domingo, 2 de maio de 2010

Velharias e ficção (ou não)

A velha cadeira rangia mais do que a porta que, sem sucesso, ele havia tentado abrir sem fazer barulho. O auge do inverno entrava pela janela, que mostrava a rua vazia e coberta pela neblina daquela madrugada. Não era uma alegre noite de sexta-feira, nem de sábado, e além do mais ele já devia estar em casa há horas, e não ali.

No fundo, ele sempre soube que conheceria aquele lugar, mais cedo ou mais tarde. Havia chegado a conclusão de que aquele era o momento errado, tudo que desejava era acordar e estar na sua cama torta, no seu colchão fino. Mas isso não ia acontecer, e pelo andar da carruagem nem dormir ele ia.
Ficou abraçado em si mesmo, tendo somente ele mesmo para se proteger do frio. No fundo ele sabia que somente ele poderia evitar qualquer coisa que não lhe fizesse bem, mas ultimamente seus anticorpos andavam falhando. Aproveitou a solidão do momento - como se ele não estivesse sozinho em todos os momentos - para olhar um pouco pra dentro. Andou até a janela, e a medida que andava sentia mais frio. Parou em frente ao vidro e olhou no seu reflexo semi-transparente, seus cabelos desajeitados, seus olhos inchados - talvez ele havia chorado sem perceber que o fazia. Olhou suas roupas, sua pele arrepiada, olhou seu coração. Seu coração permanecia vazio.

Naquele momento se lembrou de uma conversa que teve com uma amiga. Neste dia ele disse à ela que encarasse sua vida com maior intensidade. Disse que na realidade acreditava que não tinha sentido viver se fosse somente para acordar de manhã e ir trabalhar, sem sentir aquela brisa da manhã que discretamente parecia lhe rasgar o rosto. Ele também disse à ela que se dedicasse a conhecer as pessoas mais profundamente, que se dedicasse a chegar no coração delas. Lembrando-se disso sentiu um nó na garganta e percebeu que ele havia dito à ela tudo que ele pensava e acreditava, e dessas coisas que ele disse poucas ele fazia (ou quase nenhuma). Talvez fosse isso que faltava, talvez fosse esse o vazio que lhe invadia.
Pensou em colocar gelo para que seus olhos desinchassem, mas logo desistiu. Ele sabia que ia chorar muitas outras vezes naquela noite. Não era todo dia que ele chorava em lugares estranhos, não era todo o dia que ele lembrava das conversas que ele tinha com a sua amiga. Não era todo dia que ele parecia se entender.


Ficou com medo de sair dali. De ver o que ele não queria. Da porta ou da cadeira rangerem. Ficou com medo de acordar alguém, mesmo sem nem saber quem estava dormindo. Aliás, ficou com medo de não conseguir dormir. Ficou com medo de se dedicar às pessoas e estas lhe decepcionarem. De continuar dando conselhos que nem ele seguia. Medo de seguir estes conselhos. Medo de se entregar ao seu próprio coração e algum dos dois não conseguirem suportar. Medo do frio e da solidão. Naquele dia ele sentiu muito medo, sentiu muito frio. Sentiu muito por ele. Mas sobretudo, sentiu medo que todos os seus medos lhe impedissem de se livrar deles.