sexta-feira, 11 de março de 2011

Das noites e das manhãs

Pego o livro na gaveta e conheço o final de mais uma história fictícia, dessas onde nem tudo acaba tão bem assim. Eu gosto dessas histórias por elas se aproximarem mais da realidade, como nos filmes tragicômicos que carregam a minha insônia nos créditos. Vou arrastando os pés pela casa, como quem procura os sonhos perdidos em outras noites, em outras camas, em outras realidades.
"O outono foi mais frio que o inverno" penso com o olhar distante, como se pudesse enxergar aqueles meses onde o termômetro marcava um único dígito e o céu cinza parecia secar ainda mais as folhas caídas das árvores. Lembro das ruas vazias, da neblina que paira no ar das manhãs geladas. Nem parecem as mesmas manhãs dessas que temos ultimamente, apesar de serem também manhãs de ruas também vazias.
Arrepio. Uma vez me disseram que isso acontece quando um espírito passa por nós. Deve ser o espírito da lembrança, que, a propósito, é o mesmo que me faz voltar para os lugares de onde eu já fui embora. Pode ser também o espírito do medo, que chega perto de mim quando eu penso nas outras noites frias de outono, aquelas que ainda estão por vir.
Antes delas chegarem, queria sair um pouco, andar pela rua. Mas chove. Chove solidão, chove preguiça, chove cada palavra engasgada, chove a saudade, chove a lembrança. E parece que esta chuva não quer me deixar seguir em frente, fazendo questão de me prender nestes lugares cobertos que eu já conheço.
Minha certeza é de já ter tomado todos os banhos de chuva que podia aguentar. Agora, eu preciso amanhecer por várias vezes, com o tempo mais seco e o céu acinzentado.