A falta que faz o que antes havia já não pode mais ser sentida. Vem chegando tantas outras coisas, e elas vem chegando para suprir tudo aquilo do que abri mão. Já não posso mais falar com o mesmo tom, com a mesma voz, eles já não parecem mais caber na minha garganta.
Não posso sentir falta mas também não ouso negar a existência dela. Sou toda vazio e tenho me deixado ser preenchida com água quente, para que evapore mais rápido e para que dissolva todo o resto. Ou quase todo.
....
Tem dias que eu não quero falar do tempo, mas eu não consigo fugir dele. Eu sinto que ele está sempre atrás de mim, com papel e caneta em mãos, me cobrando tudo aquilo que eu ainda não fiz. Eu acho que ele deita comigo na cama e enche meus ouvidos de dívidas antes de dormir. Parece que ele se esconde em cada uma das músicas que eu escuto, em cada rosto que eu cruzo pela rua. Acho que ele ouve cada palavra que eu digo, e eu acho também que ele sobe nos meus ombros para que eles pareçam mais pesados. Por que o tempo, uma vez ensinaram pra ele que era ele mesmo, o senhor da razão. Não sei se quem acreditou mais nisso foi ele ou foi eu, sei que eu coloco a sabedoria do tempo em todos os lugares onde ainda não consegui chegar.
...
Me assusta o vazio desses olhos, desse sorriso.
O vazio dessas palavras, dessas vontades.
Deve ser o calor.