Ando querendo muitas coisas ultimamente. Não sei nem por onde começar. Fico querendo coisas novas, coisas que me façam querer mais ainda. Também quero coisas antigas, coisas que eu acho que nunca mais vou ter e o pior, nunca mais vou deixar de querer. Frequentemente me pego lembrando de alguns dias que eu queria de volta, de algumas coisas que ficaram por aí e eu queria encontrar. Quero lembrar do que foi esquecido, do que se confundiu. Quero fazer virar verdade o que é memória e colocar na memória o que é verdade. Quero que a verdade seja mais suave comigo, quero abrir os olhos e não ter vontade de fechá-los pra fugir. Quero andar com certeza em cada passo e não quero mais tropeçar tanto assim. Quero enxergar o lugar onde eu deixei o controle e quero conseguir recuperá-lo. Por que sabe, não quero mais que os canais mudem sozinhos. Queria não me importar tanto. Sempre quis, mas nunca soube como. Ainda não sei. Quero deixar de investir a curto prazo, quero meus sonhos, minhas vontades, meus livros, meus filmes, meus cadernos, meus hábitos. Me quero de volta. Te quero de volta. Sempre vou te querer de volta. Não sei quando e também não sei se acredito que isso vai deixar de ser um querer e passar a ser. Queria que antes não tivesse sido como foi, tanto e tão pouco. Queria saber o quanto. Quero sair daqui, bater a porta e não voltar nunca mais. Mandar alguma carta escrita a mão, de vez enquando, para quem eu quiser que saiba o quanto eu estou viva e vivendo. Ou quero, pelo menos, fazer do meu tempo livre alguma coisa egoístamente produtiva. Também quero não pensar nas coisas do trabalho durante o tempo livre. Quero menos solidão. Quero mais tempo. Quero menos dores. Quero que não seja tão difícil não se arrepender. Quero menos culpa. Queria controle, eu já disse isso né? Eu já disse tudo isso. Queria conseguir mudar, deixar pra trás, olhar pra frente. E queria não repetir tanto isso.
Entrar sem ser convidada lhe era comum. E foi assim que ela chegou, falando bem alto, falando com os braços, olhos, e principalmente com aquela voz meio taquara rachada. - Te dou os parabéns, o projeto do mundo ficou ótimo, deu super certo em quase todos os aspectos, a natureza, os animais e claro, o ser humano. Não posso negar que Tu se puxou na hora de criar o tal do ser humano, tão complexo e quase que completo. Todos nós, cada um de um jeito, cada um com seus lindíssimos detalhes físicos e mentais. Com esse monte de manias que nós temos, com toda essa capacidade infinita de pensamento. Lindo, lindo. Mas, Meu Caro, erraste em um pequeno detalhe, que diga-se de passagem faz muita diferença... Ali Ele até pensou em responder alguma coisa, mas aquela vozinha já se espalhava por tudo e impedia a Sua de continuar. - ...E sabe, esse teu erro eu penso ter sido proposital. Se bem que é preciso ter muito sangue frio e cara de pau para fazer isso com os pobres seres humaninhos, tadinhos. Na realidade, eu creio que Tu tenha achado que já tínhamos vantagens demais e esse detalhe ficaria por nossa conta. Mas veja bem, se nós não conseguimos nem nos beneficiar das coisas que Tu nos deu somente para o nosso bem, imagina se nos beneficiaríamos daquilo que nem nos foi dado.
Mas uma vez, Ele teve vontade de interferir, mas aquele monólogo começava a ficar quase ameaçador a qualquer um que o tentasse. - Para encurtar meu discurso, quero dizer é que muito daquilo criado pelo ser humano teve um fundo em comum. Várias pessoas que se inspiraram para trazer algum benefício ao próximo tinham, no fundo de suas almas, um desejo de que aquele fato lhe tornasse alguém especial para alguma pessoa específica. Estou dizendo o que todo mundo já sabe; grande parte de nossas ações são movidas pela nossa eterna carência, por essa incompletude que carregamos. E desde muito novos, nos bombardeam com lindas histórias e músicas e poesias, tudo isso girando em torno de um sentimento muito conhecido, que na realidade ninguém entende direito. Sabe do que eu estou falando, não sabe? Mas desde os tempos de Adão e Eva há um problema nesse cenário, e este problema vem se agravando com o passar dos anos. Não sei se Tu já deu nome pra isso, mas eu chamo de Síndrome de Barco Furado.
Teve vontade de rir mas percebeu que aquela voz não estava brincando. - Veja só, as pessoas se apaixonam, fazem loucuras uns pelos outros, fogem de casa, se excluem dos amigos. E com o passar do tempo elas já não se lembram mais onde começaram. É como quando alguém se enrola muito pra falar e esquece qual era o objetivo principal. É isso, o barco fura. Nem sempre ele afunda, mas sempre fura. Alguns barcos passam anos e anos navegando com um saco plástico tapando o furo, ficam até o fim da vida navegando. Alguns navegam em perfeito estado por algum tempo, furam e escondem esse furo com alguma coisa bela e cara em cima. Então um dia, numa limpeza, este furo é percebido. Alguns tentam relevar e seguir navegando mesmo assim, mas a maioria dos barcos furados não aguentam fortes tempestades. Outros, quando percebem o furo resolvem tentar consertá-lo, mas uma vez furado um barco nunca volta a navegar perfeitamente. Há também aqueles que furam logo na costa do mar e são deixados a navegar sozinhos. Estes nunca se recuperam. Somos assim, todos barcos furados. Podemos ir muito longe, mas sempre haverão alguns remendos, obscuros ou não. Se, por descuido, deixamos a água entrar, cabe a nós ou àquele que assumiu o leme tirar a água de dentro ou deixar afundar. Nestas situações, é comum afundarmos, pois quem assumiu o leme costuma pegar seu colete salva vidas e procurar outro barco para se socorrer - o que é inútil. Ele também é um barco furado. Todos somos.
- Filha, - respondeu Ele - não lhes projetei para navegar em alto mar. O mar é perigoso demais, mas em contrapartida, proporciona um prazer que compensa o perigo. Com todos os outros perigos não tão prazerosos do mundo, acabou tornando-se um refúgio ao ser humano. Minha ideia inicial não era colocar-lhes tão profundamente no mar, não quis nunca que vocês o entendessem ou o mapeassem, como decidiram fazer. Dei-lhes tanta capacidade racional que não achei que buscariam tão profundamente entender o vago. Vago este que nem eu mesmo entendi, e, sinceramente, não creio que vocês entenderão tão cedo. Cada um de vocês espera um barco em perfeito estado a cada porto, mas vocês nunca foram perfeitos em nenhum aspecto, por que seriam perfeitos para navegar em alto mar? Fique sabendo que seus barcos ainda afundarão e retornarão à superfície muitas e muitas vezes durante a vida, até que enfim, aprendam a nadar e não somente a remar.
E ela, que já não sabia mais o que dizer nem se havia entendido Seu recado, ficou quieta e distante. O mar era realmente mais difícil de compreender do que parecia, pensou. Virou as costas e foi indo embora, quando já na saída, ouviu Ele lhe sussurrar baixinho; - Mas prometo, filha, que quando Eu entender não privarei nenhum de vocês de tal dádiva.