Já não é de hoje que me dói. Dor no joelho por estar escalavrado, torcido ou simplesmente doído. É aquele tipo de coisa que dói por doer mesmo. Dor na cabeça de pensar e fazer ela girar tanto e tantas vezes em pouco tempo, ou simplesmente por que a tv estava no caminho da cabeça e agora está doendo. Dor nas costas, nos pés, na garganta. Essas dores já fazem parte do dia a dia. Elas doíam mais quando eu dava mais atenção e mais remédios pra elas. Me acostumei melhor com essas dores depois que outras chegaram. Afinal, o novo é sempre mais interessante.
Um dia estava deitada no sofá da sala de madrugada, pensando. Imaginando. Sentindo falta. Saudade. Mas era diferente, era uma saudade apertadinha, daquelas que dá vontade de sair correndo atrás daquilo que nos dá saudade. Era uma dor. Uma nova dor para minha coleção. Cheguei a conclusão que nunca havia sentido saudade antes, por que na verdade a saudade é como uma agulha bem fininha. Ela arranha um pouquinho e a gente não vê, mas quando a água quente do chuveiro passa ali, parece que arde de dentro pra dentro, mesmo. Só que com saudade toma-se vários banhos quentes por dia.
Outra vez eu assistia a uma cena, ao vivo. Eu não sabia por que mas eu queria muito sair dali, aquilo me incomodava e me dava vontade de fazer alguma coisa que fizesse parar. No fundo eu sabia que não ia fazer nada. E no fundo eu já sabia que era só um ciúmes dolorido. Logo eu, que nunca fui ciumenta, engolindo minhas própria palavras arranhadas.
Mas a maior das dores veio depois. Se sentir responsável pela dor de alguma outra pessoa dói mais que saudade, mais que ciúme, mais que raiva, mais que que todas. Olhar bem pro outro e vê-lo triste. Ouvir dele que é tudo por ti. O pior da dor da culpa não é a tristeza do outro, é saber que sim, tu podes fazer algo e mudar isso mas o teu egoísmo não deixa. No final das contas ninguém fica feliz, por que um sofre e o outro fica com o peso da culpa. Aprendi a evitar este peso, e me assumir uma efetiva e ativa egoísta. Não, procurar a minha felicidade nunca mais me doeu, desde então.
Todas essas dores são diferentes das dores físicas. Não sei dizer qual delas eu prefiro, por que todas elas já fazem parte de mim. Elas e mais uma. Essa uma eu não sei se é dor de verdade ou se o vazio aumentou tanto que ultrapassou os limites do peito e começou a doer também. Eu não sei se é uma culpa modificada, eu não sei de nada a respeito dela. Pode ser todas as anteriores somadas a inutilidade na qual me encontro, pode ser tantas coisas. Só sei que essa não é como as outras e essa eu não quero que faça parte de mim, como as outras.