De mãos vazias e cabeça cheia, ele segue. Trilha cuidadosamente seus caminhos, esquematiza friamente cada passo. E ele segue. Com um punhado de corações expostos como troféus e com um tanto de culpa escondida no fundo do armário. Curiosamente, ele sente cada gota de chuva que lava a sua alma. Mas que alma?
Ele segue sem saber para onde vai. Ele segue iluminando ruas escuras com seu sorriso. Ele segue filtrando o mundo com o seu olhar. E leva com ele tudo que lhe é pertinente. E pensa. E sente.
Por mais que tente fingir que não, sente até demais. Como se isso fosse um crime, ele se condena toda a vez que o sangue parece correr mais forte. Toda a vez que tem vontade de ir além, ele se arrepende de ter entrado. Toda vez que descobre o quão belas podem ser as ruas escuras que seu sorriso ilumina, obriga-se a ficar sério. Como uma máquina, gira nos calcanhares e retoma o caminho anterior. E como uma máquina, ele precisa encontrar combustível. Ele precisa de mais ruas escuras.
Ele precisa fugir, como se tivesse medo daquilo que não pode ver. Aquilo que não parece ser real o suficiente o espanta, apavora. Mas encanta. E os dias vão passando e acumulando nele uma peculiar vontade de conhecer o novo. Uma certa curiosidade por tudo aquilo que não lhe é palpável. Uma vontade tão forte e tão presente que parece não caber em si. Talvez tudo que ele é capaz de sentir seja maior que a armadura por trás da qual ele se esconde.
Me conte seus segredos, homem de lata. Me deixe ver o que os seus olhos não deixam transparecer. Me diga por que ainda insiste nessa armadura enferrujada. Se permita seguir sem ela. Acredite em mim, homem de lata, os seus passos serão mais leves. Acredite em você também, e em toda a capacidade que você tem...
Homem de lata, feche os olhos, me dê a sua mão. Vamos em frente. Se você achar que vai cair, que não conseguirá se sustentar sem a sua armadura, pode se segurar em mim. Faz tempo que eu deixei a minha de lado, e isso me fez mais forte. Vai te fazer mais forte também....