Todas as coisas que sabia que lhe atingiriam, mas não tão provavelmente aconteceriam, aconteceram. Todas juntas. Tudo aquilo que lhe ameaçava nos mais remotos e solitários pensamentos tornou-se realidade, bateu-lhe na cara. Era a vida lhe saindo dos eixos e lhe fugindo do controle. Não gostava disso. Parava para pensar e não chegava a conclusão alguma, procurava as fórmulas e os resultados saiam com mais de dez dígitos depois da vírgula. Nada certo nem objetivo, nada redutível. O nó era mais apertado do que imaginara e nada mais lhe parecia encaixar e fazer sentido.
Aceitava os fatos. Modificavam os fatos. Não sabia mais o que aceitar, já nem sabia no que acreditar. Até que ponto aquelas realidades não eram inventadas? E por que alguém inventaria tanto para lhe fazer sentir-se tão pouco? Aquele turbilhão de informações que não informava nada, que só confundia mais ainda. Aquelas perguntas que mais pareciam afirmações de tão insolúveis que eram. Tudo isso lhe rasgava por dentro, lhe doía em cada pedaço do corpo, que já não sustentava mais o peso da alma.
Em contrapartida, nem todos os espinhos machucavam tanto. Alguns fatos positivos lhe colocavam um sorriso discreto no rosto e confortavam temporariamente seu coração perdido. A cabeça fervia, sem compreender mais nada do que antes era aceitável.
Apesar de tudo que parecia querer lhe engolir, ainda restava o fio de esperança, que por muitas vezes foi ameaçado e questionado. Ele era quase uma teia de aranha, que tornava-se eventualmente invisível mas continuava lá, sustentando mais do que parece. Houveram momentos em que sua teia de aranha foi a própria e a única sustentação que lhe restou. Um sentimento de desistência lhe visitava dia após dia em seu próprio quarto, lhe chamando para o nada. Agarrava-se aos lençóis, tentando resistir bravamente, tentando não cair da cama e tentando voltar pro sono - único momento em que sentia que nada seria capaz de lhe atingir. Mas nem isso. Os seus sonhos eram invadidos por todos os pensamento que lhe atormentavam. As vezes nem precisava dormir para sonhar.
Estaria enlouquecendo? Tanto tempo de casulo teria lhe virado a saniedade ao avesso? Cogitou seriamente a possibilidade. Nem sabia mais quem era ou do que gostava. Não se encontrava mais na imagem que enxergava refletida no espelho. Nem lembrava mais de suas certezas, tudo parecia improvável, tudo parecia vazio. Vazio este, que tornou-se fiel escudeiro, que costurou-se com linha fina no fundo de seu coração. Procurou preenche-lo mas logo percebeu que a questão não era preencher ou não. O desafio real era desfazer os pontos e tirá-lo de lá. E sabia, que arrancar algo que já havia sido quase que absorvido pelo corpo não seria fácil nem indolor. Aceitou. Tentou. É, não era tão simples.
E foi assim que percebeu que nada era tão simples. As coisas que mais achava ter domínio foram aquelas que acabaram por lhe dominar. Tudo que mais quis foi o que mais lhe fez sofrer. O que achava conhecer mais profundamente foi o que mais lhe surpreendeu. Não sabia de mais nada e nem se interessava em saber também, afinal, acreditar que sabia só lhe serviu para decepcionar-se.
Entre trancos e barrancos sentia-se vencendo e livrando-se de todo o medo de não ter certeza. Já era um começo, um novo começo, talvez...