, e dessas coisas que ele disse poucas ele fazia (ou quase nenhuma). Talvez fosse isso que faltava, talvez fosse esse o vazio que lhe invadia.
Pensou em colocar gelo para que seus olhos desinchassem, mas logo desistiu. Ele sabia que ia chorar muitas outras vezes naquela noite. Não era todo dia que ele chorava em lugares estranhos, não era todo o dia que ele lembrava das conversas que ele tinha com a sua amiga. Não era todo dia que ele parecia se entender.


Ficou com medo de sair dali. De ver o que ele não queria. Da porta ou da cadeira rangerem. Ficou com medo de acordar alguém, mesmo sem nem saber quem estava dormindo. Aliás, ficou com medo de não conseguir dormir. Ficou com medo de se dedicar às pessoas e estas lhe decepcionarem. De continuar dando conselhos que nem ele seguia. Medo de seguir estes conselhos. Medo de se entregar ao seu próprio coração e algum dos dois não conseguirem suportar. Medo do frio e da solidão. Naquele dia ele sentiu muito medo, sentiu muito frio. Sentiu muito por ele. Mas sobretudo, sentiu medo que todos os seus medos lhe impedissem de se livrar deles.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Diálogo #1

- Sabe, ando com vontade de ligar.
- Então liga, ora.
- Não sei se eu tenho alguma coisa pra dizer.
- Quer ligar pra quê, então?
- Talvez eu tenha alguma coisa pra ouvir...
- Só vai saber se ligar. É tão simples, só um telefone...
- Mas e se não atender?
- Daí vai aparecer ali: "uma chamada perdida."
- Acontece que eu não quero mais ser uma chamada perdida.

(...)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

De todas as minhas dores

Já não é de hoje que me dói. Dor no joelho por estar escalavrado, torcido ou simplesmente doído. É aquele tipo de coisa que dói por doer mesmo. Dor na cabeça de pensar e fazer ela girar tanto e tantas vezes em pouco tempo, ou simplesmente por que a tv estava no caminho da cabeça e agora está doendo. Dor nas costas, nos pés, na garganta. Essas dores já fazem parte do dia a dia. Elas doíam mais quando eu dava mais atenção e mais remédios pra elas. Me acostumei melhor com essas dores depois que outras chegaram. Afinal, o novo é sempre mais interessante.

Um dia estava deitada no sofá da sala de madrugada, pensando. Imaginando. Sentindo falta. Saudade. Mas era diferente, era uma saudade apertadinha, daquelas que dá vontade de sair correndo atrás daquilo que nos dá saudade. Era uma dor. Uma nova dor para minha coleção. Cheguei a conclusão que nunca havia sentido saudade antes, por que na verdade a saudade é como uma agulha bem fininha. Ela arranha um pouquinho e a gente não vê, mas quando a água quente do chuveiro passa ali, parece que arde de dentro pra dentro, mesmo. Só que com saudade toma-se vários banhos quentes por dia.

Outra vez eu assistia a uma cena, ao vivo. Eu não sabia por que mas eu queria muito sair dali, aquilo me incomodava e me dava vontade de fazer alguma coisa que fizesse parar. No fundo eu sabia que não ia fazer nada. E no fundo eu já sabia que era só um ciúmes dolorido. Logo eu, que nunca fui ciumenta, engolindo minhas própria palavras arranhadas.

Mas a maior das dores veio depois. Se sentir responsável pela dor de alguma outra pessoa dói mais que saudade, mais que ciúme, mais que raiva, mais que que todas. Olhar bem pro outro e vê-lo triste. Ouvir dele que é tudo por ti. O pior da dor da culpa não é a tristeza do outro, é saber que sim, tu podes fazer algo e mudar isso mas o teu egoísmo não deixa. No final das contas ninguém fica feliz, por que um sofre e o outro fica com o peso da culpa. Aprendi a evitar este peso, e me assumir uma efetiva e ativa egoísta. Não, procurar a minha felicidade nunca mais me doeu, desde então.

Todas essas dores são diferentes das dores físicas. Não sei dizer qual delas eu prefiro, por que todas elas já fazem parte de mim. Elas e mais uma. Essa uma eu não sei se é dor de verdade ou se o vazio aumentou tanto que ultrapassou os limites do peito e começou a doer também. Eu não sei se é uma culpa modificada, eu não sei de nada a respeito dela. Pode ser todas as anteriores somadas a inutilidade na qual me encontro, pode ser tantas coisas. Só sei que essa não é como as outras e essa eu não quero que faça parte de mim, como as outras.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Não quero mais

Engraçado. Imaginar e planejar as coisas é tão fácil, mas tão fácil que quando não se está fazendo nada é só isso que se faz. Mais ou menos assim ó: Olhando pra frente, tá tudo bem, um mês sem fazer nada não vai me matar e não vai alterar minha sanidade mental né? Hehe, é só um mês e os meses tem passado cada vez mais rápido. Ledo engano, o tempo só passa rápido quando se tem alguma coisa pra fazer ele passar. O tempo é relativo e isso é sério! Quando se passa o dia todo fritando a cabeça dentro dela própria, o tempo não passa rápido, não.

Inclusive, nessas situações o tempo acaba voltando. Voltando mesmo, mas sempre dentro da sua relatividade, claro. Velhas manias revivem, velhas pessoas reaparecem. Coisas que a princípio haviam sido deixadas pra trás voltam como se nunca tivessem saído daqui. E como se fosse a coisa mais normal do mundo, eu me sinto fraquinha. Por vezes quase indefesa. Qualquer vento que passe parece me levar, qualquer cheiro que eu sinto me encanta. Enfim, me vejo vulnerável e leviana. Onde estão todas as coisas que eu aprendi, hein? Toda a coragem que eu tinha? Será que tudo isso funciona só sob pressão? Aliás, será que eu só funciono sob pressão? Tá, eu sei que eu não gosto de ter tempo pra fazer as coisas, não gosto de ter tempo de me perder por que na verdade, eu sei que sempre acabo me perdendo.

Me disseram que eu preciso viver um dia de cada vez, mas depois de fazer isso por uns dias eu não quero mais. Não quero mais mesmo, assim não tem graça. Eu quero acordar de manhã e sair, passar meus dias vendo vida além das que eu já conheço. Voltar pra casa com um pouco menos de fé no mundo e nas pessoas. Eu preciso disso, eu quero uma conversa diferente por dia, por que falar só das mesmas coisas me leva a pensar só nas mesmas coisas também, e assim não dá. Eu quero ir pra frente e eu vou ir. Eu tenho muita coisa me esperando e eu não posso mais esperar elas chegarem! Cada coisa tem o seu tempo o caralho! E não me venha com essa história de dar tempo ao tempo. Eu quero, eu posso e eu vou. E de mais a mais, o que eu sou não vai mudar com a falta de prática, mesmo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Sobre dois mil e nove

Sim, eu sei que já estamos na segunda semana do Ano Novo, que já nem é mais tão novo assim, mas deixa eu refletir sobre o rapidíssimo 2009. E claro, deixa eu imaginar o que pode ser do meu 2010.
Me recordo que no início do ano passado (uou, parece que foi ontem) eu estava cheia de planos , claro. Era ano novo, eu estava empolgada com tudo na vida e tinha muita coisa começando. Poucas coisas destas que começaram continuaram até o final e talvez nenhuma delas siga até hoje. Apesar disso, assim como todas as outras mudanças, idas e vindas, eu sinto que nada disso passou completamente. E essa foi uma das lições que 2009 me deu. NADA passa completamente. Ainda mais pra mim.

Falando em mudanças, tudo mudou nesse ano. Meu peso, meus amigos, minhas manias, minha cozinha, minha visão de algumas coisas e de algumas pessoas. Pessoas... Ah, as pessoas de 2009... Acho que nunca me senti tão próxima das pessoas como neste ano. Consegui me libertar do hábito de ser extremamente anti-social, me libertar de todos os possíveis preconceitos que eu tinha dos seres humanos e me tornar mais... humana. E agora é tão claro pra mim que ser humano não é só carne e osso, que vai muito além da casca. E o quanto é lindo quando a gente deixa a casca de lado... Enfim. Desaprendi a mentir e reaprendi a sentir, o que doeu um pouquinho. Me encontrei nos outros e consegui falar, chorar, gritar, ouvir.

Na verdade 2009 me deu a oportunidade de reviver uma Valéria que eu pensava que tinha se perdido há muito tempo. E em 2010 a minha maior esperança é que eu consiga "continuar de onde eu parei" com essa Valéria que eu reencontrei aqui. Eu não vou dizer que em 2010 eu vou beber menos, arrumar um namorado, estudar mais, emagrecer ou ser mais organizada. Em tantos anos eu fiz isso e até agora nada. Eu só quero que 2010 me faça crescer tanto quanto 2009 me fez. E que dê tudo certo, mesmo que o certo nem sempre seja tão certo assim. Seja bem-vindo, 2010. Me traz tudo o que eu merecer, só não me leva quem ou o que eu aprendi a amar em 2009, viu. Só isso que não pode.

E isso não é uma retrospectiva.