No tempo das vacas gordas a gente matava o tempo tomando suco de laranja na antiga padaria e jogando em maquininhas de azar, onde, caso aparecessem três relógios na sequência, a gente podia ganhar umas moedas que há um tempo atrás alguém colocou ali. Só que daí o tempo passou e a gente cresceu, e agora já não tem mais tempo pra nada. A padaria já não é mais padaria, e as maquininhas de jogos de azar foram proibidas. O tempo passou e levou com ele o nosso tempo, quando a gente se entendia sem entender muito bem do resto. Na verdade, não tinha muita importância entender tanto assim. No nosso tempo a gente achava que tinha todo o tempo do mundo pra tudo e temperava nossos dias com sorrisos e histórias que nós viveríamos no futuro. Mal tínhamos passado para nos lembrar. Mas os anos voaram, e talvez levaram algumas partes daquilo que acreditávamos que só cresceria com o tempo. Quem cresceu fomos nós. Descobrimos que o relógio da vida não gira só para um lado, o tempo leva cada ponteiro para uma direção distinta. Talvez não se encontrem mais. Descobrimos que não se cresce só pra cima, não se cresce só com o corpo.
Acredito que hajam poucas coisas que o voar dos anos não leve. E o que fica não tem um nome exato, mas constrói tudo que nos tornamos até hoje, e tudo que nos tornaremos no futuro. Dá saudade. Cada segundo dos tempos pelos quais passamos modifica um detalhe em nós. Talvez tenha sido justamente estes detalhes que fizeram com que o nosso tempo passasse. Guardamos os nossos melhores segundos no fundo do armário, e as vezes, quando nossa casa entra em tempo de mudanças, encontramos eles em meio a bagunça construída pela nossa própria falta tempo. E assim percebemos que a gente se perdeu com o passar dos anos. Já não nos conhecemos mais. Sequer nos vemos. Quando nos encontramos, deixamos um no outro aquela sensação de que nunca vai ser a mesma coisa. E não vai mesmo. O nosso tempo não volta.