terça-feira, 23 de novembro de 2010

Promessas e tubarões

Ao lado do padre, separados por uma tela que escondia seu rosto, contou sobre tudo que havia se passado. "Não há nenhum pecado nisso" disse o sacerdote. Mas não acreditava. Depois de contar àquele desgraçado fantasiado de santo cada pensamento perturbador que havia passado em sua cabeça, não conseguia aceitar aquela frase. "Como pode não haver pecado em tudo isso?" perguntava-se enquanto observava os desenhos dos paralelepípedos na volta pra casa. O cheiro do almoço que sua mãe preparava era tão bom quanto o cheiro que sentia nos lugares sujos pelos quais vagava nas madrugadas. Já não acreditava mais que as coisas eram aquilo que diziam que elas eram, ultimamente defendia a ideia de que tudo era relativo ao estado em que o perceptor se encontrava. Dito isso, tanto o almoço, repleto de temperos e especiarias e preparado com todo o amor e carinho pela sua mãe, quanto a cachaça ingerida e expelida por pessoas dos piores tipos, exalavam o mesmo aroma.
Não acreditava no padre quando ele dizia que não haviam pecados cometidos em suas atitudes. Tinha plena convicção de que estava cometendo os piores pecados já vistos pela humanidade. Também não acreditava na igreja, portanto, era indiferente que o padre considerasse seus pensamentos pecaminosos ou não, este sendo seguidor e representante dos ensinamentos católicos. Mas tinha esperança de que pelo menos a instituição mais preconceituosa e sem argumentos que a sua sociedade conhecia o condenasse a alguma coisa. Mas nem isso.
Antes mesmo daquele almoço com cheiro de ruela vomitada ficar pronto, resolveu sair. Todas aquelas pessoas correndo até os restaurantes de sua preferência para fazer sua refeição, com a devida pressa que o relógio exige. Todos eles portariam-se frente as mesas do recinto, observariam a comida e, apesar da fome que lhes corroía o estômago por esperarem até o meio dia para comer, tentariam fazer a refeição devagar, pois na televisão a nutricionista disse que comer devagar faz bem para a saúde. Todas aquelas pessoas tentariam colocar no prato as gororobas mais saudáveis disponíveis ali, por que a nutricionista também disse que a alimentação saudável faz parte de uma vida feliz. Feliz. "Mas que porra de vida feliz é esta, onde nem comer o que eu gosto é permitido?" se perguntava. "Logo comer, que é talvez a atitude mais solitária e egoísta do ser humano." Atravessou a rua no sinal vermelho, contando com a companhia de diversas outras pessoas que aguardavam o sinal verde trancar a passagem dos carros para seguir seu rumo. Que aguardavam as promoções de natal para adquirir o que lhes faltava. Que aguardavam a ceia do dia 25 de dezembro para abraçar a sua família. O mês de janeiro para tirar férias e o de fevereiro para usar o carnaval como desculpa para entipir o corpo de álcool e sair na rua festejando alguma coisa que não se sabe ao certo o que é. E passariam a vida inteira aguardando alguma liberação do calendário para fazer alguma coisa sem o mínimo de sentido e que não acrescentaria em nada na felicidade que tanto buscam.
Nada que acontecesse naquela rua, nem naquela cidade, nem no país, faria nenhuma daquelas pessoas encontrar a sua felicidade. E nada do que aquelas pessoas condenadas a infelicidade lhe dissessem faria sentido, pois o que mais desejava para sua vida é que ela tomasse um rumo diferente da vida de cada um daqueles que esperavam o calendário fazer milagres. Mas continuaria. Seguiria andando em meio a toda aquela infelicidade encrostada no mundo. Continuaria se esforçando para que isso não lhe engolisse. Não seria capaz de se render agora, apesar de saber que seria muito mais fácil entregar os pontos do que lutar. Mas se tudo havia se tornado tão sem graça naquilo que lhe disseram ser a vida, pelo menos essa luta deveria lhe fazer algum sentido, afinal, aqueles dos quais desejava se diferenciar dedicaram suas pseudo-vidas a fugir dela.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Homem de lata

De mãos vazias e cabeça cheia, ele segue. Trilha cuidadosamente seus caminhos, esquematiza friamente cada passo. E ele segue. Com um punhado de corações expostos como troféus e com um tanto de culpa escondida no fundo do armário. Curiosamente, ele sente cada gota de chuva que lava a sua alma. Mas que alma?
Ele segue sem saber para onde vai. Ele segue iluminando ruas escuras com seu sorriso. Ele segue filtrando o mundo com o seu olhar. E leva com ele tudo que lhe é pertinente. E pensa. E sente.
Por mais que tente fingir que não, sente até demais. Como se isso fosse um crime, ele se condena toda a vez que o sangue parece correr mais forte. Toda a vez que tem vontade de ir além, ele se arrepende de ter entrado. Toda vez que descobre o quão belas podem ser as ruas escuras que seu sorriso ilumina, obriga-se a ficar sério. Como uma máquina, gira nos calcanhares e retoma o caminho anterior. E como uma máquina, ele precisa encontrar combustível. Ele precisa de mais ruas escuras.
Ele precisa fugir, como se tivesse medo daquilo que não pode ver. Aquilo que não parece ser real o suficiente o espanta, apavora. Mas encanta. E os dias vão passando e acumulando nele uma peculiar vontade de conhecer o novo. Uma certa curiosidade por tudo aquilo que não lhe é palpável. Uma vontade tão forte e tão presente que parece não caber em si. Talvez tudo que ele é capaz de sentir seja maior que a armadura por trás da qual ele se esconde.

Me conte seus segredos, homem de lata. Me deixe ver o que os seus olhos não deixam transparecer. Me diga por que ainda insiste nessa armadura enferrujada. Se permita seguir sem ela. Acredite em mim, homem de lata, os seus passos serão mais leves. Acredite em você também, e em toda a capacidade que você tem...
Homem de lata, feche os olhos, me dê a sua mão. Vamos em frente. Se você achar que vai cair, que não conseguirá se sustentar sem a sua armadura, pode se segurar em mim. Faz tempo que eu deixei a minha de lado, e isso me fez mais forte. Vai te fazer mais forte também....

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Poesia

Não sei fazer poesia
Nem faço questão
Não gosto de poesia
Na verdade até gosto
Só acho cansativo esse formato
Frase-sobre-frase

Parece que não conclui
E ainda por cima
Poesia não tem ponto
Nem parágrafo
Nem frase grande cheia de vírgula
Mas justamente por isso
Eu quis fazer

Parece que eu não concluo
É que nem poesia
Parece que rima
Parece até que pode ser música
Parece uma porção de coisas
E na verdade é só
Frase-sobre-frase

Não sei fazer poesia
Mas gostaria
Por que poesia tem uma certa
Musicalidade
É bonito quando rima
Mas só é bonito
As vezes rimas não dizem nada
Só tão ali pra rimar mesmo
Daí é só forjar alguma coisa
Que termine com ada
Por exemplo, estancada
E pronto, é fácil
É fácil e vazio, na verdade

A gente se força
A dizer coisas que nem queria
Pra combinar com a linha de cima
E depois ainda muda outras coisas
Pra fechar com o ritmo
E desperdiça a linha inteira
Pra dizer, as vezes
Umasópalavra

Não gosto de poesia
Não gosto de fechar com o ritmo
Nem de ser musical
Não gosto de rimas
Não gosto de palavras sozinhas
Nem de linhas desperdiçadas
Também não gosto de frase sem ponto
Sem vírgula
Sem fim

Não faz meu tipo
Essa coisa forçada, forjada, desperdiçada
Sozinha
Essa coisa que combina demais

Com a linha de cima
Que dança conforme a música
Que sempre cai
Pro mesmo buraco
Que sempre rima
O ar com o amar

E acaba sempre igual
Sempre normal
Sem sal
Usual
Frase-sobre-frase

Não sei fazer poesia.