Morreu de inspiração. Aquilo lhe enchia e não esvaziava enquanto dali não saísse. O medo de se enxergar fora e de o que seria visto pelos outros não lhe deixava externar mais nada. O corpo machucado de tudo aquilo que debatia-se ali dentro, sangrando, fervendo, apodrecendo. Dolorido, cansado, inchado, ferido, ele se entregou. O corpo não mais conseguia suportar o peso. Morreu. Tinha espasmos mesmo depois de morto. O cadáver foi encontrado ferido, e logo descobriu-se que os ferimentos foram todos posteriores à morte. O medo foi-se junto com a vida e tudo que ali tinha ficado por tanto tempo correu desesperadamente para fora, jogando aquele pedaço de carne contra pedras, paredes, espinhos.
Não havia mais dor, não havia mais medo e agora, finalmente, a inspiração também conseguiu libertar-se.
Ainda cheirava bem pois de nenhum dos ferimentos saiu sangue. De cada abertura daquela pele saiu um pouco do havia lhe matado. Não apodreceu e, inclusive, sobreviveu. Sobreviveu depois de morrer de inspiração pois aquilo que os ferimentos exalavam era cheiroso para qualquer olfato. E cheirar era pouco. Queriam ver, ouvir, tocar, sentir.
Foi morrendo que finalmente libertou-se do medo. Só a morte o levou embora, e assim, abriu-se espaço para desconhecidos. Desconhecidos sentimentos e desconhecidos cadáveres tentando sobreviver também, perguntando-lhe como conseguiu, implorando por ajuda, tentando ter ali um lugar. O medo nunca mais voltou, nunca mais conseguiu espaço para entrar pois todas as portas eram vigiadas interna e externamente. Só o máximo de segurança podia garantir que o medo não entraria mais ali. Quando outras portas se abriam a segurança era reforçada, pois o medo, sabendo que todo o recente é vulnerável, logo tentaria utiliza-las de entrada. Não era fácil impedir mas conseguia e utilizaria de qualquer força para que assim continuasse.
domingo, 18 de dezembro de 2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
Diálogo
- Que qui tem te feito feliz?
- Ãnh? Feliz? Nem sei. Sei que eu tô sempre feliz, sim.
- Por isso te perguntei. Nem parece mais a mesma criatura melancólica que eu conheci esses dias. Há tanto tempo atrás.
- Na verdade, eu não sei. Não me lembro quem era e como era essa criatura. Mas a minha felicidade é melancólica, mesmo. Não repara.
- Não te parece mais. Eu não te vejo mais. Nunca aparece onde ando, como fazia antes. Quer dizer, até aparece, mas quando já estou sufucientemente fora de mim pra ser como tu.
- Nós somos iguais. Tu sabe disto. Não me venha com essa conversa de novo. Já sabemos qual vai ser o desfecho. Não quero choradeira hoje, por favor. Sabemos que tá tudo errado. Mas faz tanto tempo, tem tanta coisa pra falar. Não fica me analisando. Eu não gosto disso.
- Mas eu sei que tu tá sempre analisando todo mundo. Não consigo evitar.
- Só quando me pedem.
- Ninguém pede, ninguém quer isso.
- Mas me pedem, sim. Tu que não sabe. Porque nunca te pedem, tu nunca tá lá quando começam a pedir isso. Tu sempre vai embora cedo. Eu fico até amanhecer. Até mais, as vezes.
- Morro de sono e sei que vou querer ir embora muito antes de amanhecer. Daí já não tem mais ter como.
- Tem como, sim. Se tu quiser, fica até a hora que tu achar melhor. Mas a tua preguiça e teu comodismo e teu comprometimento excessvo com coisas que nem são tudo isso nunca te deixam ficar até a hora que tu quer.
- Ah, sim, meu comprometimento excessivo, sim. Como se tu soubesse te comprometer com alguma coisa.
- Não sei mesmo, não sei. Quando eu tiver que aprender, eu aprendo. Quando a água bate na bunda a gente aprende a nadar. Que se foda.
- Acho que já me bateu faz tempo. Meio que me afoguei mas tô tentando correr atrás. Pior tu que nem tenta. Na primeira brecha já tá boiando e parando na primeira costa.
- Sim. Eu sei. Tu quer mesmo ficar nessa? Logo hoje?
- Não.
- Toda vez é assim. Não queria que fosse assim. Não aguento isso, sempre se radiografando, que merda. A gente não julga ninguém, só nós. Vamos parar com isso, sério mesmo.
- Deu. Sério.
- Tá.
- Ãnh? Feliz? Nem sei. Sei que eu tô sempre feliz, sim.
- Por isso te perguntei. Nem parece mais a mesma criatura melancólica que eu conheci esses dias. Há tanto tempo atrás.
- Na verdade, eu não sei. Não me lembro quem era e como era essa criatura. Mas a minha felicidade é melancólica, mesmo. Não repara.
- Não te parece mais. Eu não te vejo mais. Nunca aparece onde ando, como fazia antes. Quer dizer, até aparece, mas quando já estou sufucientemente fora de mim pra ser como tu.
- Nós somos iguais. Tu sabe disto. Não me venha com essa conversa de novo. Já sabemos qual vai ser o desfecho. Não quero choradeira hoje, por favor. Sabemos que tá tudo errado. Mas faz tanto tempo, tem tanta coisa pra falar. Não fica me analisando. Eu não gosto disso.
- Mas eu sei que tu tá sempre analisando todo mundo. Não consigo evitar.
- Só quando me pedem.
- Ninguém pede, ninguém quer isso.
- Mas me pedem, sim. Tu que não sabe. Porque nunca te pedem, tu nunca tá lá quando começam a pedir isso. Tu sempre vai embora cedo. Eu fico até amanhecer. Até mais, as vezes.
- Morro de sono e sei que vou querer ir embora muito antes de amanhecer. Daí já não tem mais ter como.
- Tem como, sim. Se tu quiser, fica até a hora que tu achar melhor. Mas a tua preguiça e teu comodismo e teu comprometimento excessvo com coisas que nem são tudo isso nunca te deixam ficar até a hora que tu quer.
- Ah, sim, meu comprometimento excessivo, sim. Como se tu soubesse te comprometer com alguma coisa.
- Não sei mesmo, não sei. Quando eu tiver que aprender, eu aprendo. Quando a água bate na bunda a gente aprende a nadar. Que se foda.
- Acho que já me bateu faz tempo. Meio que me afoguei mas tô tentando correr atrás. Pior tu que nem tenta. Na primeira brecha já tá boiando e parando na primeira costa.
- Sim. Eu sei. Tu quer mesmo ficar nessa? Logo hoje?
- Não.
- Toda vez é assim. Não queria que fosse assim. Não aguento isso, sempre se radiografando, que merda. A gente não julga ninguém, só nós. Vamos parar com isso, sério mesmo.
- Deu. Sério.
- Tá.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Naturalmente
Certo dia ela apareceu no fim da tarde, convidando-o para dar uma volta por ali. Assim mesmo, sem avisar. Era o dia mais quente do ano e o sol ainda estava imperdoavelmente escaldante àquela hora. Como não poderia deixar de ser, andaram até o boteco de preço mais acessível da redondeza, sentaram-se na única mesa de ferro da calçada e pediram um cinzeiro e a cerveja mais barata que o estabelecimento oferecia. Conversaram por horas. Riram como há tempos não riam. Conseguiram até esquecer do quão corridos foram os últimos dias, do estresse, da insatisfação, das dívidas, dos questionamentos, dos juros, das dores. Esqueceram até mesmo do calor que os castigava durante aquela estação.
Já anoitecia quando começaram a contabilizar os gastos e os ganhos. Na verdade, os gastos não importavam muito naquele momento. Os salários recém-depositados ainda passavam a impressão de inesgotabilidade, sobretudo depois de alguns copos e tantas risadas. Os ganhos eram contabilizados não só deste dia ou semana, mas desde o início de todo o processo de aproximação. Uma das coisas mais interessantes das relações humanas é este processo de aproximação entre duas pessoas interessadas em fazê-lo. Vontade mútua de saber mais do outro, pretextos para estar próximo, contatos físicos discretos e involuntariamente forçados são algumas das diversas pequenas construções de casualidades, que variam de interessado para interessado, e que caracterizam esta aproximação.
Já era tarde da noite quando levantaram-se para ir embora. Caminharam pela rua vazia, ouviram uma música qualquer e ensaiaram alguns passos de um dança que só eles conheciam, talvez por terem criado naquele mesmo instante. Um trocar de pernas colocou eles no chão e por ali mesmo ficaram. A chuva caiu-lhes sobre os ombros, sobre as cabeças, sobre as pernas, fazendo questão de manter os dois calados. Sentiram aquela chuva de verão como se fossem estas as últimas gotas que o céu lhes ofereceria.
Deitaram-se na cama, nus, com a água do chuveiro ainda espalhada pelo corpo. Se olharam naquela luz baixa que entrava pela janela entreaberta. Sorriram. Noite adentro, passearam um no outro com a liberdade de quem já conhecia cada trecho do passeio. E conheciam. Nos pensamentos de cada um deles, conheciam, sim. Tanto imaginaram aquele momento que ele acabou por acontecer naturalmente. É assim que acontece o amor. Naturalmente. Não importa a circunstância, importante é ele acontecer.
Eles, por exemplo, amaram-se muito.
Apesar disto, naquela manhã de calor, questionamentos e dívidas, acordaram não mais se amando. Mas amaram-se. Infinitamente. Desde o primeiro gesto de aproximação, até a hora de acordar. Infinitamente.
Já anoitecia quando começaram a contabilizar os gastos e os ganhos. Na verdade, os gastos não importavam muito naquele momento. Os salários recém-depositados ainda passavam a impressão de inesgotabilidade, sobretudo depois de alguns copos e tantas risadas. Os ganhos eram contabilizados não só deste dia ou semana, mas desde o início de todo o processo de aproximação. Uma das coisas mais interessantes das relações humanas é este processo de aproximação entre duas pessoas interessadas em fazê-lo. Vontade mútua de saber mais do outro, pretextos para estar próximo, contatos físicos discretos e involuntariamente forçados são algumas das diversas pequenas construções de casualidades, que variam de interessado para interessado, e que caracterizam esta aproximação.
Já era tarde da noite quando levantaram-se para ir embora. Caminharam pela rua vazia, ouviram uma música qualquer e ensaiaram alguns passos de um dança que só eles conheciam, talvez por terem criado naquele mesmo instante. Um trocar de pernas colocou eles no chão e por ali mesmo ficaram. A chuva caiu-lhes sobre os ombros, sobre as cabeças, sobre as pernas, fazendo questão de manter os dois calados. Sentiram aquela chuva de verão como se fossem estas as últimas gotas que o céu lhes ofereceria.
Deitaram-se na cama, nus, com a água do chuveiro ainda espalhada pelo corpo. Se olharam naquela luz baixa que entrava pela janela entreaberta. Sorriram. Noite adentro, passearam um no outro com a liberdade de quem já conhecia cada trecho do passeio. E conheciam. Nos pensamentos de cada um deles, conheciam, sim. Tanto imaginaram aquele momento que ele acabou por acontecer naturalmente. É assim que acontece o amor. Naturalmente. Não importa a circunstância, importante é ele acontecer.
Eles, por exemplo, amaram-se muito.
Apesar disto, naquela manhã de calor, questionamentos e dívidas, acordaram não mais se amando. Mas amaram-se. Infinitamente. Desde o primeiro gesto de aproximação, até a hora de acordar. Infinitamente.
domingo, 27 de novembro de 2011
As vezes
Sou invisível. Desconheço o motivo. Pode ser a feiura, mas também pode ser o sobrepeso. Não tenho nada a ver com nenhum de vocês. Eu sou desespero e medo, exalando solidão. Sempre. Vocês são sorrisos, expectativa, promissão. Posso estar no mesmo lugar onde milhares de pessoas estão, mas minha solidão acontece pelo fato de que nenhuma destas pessoas está neste espaço pelo mesmo motivo que eu. Estou sozinha nos meus motivos, e, portanto, estou constante e completamente sozinha. É uma questão de perspectiva.
Eu não existo no lugar onde estou. É como se não ocupasse lugar nenhum. E é muito constrangedor não ocupar lugar nenhum. Sou incômodo aos outros.
A tristeza disso tudo é uma questão de consciência. Um indivíduo só é triste quando se dá por conta de que as atitudes dele interferem negativamente em contextos onde ele acreditava que elas interfeririam positivamente.
Eu sou triste demais. As vezes.
Eu não existo no lugar onde estou. É como se não ocupasse lugar nenhum. E é muito constrangedor não ocupar lugar nenhum. Sou incômodo aos outros.
A tristeza disso tudo é uma questão de consciência. Um indivíduo só é triste quando se dá por conta de que as atitudes dele interferem negativamente em contextos onde ele acreditava que elas interfeririam positivamente.
Eu sou triste demais. As vezes.
domingo, 20 de novembro de 2011
Em casa
Mais uma vez arrasto os pés como quem caminha à procura dos seus sonhos perdidos em outras horas, em outras vidas, em outras camas. Só não estou mais em casa quando os arrasto e os procuro. Já nem sei mais onde ela fica. Desconheço o lugar exato onde posso estar em casa. Talvez me sinta em casa numa quantidade muito grande de lugares distintos.
O importante de se sentir em casa, acredito eu, é estar à vontade. Eu consigo me sentir à vontade em tantos lugares que acabei por perder minha própria casa. E a questão não é lugar, e sim, as pessoas. De novo, as pessoas. Elas sempre são o fator determinante.
Em casa, tenho as pessoas que ali vivem, sendo elas as mesmas com as quais vivi parte da minha vida. Nos demais lugares onde me sinto em casa também existem pessoas com as quais vivi parte da minha vida. Esta parte é pequena, mas, dela, é imensa a importância.
No mesmo lugar onde me senti desconfortavelmente isolada, me senti em casa. Uma única pessoa conseguiu fazer-me inverter as sensações. Poucos detalhes me fizeram estar à vontade.
Tranquilamente, eu disse coisas absurdas. Sou sempre assim. Absurda, mas tranquila. Não me importo com as percas de controle. Gosto delas. Gosto de ver, gosto de me envolver nisto e é a única maneira de saber que isto está acontecendo, quando, no futuro, decorrer-se novamente.
Eu dispenso o rancor. Só sei guardar a saudade. Dói muito mais. É muito melhor, e não pela dor, mas porque a saudade é quando a gente lembra do que sentiu e quer de novo. E sempre me falta um pouquinho. De tudo.
O importante de se sentir em casa, acredito eu, é estar à vontade. Eu consigo me sentir à vontade em tantos lugares que acabei por perder minha própria casa. E a questão não é lugar, e sim, as pessoas. De novo, as pessoas. Elas sempre são o fator determinante.
Em casa, tenho as pessoas que ali vivem, sendo elas as mesmas com as quais vivi parte da minha vida. Nos demais lugares onde me sinto em casa também existem pessoas com as quais vivi parte da minha vida. Esta parte é pequena, mas, dela, é imensa a importância.
No mesmo lugar onde me senti desconfortavelmente isolada, me senti em casa. Uma única pessoa conseguiu fazer-me inverter as sensações. Poucos detalhes me fizeram estar à vontade.
Tranquilamente, eu disse coisas absurdas. Sou sempre assim. Absurda, mas tranquila. Não me importo com as percas de controle. Gosto delas. Gosto de ver, gosto de me envolver nisto e é a única maneira de saber que isto está acontecendo, quando, no futuro, decorrer-se novamente.
Eu dispenso o rancor. Só sei guardar a saudade. Dói muito mais. É muito melhor, e não pela dor, mas porque a saudade é quando a gente lembra do que sentiu e quer de novo. E sempre me falta um pouquinho. De tudo.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Pressa
O relógio não me acompanha. Sempre pro mesmo lugar, ele parece também estar constantemente parado. Me entristece. Não sou assim. Passo rápido demais e corro em diversos sentidos. Não faço voltas completas e fico sempre com o gosto amargo do inacabado. Vou embora mais cedo, deixo todos dormindo sozinhos. Todos os meus breves amores eternos foram abandonados assim, covardemente joguei-os de volta à solidão. Na verdade, estava me devolvendo à ela.
Eu não consigo ter as pessoas tampouco deixar que elas me tenham. Anseio por amar todos numa única vida e compreender amplamente este sentimento, ponto exato onde erro. Não é de se compreender e sim de sentir, responderia-me um romântico qualquer. Mas corro porque desejo compreender de tudo, por mais errado que isto seja. Sou breve e logo associo a resposta à outra dúvida que persigo apressadamente.
A pressa tem me cegado. Preciso dormir melhor para conseguir ficar atenta.
Eu não consigo ter as pessoas tampouco deixar que elas me tenham. Anseio por amar todos numa única vida e compreender amplamente este sentimento, ponto exato onde erro. Não é de se compreender e sim de sentir, responderia-me um romântico qualquer. Mas corro porque desejo compreender de tudo, por mais errado que isto seja. Sou breve e logo associo a resposta à outra dúvida que persigo apressadamente.
A pressa tem me cegado. Preciso dormir melhor para conseguir ficar atenta.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Mal educados
Nunca estudei educação ou didatismo, mas acredito que o nosso método de ensino tem divergido do modo como deveria funcionar. Concluí isto observando a geração que se forma. As pessoas que, naturalmente, vão dominar o mundo nos próximos anos, têm em suas telas quantidade de informação suficiente para mudar o mundo. Apesar disto, não é esta a prioridade daqueles que possuem tal tesouro.
Para esta geração o mundo já está perdido, mesmo. Estas grandes mudanças exigem muito esforço e existem indivíduos responsáveis para isto. Apaixonada pela tecnologia, a nova não-tão-nova geração está constantemente conectada. E não existe problema nenhum nisto, o problema é não ter plena consciência da dimensão que a tecnologia trouxe à vida humana. A mudança global está diretamente ligada ao desenvolvimento tecnológico mas mesmo aqueles que são tão próximos à ele não levam a sério a revolução pela qual a internet nos fez e tem nos feito passar.
Estas pessoas acompanharam o processo modernização do mundo. São aquelas que suaram com as provas mimiografadas, mas são as mesmas que, anos depois, encontraram o conteúdo de outra avaliação na internet. Estas pessoas observaram a internet virar necessidade com os mesmos olhos que viram seus pais trabalhando sem computador. Sequencialmente a isto, ganharam seu primeiro computador. Com internet discada ou não, ter um artigo deste porte era uma revolução na vida daquele ser humano com sua personalidade em formação.
Talvez estas pessoas nem tenham tido tempo de aprender como funciona de verdade a vida profissional, social e até emocional sem um computador com internet.
Tentando imaginar o tamanho da internet (porque imaginar isto é algo quase sem fim e com poucos resultados) e da reviravolta que ela trouxe à vida humana, pode-se imaginar a dimensão de pensamento que estas pessoas "da transição" possuem. Muitos jovens desta época sofreram de depressão ou algum outro problema emocional, pois o excesso gera profunda dúvida e traz à consciência do quanto uma pessoa é pequena em meio ao todo. As referências foram derrubadas. O pai, exemplo de vida, fala que determinado autor foi quem transformou-o em tudo que é hoje. Na internet, uma crítica destrói o livro e o autor e ainda cita outro, que seu pai não conhece, e que faz a maior contribuição que a literatura já recebeu, na opinião de dois ou três sites. Esta geração acredita ver muita coisa errada no país onde nasceu mas comprou o sonho americano ainda criança e, hoje, não consegue perceber onde os dois fatos colidem.
Esta geração precisa ser estimulada. Precisa ser orientada. Quem se informa pela internet precisa acreditar em alguma das fontes para levar a sério alguma informação. Não é que a informação paute a vida das pessoas. É que esta geração sempre possuiu alguma referência.
No momento que vivemos, em que os mais velhos colocam suas convicções como referência para suas atitudes, as convicções antigas já não são satisfatórias para quem dispõe de qualquer convicção que deseje. Esta geração sabe demais. A geração intermediária se renova para pautar as próximas e não para convencer as anteriores, o que aproxima ela muito mais do novo do que da história. O ser humano registra e comunica o que ele faz, é uma atitude tomada por instinto.
Hoje, tanto o registro como as atitude são momentâneas demais. A história se repete em contextos diferentes. Por isso, é necessário saber como é a estrada antes de segui-la. Sem este conhecimento, os mesmos erros se repetirão. É o instinto humano. A razão sobrepõe-se ao instinto e, por isso, as coisas evoluem. Aprende-se sabendo como se faz e a maneira mais comum de aprender é errando. Os erros que não se repetem são aqueles que mais se aproximam dos acertos. É preciso mostrar um pouco mais de vida real para a geração embriagada com a tecnologia, de modo que a vida real permaneça.
O objetivo da educação é formar pessoas. Enquanto a educação não se adaptar ao mundo onde as pessoas de verdade vivem, ela nunca será capaz de preparar um ser humano para participar dele. E não é aprender internet, pois, esta, é auto-didata. Mas aqueles que se incluem na velha guarda e também aqueles que desejam ver alguma continuidade no que acreditam, precisam aprender a viver, a crescer e a evoluir no mundo dos cliques. Desta forma, ele torna-se uma ferramenta para o desenvolvimento da vida humana, com resultados voltados ao mundo real. Os mais jovens já nasceram digitais, e por este motivo, somente a velha guarda, que ainda se adapta ao ritmo virtual, pode ensinar a vida real aos cidadão de um futuro próximo.
Para esta geração o mundo já está perdido, mesmo. Estas grandes mudanças exigem muito esforço e existem indivíduos responsáveis para isto. Apaixonada pela tecnologia, a nova não-tão-nova geração está constantemente conectada. E não existe problema nenhum nisto, o problema é não ter plena consciência da dimensão que a tecnologia trouxe à vida humana. A mudança global está diretamente ligada ao desenvolvimento tecnológico mas mesmo aqueles que são tão próximos à ele não levam a sério a revolução pela qual a internet nos fez e tem nos feito passar.
Estas pessoas acompanharam o processo modernização do mundo. São aquelas que suaram com as provas mimiografadas, mas são as mesmas que, anos depois, encontraram o conteúdo de outra avaliação na internet. Estas pessoas observaram a internet virar necessidade com os mesmos olhos que viram seus pais trabalhando sem computador. Sequencialmente a isto, ganharam seu primeiro computador. Com internet discada ou não, ter um artigo deste porte era uma revolução na vida daquele ser humano com sua personalidade em formação.
Talvez estas pessoas nem tenham tido tempo de aprender como funciona de verdade a vida profissional, social e até emocional sem um computador com internet.
Tentando imaginar o tamanho da internet (porque imaginar isto é algo quase sem fim e com poucos resultados) e da reviravolta que ela trouxe à vida humana, pode-se imaginar a dimensão de pensamento que estas pessoas "da transição" possuem. Muitos jovens desta época sofreram de depressão ou algum outro problema emocional, pois o excesso gera profunda dúvida e traz à consciência do quanto uma pessoa é pequena em meio ao todo. As referências foram derrubadas. O pai, exemplo de vida, fala que determinado autor foi quem transformou-o em tudo que é hoje. Na internet, uma crítica destrói o livro e o autor e ainda cita outro, que seu pai não conhece, e que faz a maior contribuição que a literatura já recebeu, na opinião de dois ou três sites. Esta geração acredita ver muita coisa errada no país onde nasceu mas comprou o sonho americano ainda criança e, hoje, não consegue perceber onde os dois fatos colidem.
Esta geração precisa ser estimulada. Precisa ser orientada. Quem se informa pela internet precisa acreditar em alguma das fontes para levar a sério alguma informação. Não é que a informação paute a vida das pessoas. É que esta geração sempre possuiu alguma referência.
No momento que vivemos, em que os mais velhos colocam suas convicções como referência para suas atitudes, as convicções antigas já não são satisfatórias para quem dispõe de qualquer convicção que deseje. Esta geração sabe demais. A geração intermediária se renova para pautar as próximas e não para convencer as anteriores, o que aproxima ela muito mais do novo do que da história. O ser humano registra e comunica o que ele faz, é uma atitude tomada por instinto.
Hoje, tanto o registro como as atitude são momentâneas demais. A história se repete em contextos diferentes. Por isso, é necessário saber como é a estrada antes de segui-la. Sem este conhecimento, os mesmos erros se repetirão. É o instinto humano. A razão sobrepõe-se ao instinto e, por isso, as coisas evoluem. Aprende-se sabendo como se faz e a maneira mais comum de aprender é errando. Os erros que não se repetem são aqueles que mais se aproximam dos acertos. É preciso mostrar um pouco mais de vida real para a geração embriagada com a tecnologia, de modo que a vida real permaneça.
O objetivo da educação é formar pessoas. Enquanto a educação não se adaptar ao mundo onde as pessoas de verdade vivem, ela nunca será capaz de preparar um ser humano para participar dele. E não é aprender internet, pois, esta, é auto-didata. Mas aqueles que se incluem na velha guarda e também aqueles que desejam ver alguma continuidade no que acreditam, precisam aprender a viver, a crescer e a evoluir no mundo dos cliques. Desta forma, ele torna-se uma ferramenta para o desenvolvimento da vida humana, com resultados voltados ao mundo real. Os mais jovens já nasceram digitais, e por este motivo, somente a velha guarda, que ainda se adapta ao ritmo virtual, pode ensinar a vida real aos cidadão de um futuro próximo.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Das cartas que não chegaram.
Eu sempre te amei mas isso não é tão simples assim. Não importa, não existia maneira de fazer ser simples. Eu nunca fui sincera e me dando o direito de ser, agora, posso afirmar: eu sempre te amei. Digo isso do lado mais sério que ainda resta na pessoa mais sarcástica que tu conheceste, segundo tuas próprias palavras. Eu sempre gostei do jeito como tu debochavas de mim e de todo mundo. E eu também sempre soube que o teu deboche é o teu refúgio. Tu não tens coragem de levar as coisas muito a sério para evitar de enlouquecer. Sei disso porque só eu ouvi aquelas tuas palavras confusas na madrugada, que falavam baixinho pra não acordar ninguém e, principalmente, pra não correr o risco de serem audíveis para alguém além de mim. Quando eu te deixava falar por bastante tempo, lembro que tu ouvias as palavras e pensavas no que estavas dizendo durante alguma frase. Depois disso, não conseguias dizer mais nada. Tenho certeza deste sentimento por que sinto-o até hoje nas conversas que resolvo desmembrar as coisas que julguei melhor não dividir com ninguém.
Eu passava a semana inteira só pra poder te abraçar na madrugada de sexta para sábado. Na verdade eu acho que a sexta-feira chegava só para eu poder passar a mão no meio dos teus cabelos embaraçados e para caminhar com os meus dedos pelas tuas costas. Nada poderia ser mais compensador. Sempre me acordava antes de ti mas não ficava te olhando dormir. Não costumo observar as pessoas quando elas não podem se defender. Em contrapartida, lembro da tua respiração profunda e dos teus suspiros abafados pelo barulho da chuva e dos meios de transporte que já, ou ainda, ocupavam a rua naquele horário.
Nunca tive medo da chuva ou dos raios mas lembro que, ouvindo a água atingir as telhas, eu te trazia para o mais próximo de mim que os meus braços eram capazes de trazer. Certo dia menti dizendo que, sim, sentia medo da chuva e de um ou outro raio barulhento. Na verdade nunca senti. Da mesma forma, jamais tive coragem de admitir que o meu medo era de que nós nos perdêssemos, enquanto o som da chuva já se tornava a trilha sonora daquele inverno.
Meu medo de lhe admitir isto surgiu quando percebi que, de fato, nos perderíamos. Ali eu já não tinha mais nenhuma opção a não ser a de te manter como aquela pessoa que eu amei. A coragem também me faltou quando precisei te dizer que não, não poderia ser sempre assim. Jamais me perdoei por ficar em silêncio depois da pergunta. Quase afirmei que poderíamos (pela simples vontade que eu tinha de te dar tal resposta). Fugi.
Amanhã, quem sabe lhe envio esta carta e te recebo de volta na minha vida. Amanhã, quem sabe eu desisto de ter medo de nos admitir. E amanhã, quem sabe, eu faço como tu fizeste e encontro outro destinatário para estas palavras.
Eu sempre te amei. Nunca foi tão simples assim.
Eu passava a semana inteira só pra poder te abraçar na madrugada de sexta para sábado. Na verdade eu acho que a sexta-feira chegava só para eu poder passar a mão no meio dos teus cabelos embaraçados e para caminhar com os meus dedos pelas tuas costas. Nada poderia ser mais compensador. Sempre me acordava antes de ti mas não ficava te olhando dormir. Não costumo observar as pessoas quando elas não podem se defender. Em contrapartida, lembro da tua respiração profunda e dos teus suspiros abafados pelo barulho da chuva e dos meios de transporte que já, ou ainda, ocupavam a rua naquele horário.
Nunca tive medo da chuva ou dos raios mas lembro que, ouvindo a água atingir as telhas, eu te trazia para o mais próximo de mim que os meus braços eram capazes de trazer. Certo dia menti dizendo que, sim, sentia medo da chuva e de um ou outro raio barulhento. Na verdade nunca senti. Da mesma forma, jamais tive coragem de admitir que o meu medo era de que nós nos perdêssemos, enquanto o som da chuva já se tornava a trilha sonora daquele inverno.
Meu medo de lhe admitir isto surgiu quando percebi que, de fato, nos perderíamos. Ali eu já não tinha mais nenhuma opção a não ser a de te manter como aquela pessoa que eu amei. A coragem também me faltou quando precisei te dizer que não, não poderia ser sempre assim. Jamais me perdoei por ficar em silêncio depois da pergunta. Quase afirmei que poderíamos (pela simples vontade que eu tinha de te dar tal resposta). Fugi.
Amanhã, quem sabe lhe envio esta carta e te recebo de volta na minha vida. Amanhã, quem sabe eu desisto de ter medo de nos admitir. E amanhã, quem sabe, eu faço como tu fizeste e encontro outro destinatário para estas palavras.
Eu sempre te amei. Nunca foi tão simples assim.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Volta pra casa, menino.
Volta pra casa, menino
Que este mundo é grande demais
Os teus pés nunca vão conseguir
Percorrer estas ruas inteiras
Os teus olhos não merecem ver
A desgraça que existe lá fora
Tuas mãos não querem tocar
Na sujeira das vidas mal feitas
Os pulmões nem saberão respirar
O vento forte que corre na rua
Que te leva pra longe daqui
Que te rouba do teu caminho
Que carrega as estranhas verdades
Volta pra casa, menino
Essa gente quer te machucar
Teu dinheiro, eles vão levar
Eles querem é te ver sofrer
Eles vão te fazer implorar pra voltar
E estas ruas, tu não conheces
As estradas são cheias de curvas
Vai que numa delas, tu te perdes
Volta pra casa, menino
Que de dentro, a janela te mostra
O que cabe no vidro e reflete
O que dentro daqui acontece
E quem passa lá fora não vê
Qus os teus olhos, curiosos, observam
E que aqui a nós ficamos seguros
Amanhã ou depois tudo muda
A paisagem, a janela e o aqui
Volta pra casa, menino
Que lá fora as pessoas são más
Elas te deixam chorando sozinho
Elas somem no meio do caminho
E lá fora elas crescem demais
E você nunca consegue enxergar
A maldade dos olhos delas
Nestas ruas elas ficam mais fortes
Você nunca vai conseguir enfrentar
Menino, volta pra casa
Por que aqui, eu consigo te ver
E te vendo eu me acalmo
Garanto os teus passos seguros
Te mostro como foi que eu fiz
Fica aqui só até quando eu for
E escuta bem o que eu te digo
Que mais tarde, quem falas é tu
Menino, volta pra casa
Já pensou se você tropeçar
Na rua, ninguém vai te segurar
Imagina, então, se cair
E pior, se a cara quebrar
E depois, se ela fortalecer
E mais tarde, do chão, se erguer
Imagina se você conhecer
Essas coisas das quais te protejo
Menino, volta pra casa
Essa gente vai te assaltar
Eles andam todos armados
E não tem medo de te atingir
Eles vão te ensinar a atirar
Mas as armas eles não vão te dar
Vão te fazer a todas conquistar
Eles querem te fazer chorar
Eles vão te fazer gritar
Que pra eles, somos todos iguais
E em casa, menino, não é
Em casa você é melhor
Do que eu e até do que eles
Mas na rua, eles vão te mudar
Eles querem te deseducar
Vão obrigar os seus olhos a se abrir
Menino, volta pra casa
Na rua vão querer te abraçar
Quem não te rouba, te leva
Se nada leva, acrescenta
Vão te fazer compreender as coisas
Que o medo nunca me deixou entender
Você nunca mais vai ser o mesmo
Nunca mais o meu menino
Volta pra casa, menino
Lá fora as coisas são diferentes
Estas pessoas caminham demais
Você vai querer ir com elas
E mais tarde, vai seguir junto à outras
Olha esse monte de gente
Todos eles querem te levar
Eles querem te fazer sentir
Eles vão te ensinar a amar
Uma vida querem te ver construir
Vão fazer você se entregar
E no fim, eu é que vou te perder
E no fim, tu é que vais te ganhar
Então, menino, volta pra casa
Esse mundo é grande demais.
Que este mundo é grande demais
Os teus pés nunca vão conseguir
Percorrer estas ruas inteiras
Os teus olhos não merecem ver
A desgraça que existe lá fora
Tuas mãos não querem tocar
Na sujeira das vidas mal feitas
Os pulmões nem saberão respirar
O vento forte que corre na rua
Que te leva pra longe daqui
Que te rouba do teu caminho
Que carrega as estranhas verdades
Volta pra casa, menino
Essa gente quer te machucar
Teu dinheiro, eles vão levar
Eles querem é te ver sofrer
Eles vão te fazer implorar pra voltar
E estas ruas, tu não conheces
As estradas são cheias de curvas
Vai que numa delas, tu te perdes
Volta pra casa, menino
Que de dentro, a janela te mostra
O que cabe no vidro e reflete
O que dentro daqui acontece
E quem passa lá fora não vê
Qus os teus olhos, curiosos, observam
E que aqui a nós ficamos seguros
Amanhã ou depois tudo muda
A paisagem, a janela e o aqui
Volta pra casa, menino
Que lá fora as pessoas são más
Elas te deixam chorando sozinho
Elas somem no meio do caminho
E lá fora elas crescem demais
E você nunca consegue enxergar
A maldade dos olhos delas
Nestas ruas elas ficam mais fortes
Você nunca vai conseguir enfrentar
Menino, volta pra casa
Por que aqui, eu consigo te ver
E te vendo eu me acalmo
Garanto os teus passos seguros
Te mostro como foi que eu fiz
Fica aqui só até quando eu for
E escuta bem o que eu te digo
Que mais tarde, quem falas é tu
Menino, volta pra casa
Já pensou se você tropeçar
Na rua, ninguém vai te segurar
Imagina, então, se cair
E pior, se a cara quebrar
E depois, se ela fortalecer
E mais tarde, do chão, se erguer
Imagina se você conhecer
Essas coisas das quais te protejo
Menino, volta pra casa
Essa gente vai te assaltar
Eles andam todos armados
E não tem medo de te atingir
Eles vão te ensinar a atirar
Mas as armas eles não vão te dar
Vão te fazer a todas conquistar
Eles querem te fazer chorar
Eles vão te fazer gritar
Que pra eles, somos todos iguais
E em casa, menino, não é
Em casa você é melhor
Do que eu e até do que eles
Mas na rua, eles vão te mudar
Eles querem te deseducar
Vão obrigar os seus olhos a se abrir
Menino, volta pra casa
Na rua vão querer te abraçar
Quem não te rouba, te leva
Se nada leva, acrescenta
Vão te fazer compreender as coisas
Que o medo nunca me deixou entender
Você nunca mais vai ser o mesmo
Nunca mais o meu menino
Volta pra casa, menino
Lá fora as coisas são diferentes
Estas pessoas caminham demais
Você vai querer ir com elas
E mais tarde, vai seguir junto à outras
Olha esse monte de gente
Todos eles querem te levar
Eles querem te fazer sentir
Eles vão te ensinar a amar
Uma vida querem te ver construir
Vão fazer você se entregar
E no fim, eu é que vou te perder
E no fim, tu é que vais te ganhar
Então, menino, volta pra casa
Esse mundo é grande demais.
Viajante
Olhando a estrada e as belas paisagens que ela proporciona, pensava no quanto sua vida era pequena e, ao mesmo tempo, no quanto ela crescera de uns tempos pra cá.
É estranho, a força. Ela é uma sensação estranha. A força sempre precede o medo. Nós, humildes seres humanos, quando tememos alguma coisa, ou fugimos, ou enfrentamos. São as únicas possibilidades que o medo nos oferece. Então, um dia qualquer, resolvemos enfrentar aquele medo ou o enfrentamos inconscientemente, e depois de perceber que passamos vivos por tamanho embaque, nós nos libertamos e nos fortalecemos. A partir dali, nada daquilo é capaz de nos assustar profundamente. Temos, no mínimo, a certeza que de sobreviveremos.
A estrada era quase eterna e o silêncio já não incomodava mais. Tinha uma certa vontade de fazer perguntas que faria aos seus amigos, na mesa do bar. Aquelas perguntas que só pessoas que se conhecem bastante adquiriram a naturalidade necessária para fazer. Mas preferiu guardar para si as perguntas, imaginando as respostas. Todas aquelas estradas para cidades desconhecidas lhe despertava vontade de correr o mundo inteirinho a pé, de ponta a ponta. Todos aqueles rostos suados, cansados e esgostados lhe convidavam para uma longa conversa depois de longas garrafas de bebidas baratas.
No canibalismo sistemático criado pela sociedade, foi capaz de nascer a mais rica das situações humanas: a pobreza. Os pobres coitados e fedidos sorriem da mesma maneira que você sorri. Com uma quantidade menor de dentes, talvez. Com os cabelos mais brancos e o vocabulário mais curto, também. O sorriso deles não possui os 32 dentes reluzentemente brancos que o seu possui, alguns cariáram ainda na infância e outros, a vida responsabilizou-se de levar. O vento não balança suavemente o cabelo dos pobres, como faz com os seus. O vento estralhaça de frio as casas contruídas quase que somente de esperança. O próprio frio, que você considera elegante, desespera os pobres numa única lembrança. Os pobres são feios, se vestem mal, não compram o celular mais bonito da loja, vivem todos em dois ou três cômodos, e mesmo assim, eles sorriem. O sorriso do pobre é aberto, é sem-vergonha, é leve, é constante. O sorriso do pobre é uma arma contra você, que acha um desrespeito essa gente feia e suja lhe sorrindo. E o seu achar não muda absolutamente nada no sorriso do pobre. O pobre precisa amar pessoas porque amar as coisas não lhe dá garantia alguma de reciprocidade. E o pobre é carente, por que nem sempre lhe sobra uns trocados para as pizzas ou para os chocolates que, em você, completam o espaço onde as pessoas não conseguem chegar. O pobre deixa que as pessoas cheguem em todos os lugares, por que eles já foram proibidos demais pelos outros. O pobre, já que não tem nada mesmo, também não tem medo de muita coisa. O medo do pobre é perder aqueles e aquilos que ele conquistou no ritmo de um conta-gotas preenchido do seu suor. Você tem medo de andar na rua durante a noite, sozinho, enquanto o pobre caminha tranquilamente à luz da lua, sentindo a brisa que só a noite consegue ter. O pobre nem reclama, como você faz o dia inteiro. Ele só comenta, superficialmente, os problemas e luta profundamente pelas soluções deles, como você nunca nem pensou em fazer.
Imagina quantas vezes já não pensaram nisso, neste mesmo trecho da estrada. Deve fazer muito tempo, apesar da estrada ainda estar nova. A estrada é sempre jovem, inclusive. Ela é mais ou menos humana, cada roda ou sola de sapato que passa por cima, renova. Bom é ser rodado, pisado. O Diabo, único capaz de assustar deus, não é tudo isso por ser mau e sim por ser vivido. E isso é o que dizem, por que nem deus nem diabo nem ninguém me ligou, até agora, pra me dar as coordenadas no meio de tanto asfalto, no meio desse monte de encruzilhadas. Ninguém veio me buscar, ainda, e, sinceramente, eu espero que nem venha mais ninguém mesmo. Buscar alguém é complicado demais.
Sente medo, ainda. Pelo menos possui a certeza de que os medos são compensadores.
Certeza é um verbete que deveria ser excluído do vocabulário humano em todos sotaques, porque enquanto um humano não viver cada um destes sotaques, ele não será capaz de utilizar da maneira correta, a certeza. Utilizará, portanto, a pré-certeza que é tão certa quanto qualquer outro questionamento que nos fizemos ao longo do expediente.
Caminhando pelo asfalto, enquanto o mesmo era dissolvido pelo sol, aqueles dois pobres sujismundos conversavam intimamente e sorriam. Um deles estendeu a mão num arbusto e puxou um pedaço de folha verde, que seguiu em sua mão durante boa parte do caminho. Ao lado, os carros passavam apressadamente, os vidros escuros os vendavam e o motor ensurdecia-os enquanto debatiam o futuro de uma conta bancária qualquer. Os pobres tinham suas contas no vermelho, nomes sujos e caderninhos pendurados no minimercado mais próximo. Caminhavam, suavam, conversavam, ouviam, olhavam, encostavam, sorriam.
É estranho, a força. Ela é uma sensação estranha. A força sempre precede o medo. Nós, humildes seres humanos, quando tememos alguma coisa, ou fugimos, ou enfrentamos. São as únicas possibilidades que o medo nos oferece. Então, um dia qualquer, resolvemos enfrentar aquele medo ou o enfrentamos inconscientemente, e depois de perceber que passamos vivos por tamanho embaque, nós nos libertamos e nos fortalecemos. A partir dali, nada daquilo é capaz de nos assustar profundamente. Temos, no mínimo, a certeza que de sobreviveremos.
A estrada era quase eterna e o silêncio já não incomodava mais. Tinha uma certa vontade de fazer perguntas que faria aos seus amigos, na mesa do bar. Aquelas perguntas que só pessoas que se conhecem bastante adquiriram a naturalidade necessária para fazer. Mas preferiu guardar para si as perguntas, imaginando as respostas. Todas aquelas estradas para cidades desconhecidas lhe despertava vontade de correr o mundo inteirinho a pé, de ponta a ponta. Todos aqueles rostos suados, cansados e esgostados lhe convidavam para uma longa conversa depois de longas garrafas de bebidas baratas.
No canibalismo sistemático criado pela sociedade, foi capaz de nascer a mais rica das situações humanas: a pobreza. Os pobres coitados e fedidos sorriem da mesma maneira que você sorri. Com uma quantidade menor de dentes, talvez. Com os cabelos mais brancos e o vocabulário mais curto, também. O sorriso deles não possui os 32 dentes reluzentemente brancos que o seu possui, alguns cariáram ainda na infância e outros, a vida responsabilizou-se de levar. O vento não balança suavemente o cabelo dos pobres, como faz com os seus. O vento estralhaça de frio as casas contruídas quase que somente de esperança. O próprio frio, que você considera elegante, desespera os pobres numa única lembrança. Os pobres são feios, se vestem mal, não compram o celular mais bonito da loja, vivem todos em dois ou três cômodos, e mesmo assim, eles sorriem. O sorriso do pobre é aberto, é sem-vergonha, é leve, é constante. O sorriso do pobre é uma arma contra você, que acha um desrespeito essa gente feia e suja lhe sorrindo. E o seu achar não muda absolutamente nada no sorriso do pobre. O pobre precisa amar pessoas porque amar as coisas não lhe dá garantia alguma de reciprocidade. E o pobre é carente, por que nem sempre lhe sobra uns trocados para as pizzas ou para os chocolates que, em você, completam o espaço onde as pessoas não conseguem chegar. O pobre deixa que as pessoas cheguem em todos os lugares, por que eles já foram proibidos demais pelos outros. O pobre, já que não tem nada mesmo, também não tem medo de muita coisa. O medo do pobre é perder aqueles e aquilos que ele conquistou no ritmo de um conta-gotas preenchido do seu suor. Você tem medo de andar na rua durante a noite, sozinho, enquanto o pobre caminha tranquilamente à luz da lua, sentindo a brisa que só a noite consegue ter. O pobre nem reclama, como você faz o dia inteiro. Ele só comenta, superficialmente, os problemas e luta profundamente pelas soluções deles, como você nunca nem pensou em fazer.
Imagina quantas vezes já não pensaram nisso, neste mesmo trecho da estrada. Deve fazer muito tempo, apesar da estrada ainda estar nova. A estrada é sempre jovem, inclusive. Ela é mais ou menos humana, cada roda ou sola de sapato que passa por cima, renova. Bom é ser rodado, pisado. O Diabo, único capaz de assustar deus, não é tudo isso por ser mau e sim por ser vivido. E isso é o que dizem, por que nem deus nem diabo nem ninguém me ligou, até agora, pra me dar as coordenadas no meio de tanto asfalto, no meio desse monte de encruzilhadas. Ninguém veio me buscar, ainda, e, sinceramente, eu espero que nem venha mais ninguém mesmo. Buscar alguém é complicado demais.
Sente medo, ainda. Pelo menos possui a certeza de que os medos são compensadores.
Certeza é um verbete que deveria ser excluído do vocabulário humano em todos sotaques, porque enquanto um humano não viver cada um destes sotaques, ele não será capaz de utilizar da maneira correta, a certeza. Utilizará, portanto, a pré-certeza que é tão certa quanto qualquer outro questionamento que nos fizemos ao longo do expediente.
Caminhando pelo asfalto, enquanto o mesmo era dissolvido pelo sol, aqueles dois pobres sujismundos conversavam intimamente e sorriam. Um deles estendeu a mão num arbusto e puxou um pedaço de folha verde, que seguiu em sua mão durante boa parte do caminho. Ao lado, os carros passavam apressadamente, os vidros escuros os vendavam e o motor ensurdecia-os enquanto debatiam o futuro de uma conta bancária qualquer. Os pobres tinham suas contas no vermelho, nomes sujos e caderninhos pendurados no minimercado mais próximo. Caminhavam, suavam, conversavam, ouviam, olhavam, encostavam, sorriam.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Das asas que derretem.
Certo dia, numa pequena cidade interiorana, uma bela jovem de bom coração e palavras acolhedoras engravidara de um outro belo jovem de sorriso fácil e olhar sereno. Não havia possibilidade de dar errado uma cria provinda destes dois maravilhosos seres humanos, e o resultado foi mesmo surpreendente. Dali nasceu um pequeno menino que herdou tanto o sorriso fácil do pai quanto as palavras acolhedoras da mãe. Herdou também - apesar da visão debilitada do olho esquerdo - o olhar sereno e o bom coração dos progenitores, além de uma incrível capacidade de audição e observação de sabe-se lá qual parente ou entidade que por perto passara durante a formação de sua alma. O início de sua infância foi como de tantas outras crianças que neste mundo vivem. Ou não.
Foi cercada de experiências que muitos adultos atravessam a vida sem presenciar ou sem prestar a devida atenção como ele costumava fazer com tudo que lhe cercava. Sua infância foi uma experiência peculiar por ser a primeira da vida, por ter pais como os que tinha, por ter ganhado um irmão, por ter peregrinado por diversos lugares, por ter presenciado atenciosamente cada minuto que vivera.
E esta mesma infância peculiar foi o que criou o jovem de sorriso fácil que se tornou. Um jovem simples, inteligente, amigo, compreensivo, forte. Reservado. Sempre disposto a participar da vida de todos mas nunca disposto a contar aos outros sobre como acreditava estar vivendo a sua. Sempre observando e gostando muito - ou não - do que via. Um jovem que foi se tornando malandro por admirar a malandragem daqueles que mesmo na pobreza, na limitação, na repressão e na própria infelicidade, conseguiam manter-se sorrindo e sambando e disseminando alegria por onde quer que estivessem. Este foi um jovem que viu os maiores motivos para ser triste transformarem-se em poesia e encantou-se com isso, fortalecendo seu perpétuo sorriso e seu semblante tranquilo. Um jovem cativante e apaixonante, que nunca teve o rosto dos cinemas mas sempre possuiu a leveza dos artistas. Seus absurdamente misteriosos olhos azuis eram capazes de acolher qualquer coração choroso e absorver todas as boas emoções que enxergavam. Estas emoções eram de onde seu coração tirava toda a esperança que aquele corpo emanava. A esperança da existência de seres humanos mais humanos, que compartilham cada uma das conquistas e fazem da felicidade do próximo a sua própria felicidade.
Ele ouvia atentamente cada palavra que diziam próximo ou diretamente a ele, pois era assim que conseguia suprir sua infinita curiosidade. Inconscientemente, foi assim que aprendeu que a vida humana era realmente mais complexa do que pensou que seria, e foi assim também que percebeu que o mais valioso de um ser humano era sua confiança. Tamanha sabedoria tornou-o detentor da confiança de grande parte dos seres humanos que o cercavam. Havia transformado-se num ombro amigo coletivo, porém particular, com uma palavra acolhedora diferente para cada lágrima e com o mesmo olhar sereno que lhe era característico. Ele gostava muito das histórias contadas pelos outros, mas também vivia suas próprias histórias. Entretanto, ele não vivia histórias tristes como das outras pessoas, cheias de sofrimento e dor. Suas histórias eram simplesmente suas belas e longas histórias.
Aquele menino simples, inteligente, amigo, compreensivo, forte e reservado possuía um vazio no peito que era simplesmente inexplicável, imensurável e ignorado. Por ele e por todos que nele confiavam. Um vazio constante e com o qual acostumou-se a viver. Quando já nem sentia mais o vazio, sentiu-se estufado pelo novo. Foi pressionado a mostrar-se, a abrir-se, mas resistiu bravamente por não saber como fazê-lo e continuou lacrado como um sigiloso esquema de desvio de sentimentos. Sofreu. Talvez tenha até chorado (sozinho, como de costume). Enozou toda a garganta e se perdeu nas mesmas palavras que usou para amenizar e fugir de todas as situações ao longo da vida. E foi justamente fugindo que encontrou uma fonte de felicidade capaz de transcender todo seu sofrimento. E foi fugindo que conseguiu eximir tudo que lhe machucou uma dia, pois a fuga era a esperança de que lá longe o sol brilhava de uma maneira diferente. Nem melhor, nem pior, mas diferente.
Sua fuga é saudável e rica. Aproveita cada momento do escape, cada palavra dita de uma maneira diferente daquela que seus ouvidos acostumaram-se, cada olhar, cada suspiro. Foge por curiosidade de saber até onde vai isso tudo. O menino sente-se menino novamente em cada estrada que observa modificar-se com o passar das horas. Sente-se o mais menino dos homens imaginando quantas vidas existem para serem descobertas pelos seus misteriosos olhos azuis naqueles metros quadrados. E hoje ele foge sem saber que foge e sem saber do que. Talvez da rotina, talvez do tédio, talvez da pessoa que estas coisas são capazes de transformá-lo. O menino este, anda quilômetros para não cansar e não desistir. E sorri, ele sempre sorri porque é sorrindo que ele aprende, que ele cresce, que ele vive, que ele sofre, que ele anda, que ele ama. E é sorrindo que ele vai embora. É seu sorriso que deixa a profunda saudade em cada um dos lugares dos quais ele foge, é o seu sorriso que é lembrado onde ele já viveu. É este sorriso que dá respaldo à sua fuga, sua esperança, sua tranquilidade. Suas asas já derreteram e ainda derreterão por muitas vezes, mas isto só ocorre para que ele, sozinho, possa construí-las novamente, voar ainda mais alto, chegar ainda mais longe e, principalmente, continuar sorrindo.
Foi cercada de experiências que muitos adultos atravessam a vida sem presenciar ou sem prestar a devida atenção como ele costumava fazer com tudo que lhe cercava. Sua infância foi uma experiência peculiar por ser a primeira da vida, por ter pais como os que tinha, por ter ganhado um irmão, por ter peregrinado por diversos lugares, por ter presenciado atenciosamente cada minuto que vivera.
E esta mesma infância peculiar foi o que criou o jovem de sorriso fácil que se tornou. Um jovem simples, inteligente, amigo, compreensivo, forte. Reservado. Sempre disposto a participar da vida de todos mas nunca disposto a contar aos outros sobre como acreditava estar vivendo a sua. Sempre observando e gostando muito - ou não - do que via. Um jovem que foi se tornando malandro por admirar a malandragem daqueles que mesmo na pobreza, na limitação, na repressão e na própria infelicidade, conseguiam manter-se sorrindo e sambando e disseminando alegria por onde quer que estivessem. Este foi um jovem que viu os maiores motivos para ser triste transformarem-se em poesia e encantou-se com isso, fortalecendo seu perpétuo sorriso e seu semblante tranquilo. Um jovem cativante e apaixonante, que nunca teve o rosto dos cinemas mas sempre possuiu a leveza dos artistas. Seus absurdamente misteriosos olhos azuis eram capazes de acolher qualquer coração choroso e absorver todas as boas emoções que enxergavam. Estas emoções eram de onde seu coração tirava toda a esperança que aquele corpo emanava. A esperança da existência de seres humanos mais humanos, que compartilham cada uma das conquistas e fazem da felicidade do próximo a sua própria felicidade.
Ele ouvia atentamente cada palavra que diziam próximo ou diretamente a ele, pois era assim que conseguia suprir sua infinita curiosidade. Inconscientemente, foi assim que aprendeu que a vida humana era realmente mais complexa do que pensou que seria, e foi assim também que percebeu que o mais valioso de um ser humano era sua confiança. Tamanha sabedoria tornou-o detentor da confiança de grande parte dos seres humanos que o cercavam. Havia transformado-se num ombro amigo coletivo, porém particular, com uma palavra acolhedora diferente para cada lágrima e com o mesmo olhar sereno que lhe era característico. Ele gostava muito das histórias contadas pelos outros, mas também vivia suas próprias histórias. Entretanto, ele não vivia histórias tristes como das outras pessoas, cheias de sofrimento e dor. Suas histórias eram simplesmente suas belas e longas histórias.
Aquele menino simples, inteligente, amigo, compreensivo, forte e reservado possuía um vazio no peito que era simplesmente inexplicável, imensurável e ignorado. Por ele e por todos que nele confiavam. Um vazio constante e com o qual acostumou-se a viver. Quando já nem sentia mais o vazio, sentiu-se estufado pelo novo. Foi pressionado a mostrar-se, a abrir-se, mas resistiu bravamente por não saber como fazê-lo e continuou lacrado como um sigiloso esquema de desvio de sentimentos. Sofreu. Talvez tenha até chorado (sozinho, como de costume). Enozou toda a garganta e se perdeu nas mesmas palavras que usou para amenizar e fugir de todas as situações ao longo da vida. E foi justamente fugindo que encontrou uma fonte de felicidade capaz de transcender todo seu sofrimento. E foi fugindo que conseguiu eximir tudo que lhe machucou uma dia, pois a fuga era a esperança de que lá longe o sol brilhava de uma maneira diferente. Nem melhor, nem pior, mas diferente.
Sua fuga é saudável e rica. Aproveita cada momento do escape, cada palavra dita de uma maneira diferente daquela que seus ouvidos acostumaram-se, cada olhar, cada suspiro. Foge por curiosidade de saber até onde vai isso tudo. O menino sente-se menino novamente em cada estrada que observa modificar-se com o passar das horas. Sente-se o mais menino dos homens imaginando quantas vidas existem para serem descobertas pelos seus misteriosos olhos azuis naqueles metros quadrados. E hoje ele foge sem saber que foge e sem saber do que. Talvez da rotina, talvez do tédio, talvez da pessoa que estas coisas são capazes de transformá-lo. O menino este, anda quilômetros para não cansar e não desistir. E sorri, ele sempre sorri porque é sorrindo que ele aprende, que ele cresce, que ele vive, que ele sofre, que ele anda, que ele ama. E é sorrindo que ele vai embora. É seu sorriso que deixa a profunda saudade em cada um dos lugares dos quais ele foge, é o seu sorriso que é lembrado onde ele já viveu. É este sorriso que dá respaldo à sua fuga, sua esperança, sua tranquilidade. Suas asas já derreteram e ainda derreterão por muitas vezes, mas isto só ocorre para que ele, sozinho, possa construí-las novamente, voar ainda mais alto, chegar ainda mais longe e, principalmente, continuar sorrindo.
domingo, 21 de agosto de 2011
Conto de fadas
Por muitas vezes lhe disseram que os contos de fadas não existiam, tão pouco as próprias fadas. Ela, que sempre foi muitíssimo cabeça dura, não dava atenção àquelas pessoas que não eram capazes de enxergar o que lhe mostrava seu coração. Seguia inventando em seus sonhos os contos de fadas mais belos que sua jovem mente conseguia projetar. E não só os inventava, como os vivia intensamente. Externava uma solidão que na verdade não existia. Ela não precisava estar acompanhada destas pessoas que não compreendiam o quanto o mundo dela e deles todos poderia ser belo. Foi capaz de criar um conto de fadas tão grande e que conseguia abranger o mundo de uma maneira tão completa que foi possível que ele crescesse junto à ela.
E ela cresceu, e tornou-se a mais iluminada das fadas. Ela tornou-se a inspiração de muitas vidas que apesar de não compreenderem por que, enxergavam a beleza que ela era capaz de refletir. Com toda esta beleza, foi amada. Um amor que lhe trazia todas as sensações das quais precisava, que lhe preenchia o peito da maneira mais bela. O príncipe encantado de seu conto de fadas. Um amor fácil de viver, que lhe aceitava, lhe levava ao ponto mais profundo de suas fábulas e lhe devolvia à realidade em instantes. Que lhe dava a segurança de um escudo de ferro. Que lhe arrancava os sorrisos mais plenos e os suspiros mais intensos.
Amando, ela pode seguir, ela conseguia ver a luz no fim do túnel. Amando, ela se escondeu. E amando, seu conto de fadas foi escorrendo por entre seus dedos, foi se perdendo na rotina e no dia a dia sufocante que aquele amor a fazia viver. E amar foi doendo, foi atordoando, foi limitando seus contos de fadas a um único cenário. Foi lhe amarrando as pernas, os braços, o coração. Ela não sabia mais criar seu próprio mundo, ela não sabia mais sentir o gosto do sol no seu rosto e o gosto do vento no cabelo, ela esqueceu de crescer como costumava fazer e ela não compreendia o porquê disso estar acontecendo.
Certo dia, ela ousou escrever sua história mais longe e foi assim que sua solidão deu lugar à euforia. Assim, encontrou uma completude humana num mundo onde ela havia se esquecido de ter esperanças. Tão distante mas tão próximo que ela mal acreditava. Tão distante mas tão próximo que seu amor sentiu-se sobrando ao lado daquilo que era novo dentro do coração dela. E nem ela e nem ele sabiam sentir estas coisas. Nos seus contos de fadas, estas coisas não aconteciam.
Foi então que fada se fez humana e o amor se fez vilão. A fada chorou as lágrimas mais tristes que os contos de fadas já haviam presenciado. Ela sentiu uma solidão que jamais sentira e quis ter qualquer pessoa que não lhe entendesse ao seu lado. Precisou de um abraço que nunca pensou que precisaria. E precisou ser o que jamais fora. Precisou ser má, precisou mentir e se esconder, precisou fingir e sorrir amarelo. Já havia encontrado seu final feliz, mas como já lhe haviam avisado, os contos de fadas não existem - ou pelo menos não são como nas histórias dos livros infantis. Seu coração chorava constantemente por não saber mais a quem pertencia.
A fada, como sempre fazia para projetar suas histórias, sabia que precisava buscar forças para encontrar seu caminho. E hoje conseguia enxergar perfeitamente que seu caminho era tão rico e belo que ela não podia deixar que sua dor lhe impedisse de seguir. Ela sabia que a vida ainda lhe reservava coisas inimaginavelmente grandes e que ela deveria ser forte o suficiente para viver cada uma destas coisas da forma que era necessário. Naquele momento, deparava-se com uma situação que jamais imaginara deparar-se e sabia caber somente a ela encontrar a maneira menos devastadora de começar de novo. Ela sempre convivera com grandes responsabilidades e neste momento, carregava a maior delas: sua própria felicidade.
E ela cresceu, e tornou-se a mais iluminada das fadas. Ela tornou-se a inspiração de muitas vidas que apesar de não compreenderem por que, enxergavam a beleza que ela era capaz de refletir. Com toda esta beleza, foi amada. Um amor que lhe trazia todas as sensações das quais precisava, que lhe preenchia o peito da maneira mais bela. O príncipe encantado de seu conto de fadas. Um amor fácil de viver, que lhe aceitava, lhe levava ao ponto mais profundo de suas fábulas e lhe devolvia à realidade em instantes. Que lhe dava a segurança de um escudo de ferro. Que lhe arrancava os sorrisos mais plenos e os suspiros mais intensos.
Amando, ela pode seguir, ela conseguia ver a luz no fim do túnel. Amando, ela se escondeu. E amando, seu conto de fadas foi escorrendo por entre seus dedos, foi se perdendo na rotina e no dia a dia sufocante que aquele amor a fazia viver. E amar foi doendo, foi atordoando, foi limitando seus contos de fadas a um único cenário. Foi lhe amarrando as pernas, os braços, o coração. Ela não sabia mais criar seu próprio mundo, ela não sabia mais sentir o gosto do sol no seu rosto e o gosto do vento no cabelo, ela esqueceu de crescer como costumava fazer e ela não compreendia o porquê disso estar acontecendo.
Certo dia, ela ousou escrever sua história mais longe e foi assim que sua solidão deu lugar à euforia. Assim, encontrou uma completude humana num mundo onde ela havia se esquecido de ter esperanças. Tão distante mas tão próximo que ela mal acreditava. Tão distante mas tão próximo que seu amor sentiu-se sobrando ao lado daquilo que era novo dentro do coração dela. E nem ela e nem ele sabiam sentir estas coisas. Nos seus contos de fadas, estas coisas não aconteciam.
Foi então que fada se fez humana e o amor se fez vilão. A fada chorou as lágrimas mais tristes que os contos de fadas já haviam presenciado. Ela sentiu uma solidão que jamais sentira e quis ter qualquer pessoa que não lhe entendesse ao seu lado. Precisou de um abraço que nunca pensou que precisaria. E precisou ser o que jamais fora. Precisou ser má, precisou mentir e se esconder, precisou fingir e sorrir amarelo. Já havia encontrado seu final feliz, mas como já lhe haviam avisado, os contos de fadas não existem - ou pelo menos não são como nas histórias dos livros infantis. Seu coração chorava constantemente por não saber mais a quem pertencia.
A fada, como sempre fazia para projetar suas histórias, sabia que precisava buscar forças para encontrar seu caminho. E hoje conseguia enxergar perfeitamente que seu caminho era tão rico e belo que ela não podia deixar que sua dor lhe impedisse de seguir. Ela sabia que a vida ainda lhe reservava coisas inimaginavelmente grandes e que ela deveria ser forte o suficiente para viver cada uma destas coisas da forma que era necessário. Naquele momento, deparava-se com uma situação que jamais imaginara deparar-se e sabia caber somente a ela encontrar a maneira menos devastadora de começar de novo. Ela sempre convivera com grandes responsabilidades e neste momento, carregava a maior delas: sua própria felicidade.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Amanhã
Amanhã comemoro todos os meus nenhum pilas na carteira, além dos outros que eu devo pro banco. Comemoro as coisas que nada tem a ver com pilas, mas que to devendo pra mim mesma, os meus prazos estourados, a minha insatisfação, cada uma das minhas frustrações. Preciso comemorar a distância e a ausência de quem eu mais queria comigo, sem esquecer das saudades que eu senti e hoje já não sinto mais ou das presenças que estiveram aqui mas também já se foram e já nem falta fazem. Amanhã eu vou comemorar as surpresas de merda que me fizeram, a vontade de não fazer mais porra nenhuma e a outra vontade, aquela velha conhecida, de desistir de tudo. Comemoro a minha descrença, a minha desmotivação, a minha desvalorização, a minha distração e o destrinchante sentimento de decepção por todos os meus descuidos. Comemoro meus medos, meus fracassos, meus passos pra trás.
Tenho muito a comemorar amanhã.
Tenho muito a comemorar amanhã.
sábado, 9 de abril de 2011
Once more with feeling
Arrancou um sorriso quando a vontade real era de arrancar a roupa inteirinha, peça por peça. Sentiu um leve gostinho de início vitorioso. "Gostei de você" disse, brigando com os lábios para que eles não concretizassem o desejo real de se entregar por inteiro àquele sorriso. Quando ouviu aquele mesmo sorriso perguntar "vamos indo?" segurou-se para não responder que sim, vamos indo para qualquer lugar que quiseres, vamos indo e, de preferência, vamos sem rumo e sem volta. Olhando tudo aquilo que lhes cercava, procurou algo capaz de assegurar a realidade da situação. Pensava ter buscado por tanto tempo aquela pessoa, que ela acabou por sair dos seus sonhos e aparecer bem ali, parada na mesma sala de poucos metros quadrados onde se encontrava.
No fundo, sabia que aquela sensação poderia ter sido forjada por diversas outras boas sensações que haviam acumulado-se em si nos últimos dias. Mesmo sabendo que dali a poucas horas iria embora, - talvez para sempre, talvez não - desejava que aquilo dentro de si permanecesse no mesmo lugar e da mesma maneira pelo maior tempo possível.
Por um acaso, as mãos acabam se tocando. Num impulso espontâneo, o fim do toque é adiado. Desistiu, pensando o quanto aquela atitude seria capaz de estragar tudo, acreditando que nada ali era recíproco. Surpresa. A mão que havia soltado acabou por procurar a sua, seguida dos olhos, que pousaram sobre os seus como se buscassem mergulhar neles. Aqueles dois pares de olhos tentando mergulhar-se entre si, naquela meia dúzia de minutos, aquele par de mãos que se encontraram naquele ar sujo, perdidas naquele meio milhão de pessoas. Mais um sorriso, talvez? Mais dois, então. Mais conversas, mais coisas em comum, mais frases ditas em coro duplo, algumas risadas e gargalhadas, mais vontade de sustentar aquilo pelo máximo de tempo possível.
Tempo este, que passava leve, como não fazia há dias. E ele é curto demais também, a pesada realidade aproximava-se e ambos os corpos transbordavam a vontade de estender aquelas poucas horas de viveram-felizes-para-sempre. Poucas horas estas em que dois mundos resumiam-se naqueles fragmentos de vida compartilhados por acaso.
Aquele meio-abraço tinha quase vida própria, e aquelas duas pessoas não eram capazes de controlá-lo, bem como não conseguiam controlar os passos sincronizados e as sombras na calçada que andavam no mesmo ritmo. Últimas palavras. Último silêncio. A felicidade do momento mantendo as lágrimas na vontade. Tornara-se estranho andar sem aquele braço envolvido no corpo, sem aquele corpo para envolver com o braço. O cheiro que ficou trazia a sensação de que iria abrir a porta e encontrar aquela pessoa ali, esperando que lhe fosse arrancado novamente o mesmo primeiro-sorriso. Mas talvez jamais encontre, talvez jamais volte a sorrir assim. Talvez, se encontrasse sempre, já não mais desejasse encontrar e o corpo já afastasse o braço perante a tentativa de envolvê-lo. Mas talvez não. Não se sabe.
Sentia como se, do chão estivessem subindo os créditos, como se as luzes pudessem acender-se a qualquer momento, como se a sala estivesse ficando vazia. Podia ouvir os comentários curiosos "será que acabou mesmo?" "qual dos dois que vai voltar correndo e dizer que vai embora junto com o outro?" Na verdade, ninguém voltaria. Não agora. Resolveu pensar no que foi bom e acreditar que o mundo gira, que as pessoas vão, mas também voltam. Acreditar que outras pessoas assim existem para passar outras horas assim em sua companhia. Acreditando cada vez mais, mas sabendo cada vez menos em que.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Das noites e das manhãs
Pego o livro na gaveta e conheço o final de mais uma história fictícia, dessas onde nem tudo acaba tão bem assim. Eu gosto dessas histórias por elas se aproximarem mais da realidade, como nos filmes tragicômicos que carregam a minha insônia nos créditos. Vou arrastando os pés pela casa, como quem procura os sonhos perdidos em outras noites, em outras camas, em outras realidades.
"O outono foi mais frio que o inverno" penso com o olhar distante, como se pudesse enxergar aqueles meses onde o termômetro marcava um único dígito e o céu cinza parecia secar ainda mais as folhas caídas das árvores. Lembro das ruas vazias, da neblina que paira no ar das manhãs geladas. Nem parecem as mesmas manhãs dessas que temos ultimamente, apesar de serem também manhãs de ruas também vazias.
Arrepio. Uma vez me disseram que isso acontece quando um espírito passa por nós. Deve ser o espírito da lembrança, que, a propósito, é o mesmo que me faz voltar para os lugares de onde eu já fui embora. Pode ser também o espírito do medo, que chega perto de mim quando eu penso nas outras noites frias de outono, aquelas que ainda estão por vir.
Antes delas chegarem, queria sair um pouco, andar pela rua. Mas chove. Chove solidão, chove preguiça, chove cada palavra engasgada, chove a saudade, chove a lembrança. E parece que esta chuva não quer me deixar seguir em frente, fazendo questão de me prender nestes lugares cobertos que eu já conheço.
Minha certeza é de já ter tomado todos os banhos de chuva que podia aguentar. Agora, eu preciso amanhecer por várias vezes, com o tempo mais seco e o céu acinzentado.
"O outono foi mais frio que o inverno" penso com o olhar distante, como se pudesse enxergar aqueles meses onde o termômetro marcava um único dígito e o céu cinza parecia secar ainda mais as folhas caídas das árvores. Lembro das ruas vazias, da neblina que paira no ar das manhãs geladas. Nem parecem as mesmas manhãs dessas que temos ultimamente, apesar de serem também manhãs de ruas também vazias.
Arrepio. Uma vez me disseram que isso acontece quando um espírito passa por nós. Deve ser o espírito da lembrança, que, a propósito, é o mesmo que me faz voltar para os lugares de onde eu já fui embora. Pode ser também o espírito do medo, que chega perto de mim quando eu penso nas outras noites frias de outono, aquelas que ainda estão por vir.
Antes delas chegarem, queria sair um pouco, andar pela rua. Mas chove. Chove solidão, chove preguiça, chove cada palavra engasgada, chove a saudade, chove a lembrança. E parece que esta chuva não quer me deixar seguir em frente, fazendo questão de me prender nestes lugares cobertos que eu já conheço.
Minha certeza é de já ter tomado todos os banhos de chuva que podia aguentar. Agora, eu preciso amanhecer por várias vezes, com o tempo mais seco e o céu acinzentado.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Deve ser o calor.
A falta que faz o que antes havia já não pode mais ser sentida. Vem chegando tantas outras coisas, e elas vem chegando para suprir tudo aquilo do que abri mão. Já não posso mais falar com o mesmo tom, com a mesma voz, eles já não parecem mais caber na minha garganta.
Não posso sentir falta mas também não ouso negar a existência dela. Sou toda vazio e tenho me deixado ser preenchida com água quente, para que evapore mais rápido e para que dissolva todo o resto. Ou quase todo.
....
Tem dias que eu não quero falar do tempo, mas eu não consigo fugir dele. Eu sinto que ele está sempre atrás de mim, com papel e caneta em mãos, me cobrando tudo aquilo que eu ainda não fiz. Eu acho que ele deita comigo na cama e enche meus ouvidos de dívidas antes de dormir. Parece que ele se esconde em cada uma das músicas que eu escuto, em cada rosto que eu cruzo pela rua. Acho que ele ouve cada palavra que eu digo, e eu acho também que ele sobe nos meus ombros para que eles pareçam mais pesados. Por que o tempo, uma vez ensinaram pra ele que era ele mesmo, o senhor da razão. Não sei se quem acreditou mais nisso foi ele ou foi eu, sei que eu coloco a sabedoria do tempo em todos os lugares onde ainda não consegui chegar.
...
Me assusta o vazio desses olhos, desse sorriso.
O vazio dessas palavras, dessas vontades.
Deve ser o calor.
Não posso sentir falta mas também não ouso negar a existência dela. Sou toda vazio e tenho me deixado ser preenchida com água quente, para que evapore mais rápido e para que dissolva todo o resto. Ou quase todo.
....
Tem dias que eu não quero falar do tempo, mas eu não consigo fugir dele. Eu sinto que ele está sempre atrás de mim, com papel e caneta em mãos, me cobrando tudo aquilo que eu ainda não fiz. Eu acho que ele deita comigo na cama e enche meus ouvidos de dívidas antes de dormir. Parece que ele se esconde em cada uma das músicas que eu escuto, em cada rosto que eu cruzo pela rua. Acho que ele ouve cada palavra que eu digo, e eu acho também que ele sobe nos meus ombros para que eles pareçam mais pesados. Por que o tempo, uma vez ensinaram pra ele que era ele mesmo, o senhor da razão. Não sei se quem acreditou mais nisso foi ele ou foi eu, sei que eu coloco a sabedoria do tempo em todos os lugares onde ainda não consegui chegar.
...
Me assusta o vazio desses olhos, desse sorriso.
O vazio dessas palavras, dessas vontades.
Deve ser o calor.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Então acabou.
Era uma linda história, dessas histórias que tinham tudo para dar certo. Qualquer um que possuísse um resquício de coração conseguiria perceber que aquela história, ela daria certo como nenhuma outra história jamais havia dado. Que era escrita no vento gelado do inverno, e dançava sobre as árvores secas dos parques. Talvez ela não fosse para sempre e talvez também não fosse plenamente perfeita. O que não a impossibilitaria de ser a história que daria mais certo entre todas aquelas que deram certo.
Mas havia medo. E segredos. Havia mentira, também. E ventos fortes demais, que escreveram fora do inverno e secaram não somente as árvores, mas todo o resto da vegetação. E então deixou de dar tão certo quanto antes. E então passou a doer. E permeneceu machucando por mais um tempo. E passou o tempo, também. E deixou marcas, e fez crescer. Surgiram, então, diversas outras histórias para que esta não fosse mais lembrada. E ela foi lembrada, por várias e várias vezes. Então, por outras tantas vezes foi esquecida. Não se sabe em qual das curvas ocorreu o acidente fatal, mas suspeita-se de que foi em alguma dessas no começo do caminho. Foi quando começou, que ela deixou de ser a história que mais daria certo entre todas aquelas que deram. Então acabou.
Mas havia medo. E segredos. Havia mentira, também. E ventos fortes demais, que escreveram fora do inverno e secaram não somente as árvores, mas todo o resto da vegetação. E então deixou de dar tão certo quanto antes. E então passou a doer. E permeneceu machucando por mais um tempo. E passou o tempo, também. E deixou marcas, e fez crescer. Surgiram, então, diversas outras histórias para que esta não fosse mais lembrada. E ela foi lembrada, por várias e várias vezes. Então, por outras tantas vezes foi esquecida. Não se sabe em qual das curvas ocorreu o acidente fatal, mas suspeita-se de que foi em alguma dessas no começo do caminho. Foi quando começou, que ela deixou de ser a história que mais daria certo entre todas aquelas que deram. Então acabou.
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