quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Coisas soltas na borda da página
Na verdade queria que você passasse aqui na frente do portão enquanto eu fosse olhar as correspondências. Que daí a gente podia entrar, tomar um suco e conversar um pouco sobre essas coisas que a vida faz com a gente. Você poderia me contar daquilo que te encomodou ou daquilo que te deixou feliz hoje. Eu poderia te contar do sonho que eu tive esses dias. Foi lindo, e ah, não te contei né? Você estava nele. Estava feliz como há tempos não te vejo e sorria como se nunca tivesse deixado de fazê-lo. E a gente ia rir do sonho, ia rir da minha cadelinha que corre torto e late baixinho achando que assusta. E eu ia te oferecer mais um pouco de suco pra gente ter mais tempo pra conversar. E daí eu ia te mostrar uma música que há tempos quero que você escute. Não sei se você ia gostar, mas ela me lembra muito de você e eu ia gostar de te dizer isso, ia querer saber o que você acha. Depois eu até podia fazer alguma coisa pra gente jantar, ou também a gente podia sair pra passear um pouco pela rua. Essa noite tá tão agradável. Na verdade queria te ouvir um pouco. Eu falo demais e sei disso. Mas você não imagina como eu gosto de te ouvir. Eu poderia ficar horas te ouvindo. Tuas histórias, teus anseios, tuas dúvidas, tuas certezas. Você.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Vinhos baratos em taças de cristal
Faz dias que eu olho pra essa tela branca e não me vem nada. Não que eu não tenha nada pra dizer, mas parece que as coisas estão trancadas em mim e essas letras já não acompanham mais o que me vem de dentro. É estranho isso, por que eu não tenho uma grande dificuldade com palavras escritas. Tenho, inclusive, mais facilidade com elas do que com as faladas. Mas é que ultimamente parece que as coisas que eu tenho pra dizer sentem medo de sair daqui, e preferem ficar se confundindo com o resto. Ensaio títulos pra tudo que me acontece mas na metade do caminho eu acabo fechando o projeto e guardando num arquivo que nem sempre eu consigo acessar. Talvez eu tenha medo de não conseguir sair do lugar-comum onde eu sempre me encontrei, para discutir comigo mesma as coisas que eu quero saber de mim. Ou, quem sabe, eu tenha medo de parecer confusa demais aos olhos dos outros. Eu não sei mais não me importar com o que aquele que está de fora vai achar do que eu digo, talvez as críticas que fazem isso conosco.
Queria me deixar falar um monte de coisas soltas pra tentar ver se elas se encontram em algum ponto. Mas é complicado. É complicado por que na verdade eu ja não quero mais um ponto de encontro. Na verdade eu não sei mais o que eu quero, não sei mais o que eu queria dizer no início desse parágrafo, perdi o fio da meada. E não só aqui, por que eu já perdi o fio da meada de todos os parágrafos, hoje eu tenho andado pra lugar nenhum. E tem gente que lida super bem com essa coisa de "lugar nenhum" mas acontece que eu não sou assim, entende? Não sou mesmo. Não sei mais o que pensar. Nem o que escrever. Nem o que dizer. Não sei terminar um raciocínio, não sei terminar nada, eu acho.
Queria me deixar falar um monte de coisas soltas pra tentar ver se elas se encontram em algum ponto. Mas é complicado. É complicado por que na verdade eu ja não quero mais um ponto de encontro. Na verdade eu não sei mais o que eu quero, não sei mais o que eu queria dizer no início desse parágrafo, perdi o fio da meada. E não só aqui, por que eu já perdi o fio da meada de todos os parágrafos, hoje eu tenho andado pra lugar nenhum. E tem gente que lida super bem com essa coisa de "lugar nenhum" mas acontece que eu não sou assim, entende? Não sou mesmo. Não sei mais o que pensar. Nem o que escrever. Nem o que dizer. Não sei terminar um raciocínio, não sei terminar nada, eu acho.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Agosto
Todas as coisas que sabia que lhe atingiriam, mas não tão provavelmente aconteceriam, aconteceram. Todas juntas. Tudo aquilo que lhe ameaçava nos mais remotos e solitários pensamentos tornou-se realidade, bateu-lhe na cara. Era a vida lhe saindo dos eixos e lhe fugindo do controle. Não gostava disso. Parava para pensar e não chegava a conclusão alguma, procurava as fórmulas e os resultados saiam com mais de dez dígitos depois da vírgula. Nada certo nem objetivo, nada redutível. O nó era mais apertado do que imaginara e nada mais lhe parecia encaixar e fazer sentido.
Aceitava os fatos. Modificavam os fatos. Não sabia mais o que aceitar, já nem sabia no que acreditar. Até que ponto aquelas realidades não eram inventadas? E por que alguém inventaria tanto para lhe fazer sentir-se tão pouco? Aquele turbilhão de informações que não informava nada, que só confundia mais ainda. Aquelas perguntas que mais pareciam afirmações de tão insolúveis que eram. Tudo isso lhe rasgava por dentro, lhe doía em cada pedaço do corpo, que já não sustentava mais o peso da alma.
Em contrapartida, nem todos os espinhos machucavam tanto. Alguns fatos positivos lhe colocavam um sorriso discreto no rosto e confortavam temporariamente seu coração perdido. A cabeça fervia, sem compreender mais nada do que antes era aceitável.
Apesar de tudo que parecia querer lhe engolir, ainda restava o fio de esperança, que por muitas vezes foi ameaçado e questionado. Ele era quase uma teia de aranha, que tornava-se eventualmente invisível mas continuava lá, sustentando mais do que parece. Houveram momentos em que sua teia de aranha foi a própria e a única sustentação que lhe restou. Um sentimento de desistência lhe visitava dia após dia em seu próprio quarto, lhe chamando para o nada. Agarrava-se aos lençóis, tentando resistir bravamente, tentando não cair da cama e tentando voltar pro sono - único momento em que sentia que nada seria capaz de lhe atingir. Mas nem isso. Os seus sonhos eram invadidos por todos os pensamento que lhe atormentavam. As vezes nem precisava dormir para sonhar.
Estaria enlouquecendo? Tanto tempo de casulo teria lhe virado a saniedade ao avesso? Cogitou seriamente a possibilidade. Nem sabia mais quem era ou do que gostava. Não se encontrava mais na imagem que enxergava refletida no espelho. Nem lembrava mais de suas certezas, tudo parecia improvável, tudo parecia vazio. Vazio este, que tornou-se fiel escudeiro, que costurou-se com linha fina no fundo de seu coração. Procurou preenche-lo mas logo percebeu que a questão não era preencher ou não. O desafio real era desfazer os pontos e tirá-lo de lá. E sabia, que arrancar algo que já havia sido quase que absorvido pelo corpo não seria fácil nem indolor. Aceitou. Tentou. É, não era tão simples.
E foi assim que percebeu que nada era tão simples. As coisas que mais achava ter domínio foram aquelas que acabaram por lhe dominar. Tudo que mais quis foi o que mais lhe fez sofrer. O que achava conhecer mais profundamente foi o que mais lhe surpreendeu. Não sabia de mais nada e nem se interessava em saber também, afinal, acreditar que sabia só lhe serviu para decepcionar-se.
Entre trancos e barrancos sentia-se vencendo e livrando-se de todo o medo de não ter certeza. Já era um começo, um novo começo, talvez...
Aceitava os fatos. Modificavam os fatos. Não sabia mais o que aceitar, já nem sabia no que acreditar. Até que ponto aquelas realidades não eram inventadas? E por que alguém inventaria tanto para lhe fazer sentir-se tão pouco? Aquele turbilhão de informações que não informava nada, que só confundia mais ainda. Aquelas perguntas que mais pareciam afirmações de tão insolúveis que eram. Tudo isso lhe rasgava por dentro, lhe doía em cada pedaço do corpo, que já não sustentava mais o peso da alma.
Em contrapartida, nem todos os espinhos machucavam tanto. Alguns fatos positivos lhe colocavam um sorriso discreto no rosto e confortavam temporariamente seu coração perdido. A cabeça fervia, sem compreender mais nada do que antes era aceitável.
Apesar de tudo que parecia querer lhe engolir, ainda restava o fio de esperança, que por muitas vezes foi ameaçado e questionado. Ele era quase uma teia de aranha, que tornava-se eventualmente invisível mas continuava lá, sustentando mais do que parece. Houveram momentos em que sua teia de aranha foi a própria e a única sustentação que lhe restou. Um sentimento de desistência lhe visitava dia após dia em seu próprio quarto, lhe chamando para o nada. Agarrava-se aos lençóis, tentando resistir bravamente, tentando não cair da cama e tentando voltar pro sono - único momento em que sentia que nada seria capaz de lhe atingir. Mas nem isso. Os seus sonhos eram invadidos por todos os pensamento que lhe atormentavam. As vezes nem precisava dormir para sonhar.
Estaria enlouquecendo? Tanto tempo de casulo teria lhe virado a saniedade ao avesso? Cogitou seriamente a possibilidade. Nem sabia mais quem era ou do que gostava. Não se encontrava mais na imagem que enxergava refletida no espelho. Nem lembrava mais de suas certezas, tudo parecia improvável, tudo parecia vazio. Vazio este, que tornou-se fiel escudeiro, que costurou-se com linha fina no fundo de seu coração. Procurou preenche-lo mas logo percebeu que a questão não era preencher ou não. O desafio real era desfazer os pontos e tirá-lo de lá. E sabia, que arrancar algo que já havia sido quase que absorvido pelo corpo não seria fácil nem indolor. Aceitou. Tentou. É, não era tão simples.
E foi assim que percebeu que nada era tão simples. As coisas que mais achava ter domínio foram aquelas que acabaram por lhe dominar. Tudo que mais quis foi o que mais lhe fez sofrer. O que achava conhecer mais profundamente foi o que mais lhe surpreendeu. Não sabia de mais nada e nem se interessava em saber também, afinal, acreditar que sabia só lhe serviu para decepcionar-se.
Entre trancos e barrancos sentia-se vencendo e livrando-se de todo o medo de não ter certeza. Já era um começo, um novo começo, talvez...
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