quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Ano novo, vida nova

Trinta de dezembro de dois mil e dez. Aquela calmaria característica de penúltimo dia do ano para a maioria dos viventes, enquanto os mais avoados tentam resolver as pendências que deveriam estar resolvidas há algumas páginas anteriores do calendário. Todas as roupas brancas se esgotando dos estoques das lojas de departamento, todos os espumantes de preço acessível sumindo das gôndolas dos supermercados. As estradas, se preparando para o engarrafamento fenomenal que viria nas próximas horas, a areia da praia aproveitando o vento que os milhares de pés a caminho não mais a possibilitariam de sentir. O diretor de arte das grandes emissoras de televisão cuidando dos últimos detalhes daquele relógio digital responsável pela contagem regressiva da chegada do novo ano.
Eis que da televisão, é emitido um dos mais temidos, quiçá, o mais temido dos sons que o povo brasileiro tem conhecimento. Aquele que faz as donas de casa, fãs de programas matinais apresentados por moças simpáticas, sentirem arrepiar até o último fio de cabelo alisado artificialmente, aquele que faz com que os empresários larguem suas xícaras de café ao encontro do chão, voltando todos os olhares para a caixinha mágica que tudo sabe: A musiquinha do plantão. Musiquinha esta, que nunca havia durado tanto tempo quanto naquele penúltimo dia do ano. O país havia parado para saber da útima tragédia que 2010 havia reservado ao sofrido povo brasileiro. Dentro da televisão aparece a imagem daquele homem, que devido a constante presença entre os jantares de família, pode ser chamado, carinhosamente, de Bonner. Naquele momento ele não sustentava mais sua expressão neutra de jornalista sério, referência em sua área. Ele não vestia um terno superliso, brilhante, e eu diria até, cheiroso, como costumava fazer no telejornal que apresentava. Bonner vestia uma camiseta verde, dessas de andar em casa, que combinam com bermuda de temas florais. Possuía uma expressão cansada, de todas as más notícias que deu durante o ano e de não ter conseguido passar na sala da maquiadora para disfarçar suas imperfeições. Parecia assustado. Lia em um pedaço de papel que, aparentemente, havia sido anotado à mão, a notícia que, provavelmente, lhe tirara de casa direto para frente daquela câmera. Dizia que o ano tinha acabado. Que o ano, cansado de acabar sempre no final do dia trinta e um de dezembro, resolvera acabar na metade do dia trinta. Simultaneamente, no twitter, o G1, o Terra, a Folha, e todos os similares a estes também publicavam suas versões do ocorrido.
O povo entrou em pânico e logo espalhou-se o boato de que era coisa do atual presidente. No twitter, diversas piadinhas foram feitas e tantas outras hashtags criadas para o acontecimento. Tamanho foi o burburim gerado pela notícia, que a rede de miniblogs começou a anunciar "over capacity." Mas sem a baleia, que havia se preparado para chegar somente amanhã, próximo à meia noite, nas telas dos computadores.
Um sentimento de vazio instalou-se por todos os lares brasileiros. Perguntavam-se sobre os seus planos para a virada, sobre as sete ondinhas, sobre o seu último porre do ano, sobre os abraços que planejavam dar em seus entes queridos. Perguntavam-se sobre a dieta que haviam planejado fazer em 2011, mas só depois da ceia, que não estava nem próxima de ficar pronta. Alguns estavam na fila para pagar o bacalhau - cujo preço subiu absurdamente - e já não sabiam mais se importava comer ou não o bicho que nada pra frente, agora que o ano já havia terminado. Outros, olhavam aquele lombinho de porco, que fuça também para frente, e se perguntavam se deveriam colocar ele no forno ou no freezer.
Perante à bombástica notícia, a estrada sentiu-se aliviada, assim como a areia da praia. Pelo menos um ano de folga pras elas, pobrezinhas. Fogos de artifício foram estourados sem que praticamente ninguém percebesse, pois o sol brilhava muito mais forte que todos eles juntos.
As pessoas não se abraçaram, não se declararam uns pros outros. Elas não haviam estourado suas garrafas de espumante barato, nem a cerveja comprada para a festa estava gelada. As listas de promessas para 2011 ainda não estavam concluídas, mas foram deixadas de lado. Quem sabe no que vem a virada aconteça no dia certo. A população inteira entrou o novo ano reclamando do dia que havia lhe sido furtado por... por quem mesmo? Bom, não importa. Um dia é muito tempo. Dois mil e onze estava perdido para sempre. Nenhuma promessa seria cumprida, nada seria comemorado, nenhuma roupa nova seria usada. Prevaleceria durante o ano todo, no coração de cada um, o rancor pelo dia a menos de 2010. Comentários de que "ele não podia acabar assim" tornariam-se quase um mantra na vida das pessoas, que passariam 2011 inteiro sentindo medo do calendário. Ele poderia lhes tirar tudo o que tinham. Toda a expectativa. Toda a espera. Todas as festas. Todos os momentos de felicidade. E passariam o ano inteiro esperando o dia 31 de dezembro, do qual tanto sentiram saudade, para que 2011 acabasse e eles recomeçassem a viver tranquilamente suas esperas, quero dizer, suas vidas.