sábado, 9 de abril de 2011

Once more with feeling

Arrancou um sorriso quando a vontade real era de arrancar a roupa inteirinha, peça por peça. Sentiu um leve gostinho de início vitorioso. "Gostei de você" disse, brigando com os lábios para que eles não concretizassem o desejo real de se entregar por inteiro àquele sorriso. Quando ouviu aquele mesmo sorriso perguntar "vamos indo?" segurou-se para não responder que sim, vamos indo para qualquer lugar que quiseres, vamos indo e, de preferência, vamos sem rumo e sem volta. Olhando tudo aquilo que lhes cercava, procurou algo capaz de assegurar a realidade da situação. Pensava ter buscado por tanto tempo aquela pessoa, que ela acabou por sair dos seus sonhos e aparecer bem ali, parada na mesma sala de poucos metros quadrados onde se encontrava.
No fundo, sabia que aquela sensação poderia ter sido forjada por diversas outras boas sensações que haviam acumulado-se em si nos últimos dias. Mesmo sabendo que dali a poucas horas iria embora, - talvez para sempre, talvez não - desejava que aquilo dentro de si permanecesse no mesmo lugar e da mesma maneira pelo maior tempo possível.
Por um acaso, as mãos acabam se tocando. Num impulso espontâneo, o fim do toque é adiado. Desistiu, pensando o quanto aquela atitude seria capaz de estragar tudo, acreditando que nada ali era recíproco. Surpresa. A mão que havia soltado acabou por procurar a sua, seguida dos olhos, que pousaram sobre os seus como se buscassem mergulhar neles. Aqueles dois pares de olhos tentando mergulhar-se entre si, naquela meia dúzia de minutos, aquele par de mãos que se encontraram naquele ar sujo, perdidas naquele meio milhão de pessoas. Mais um sorriso, talvez? Mais dois, então. Mais conversas, mais coisas em comum, mais frases ditas em coro duplo, algumas risadas e gargalhadas, mais vontade de sustentar aquilo pelo máximo de tempo possível.
Tempo este, que passava leve, como não fazia há dias. E ele é curto demais também, a pesada realidade aproximava-se e ambos os corpos transbordavam a vontade de estender aquelas poucas horas de viveram-felizes-para-sempre. Poucas horas estas em que dois mundos resumiam-se naqueles fragmentos de vida compartilhados por acaso.
Aquele meio-abraço tinha quase vida própria, e aquelas duas pessoas não eram capazes de controlá-lo, bem como não conseguiam controlar os passos sincronizados e as sombras na calçada que andavam no mesmo ritmo. Últimas palavras. Último silêncio. A felicidade do momento mantendo as lágrimas na vontade. Tornara-se estranho andar sem aquele braço envolvido no corpo, sem aquele corpo para envolver com o braço. O cheiro que ficou trazia a sensação de que iria abrir a porta e encontrar aquela pessoa ali, esperando que lhe fosse arrancado novamente o mesmo primeiro-sorriso. Mas talvez jamais encontre, talvez jamais volte a sorrir assim. Talvez, se encontrasse sempre, já não mais desejasse encontrar e o corpo já afastasse o braço perante a tentativa de envolvê-lo. Mas talvez não. Não se sabe.
Sentia como se, do chão estivessem subindo os créditos, como se as luzes pudessem acender-se a qualquer momento, como se a sala estivesse ficando vazia. Podia ouvir os comentários curiosos "será que acabou mesmo?" "qual dos dois que vai voltar correndo e dizer que vai embora junto com o outro?" Na verdade, ninguém voltaria. Não agora. Resolveu pensar no que foi bom e acreditar que o mundo gira, que as pessoas vão, mas também voltam. Acreditar que outras pessoas assim existem para passar outras horas assim em sua companhia. Acreditando cada vez mais, mas sabendo cada vez menos em que.