Certo dia, numa pequena cidade interiorana, uma bela jovem de bom coração e palavras acolhedoras engravidara de um outro belo jovem de sorriso fácil e olhar sereno. Não havia possibilidade de dar errado uma cria provinda destes dois maravilhosos seres humanos, e o resultado foi mesmo surpreendente. Dali nasceu um pequeno menino que herdou tanto o sorriso fácil do pai quanto as palavras acolhedoras da mãe. Herdou também - apesar da visão debilitada do olho esquerdo - o olhar sereno e o bom coração dos progenitores, além de uma incrível capacidade de audição e observação de sabe-se lá qual parente ou entidade que por perto passara durante a formação de sua alma. O início de sua infância foi como de tantas outras crianças que neste mundo vivem. Ou não.
Foi cercada de experiências que muitos adultos atravessam a vida sem presenciar ou sem prestar a devida atenção como ele costumava fazer com tudo que lhe cercava. Sua infância foi uma experiência peculiar por ser a primeira da vida, por ter pais como os que tinha, por ter ganhado um irmão, por ter peregrinado por diversos lugares, por ter presenciado atenciosamente cada minuto que vivera.
E esta mesma infância peculiar foi o que criou o jovem de sorriso fácil que se tornou. Um jovem simples, inteligente, amigo, compreensivo, forte. Reservado. Sempre disposto a participar da vida de todos mas nunca disposto a contar aos outros sobre como acreditava estar vivendo a sua. Sempre observando e gostando muito - ou não - do que via. Um jovem que foi se tornando malandro por admirar a malandragem daqueles que mesmo na pobreza, na limitação, na repressão e na própria infelicidade, conseguiam manter-se sorrindo e sambando e disseminando alegria por onde quer que estivessem. Este foi um jovem que viu os maiores motivos para ser triste transformarem-se em poesia e encantou-se com isso, fortalecendo seu perpétuo sorriso e seu semblante tranquilo. Um jovem cativante e apaixonante, que nunca teve o rosto dos cinemas mas sempre possuiu a leveza dos artistas. Seus absurdamente misteriosos olhos azuis eram capazes de acolher qualquer coração choroso e absorver todas as boas emoções que enxergavam. Estas emoções eram de onde seu coração tirava toda a esperança que aquele corpo emanava. A esperança da existência de seres humanos mais humanos, que compartilham cada uma das conquistas e fazem da felicidade do próximo a sua própria felicidade.
Ele ouvia atentamente cada palavra que diziam próximo ou diretamente a ele, pois era assim que conseguia suprir sua infinita curiosidade. Inconscientemente, foi assim que aprendeu que a vida humana era realmente mais complexa do que pensou que seria, e foi assim também que percebeu que o mais valioso de um ser humano era sua confiança. Tamanha sabedoria tornou-o detentor da confiança de grande parte dos seres humanos que o cercavam. Havia transformado-se num ombro amigo coletivo, porém particular, com uma palavra acolhedora diferente para cada lágrima e com o mesmo olhar sereno que lhe era característico. Ele gostava muito das histórias contadas pelos outros, mas também vivia suas próprias histórias. Entretanto, ele não vivia histórias tristes como das outras pessoas, cheias de sofrimento e dor. Suas histórias eram simplesmente suas belas e longas histórias.
Aquele menino simples, inteligente, amigo, compreensivo, forte e reservado possuía um vazio no peito que era simplesmente inexplicável, imensurável e ignorado. Por ele e por todos que nele confiavam. Um vazio constante e com o qual acostumou-se a viver. Quando já nem sentia mais o vazio, sentiu-se estufado pelo novo. Foi pressionado a mostrar-se, a abrir-se, mas resistiu bravamente por não saber como fazê-lo e continuou lacrado como um sigiloso esquema de desvio de sentimentos. Sofreu. Talvez tenha até chorado (sozinho, como de costume). Enozou toda a garganta e se perdeu nas mesmas palavras que usou para amenizar e fugir de todas as situações ao longo da vida. E foi justamente fugindo que encontrou uma fonte de felicidade capaz de transcender todo seu sofrimento. E foi fugindo que conseguiu eximir tudo que lhe machucou uma dia, pois a fuga era a esperança de que lá longe o sol brilhava de uma maneira diferente. Nem melhor, nem pior, mas diferente.
Sua fuga é saudável e rica. Aproveita cada momento do escape, cada palavra dita de uma maneira diferente daquela que seus ouvidos acostumaram-se, cada olhar, cada suspiro. Foge por curiosidade de saber até onde vai isso tudo. O menino sente-se menino novamente em cada estrada que observa modificar-se com o passar das horas. Sente-se o mais menino dos homens imaginando quantas vidas existem para serem descobertas pelos seus misteriosos olhos azuis naqueles metros quadrados. E hoje ele foge sem saber que foge e sem saber do que. Talvez da rotina, talvez do tédio, talvez da pessoa que estas coisas são capazes de transformá-lo. O menino este, anda quilômetros para não cansar e não desistir. E sorri, ele sempre sorri porque é sorrindo que ele aprende, que ele cresce, que ele vive, que ele sofre, que ele anda, que ele ama. E é sorrindo que ele vai embora. É seu sorriso que deixa a profunda saudade em cada um dos lugares dos quais ele foge, é o seu sorriso que é lembrado onde ele já viveu. É este sorriso que dá respaldo à sua fuga, sua esperança, sua tranquilidade. Suas asas já derreteram e ainda derreterão por muitas vezes, mas isto só ocorre para que ele, sozinho, possa construí-las novamente, voar ainda mais alto, chegar ainda mais longe e, principalmente, continuar sorrindo.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
domingo, 21 de agosto de 2011
Conto de fadas
Por muitas vezes lhe disseram que os contos de fadas não existiam, tão pouco as próprias fadas. Ela, que sempre foi muitíssimo cabeça dura, não dava atenção àquelas pessoas que não eram capazes de enxergar o que lhe mostrava seu coração. Seguia inventando em seus sonhos os contos de fadas mais belos que sua jovem mente conseguia projetar. E não só os inventava, como os vivia intensamente. Externava uma solidão que na verdade não existia. Ela não precisava estar acompanhada destas pessoas que não compreendiam o quanto o mundo dela e deles todos poderia ser belo. Foi capaz de criar um conto de fadas tão grande e que conseguia abranger o mundo de uma maneira tão completa que foi possível que ele crescesse junto à ela.
E ela cresceu, e tornou-se a mais iluminada das fadas. Ela tornou-se a inspiração de muitas vidas que apesar de não compreenderem por que, enxergavam a beleza que ela era capaz de refletir. Com toda esta beleza, foi amada. Um amor que lhe trazia todas as sensações das quais precisava, que lhe preenchia o peito da maneira mais bela. O príncipe encantado de seu conto de fadas. Um amor fácil de viver, que lhe aceitava, lhe levava ao ponto mais profundo de suas fábulas e lhe devolvia à realidade em instantes. Que lhe dava a segurança de um escudo de ferro. Que lhe arrancava os sorrisos mais plenos e os suspiros mais intensos.
Amando, ela pode seguir, ela conseguia ver a luz no fim do túnel. Amando, ela se escondeu. E amando, seu conto de fadas foi escorrendo por entre seus dedos, foi se perdendo na rotina e no dia a dia sufocante que aquele amor a fazia viver. E amar foi doendo, foi atordoando, foi limitando seus contos de fadas a um único cenário. Foi lhe amarrando as pernas, os braços, o coração. Ela não sabia mais criar seu próprio mundo, ela não sabia mais sentir o gosto do sol no seu rosto e o gosto do vento no cabelo, ela esqueceu de crescer como costumava fazer e ela não compreendia o porquê disso estar acontecendo.
Certo dia, ela ousou escrever sua história mais longe e foi assim que sua solidão deu lugar à euforia. Assim, encontrou uma completude humana num mundo onde ela havia se esquecido de ter esperanças. Tão distante mas tão próximo que ela mal acreditava. Tão distante mas tão próximo que seu amor sentiu-se sobrando ao lado daquilo que era novo dentro do coração dela. E nem ela e nem ele sabiam sentir estas coisas. Nos seus contos de fadas, estas coisas não aconteciam.
Foi então que fada se fez humana e o amor se fez vilão. A fada chorou as lágrimas mais tristes que os contos de fadas já haviam presenciado. Ela sentiu uma solidão que jamais sentira e quis ter qualquer pessoa que não lhe entendesse ao seu lado. Precisou de um abraço que nunca pensou que precisaria. E precisou ser o que jamais fora. Precisou ser má, precisou mentir e se esconder, precisou fingir e sorrir amarelo. Já havia encontrado seu final feliz, mas como já lhe haviam avisado, os contos de fadas não existem - ou pelo menos não são como nas histórias dos livros infantis. Seu coração chorava constantemente por não saber mais a quem pertencia.
A fada, como sempre fazia para projetar suas histórias, sabia que precisava buscar forças para encontrar seu caminho. E hoje conseguia enxergar perfeitamente que seu caminho era tão rico e belo que ela não podia deixar que sua dor lhe impedisse de seguir. Ela sabia que a vida ainda lhe reservava coisas inimaginavelmente grandes e que ela deveria ser forte o suficiente para viver cada uma destas coisas da forma que era necessário. Naquele momento, deparava-se com uma situação que jamais imaginara deparar-se e sabia caber somente a ela encontrar a maneira menos devastadora de começar de novo. Ela sempre convivera com grandes responsabilidades e neste momento, carregava a maior delas: sua própria felicidade.
E ela cresceu, e tornou-se a mais iluminada das fadas. Ela tornou-se a inspiração de muitas vidas que apesar de não compreenderem por que, enxergavam a beleza que ela era capaz de refletir. Com toda esta beleza, foi amada. Um amor que lhe trazia todas as sensações das quais precisava, que lhe preenchia o peito da maneira mais bela. O príncipe encantado de seu conto de fadas. Um amor fácil de viver, que lhe aceitava, lhe levava ao ponto mais profundo de suas fábulas e lhe devolvia à realidade em instantes. Que lhe dava a segurança de um escudo de ferro. Que lhe arrancava os sorrisos mais plenos e os suspiros mais intensos.
Amando, ela pode seguir, ela conseguia ver a luz no fim do túnel. Amando, ela se escondeu. E amando, seu conto de fadas foi escorrendo por entre seus dedos, foi se perdendo na rotina e no dia a dia sufocante que aquele amor a fazia viver. E amar foi doendo, foi atordoando, foi limitando seus contos de fadas a um único cenário. Foi lhe amarrando as pernas, os braços, o coração. Ela não sabia mais criar seu próprio mundo, ela não sabia mais sentir o gosto do sol no seu rosto e o gosto do vento no cabelo, ela esqueceu de crescer como costumava fazer e ela não compreendia o porquê disso estar acontecendo.
Certo dia, ela ousou escrever sua história mais longe e foi assim que sua solidão deu lugar à euforia. Assim, encontrou uma completude humana num mundo onde ela havia se esquecido de ter esperanças. Tão distante mas tão próximo que ela mal acreditava. Tão distante mas tão próximo que seu amor sentiu-se sobrando ao lado daquilo que era novo dentro do coração dela. E nem ela e nem ele sabiam sentir estas coisas. Nos seus contos de fadas, estas coisas não aconteciam.
Foi então que fada se fez humana e o amor se fez vilão. A fada chorou as lágrimas mais tristes que os contos de fadas já haviam presenciado. Ela sentiu uma solidão que jamais sentira e quis ter qualquer pessoa que não lhe entendesse ao seu lado. Precisou de um abraço que nunca pensou que precisaria. E precisou ser o que jamais fora. Precisou ser má, precisou mentir e se esconder, precisou fingir e sorrir amarelo. Já havia encontrado seu final feliz, mas como já lhe haviam avisado, os contos de fadas não existem - ou pelo menos não são como nas histórias dos livros infantis. Seu coração chorava constantemente por não saber mais a quem pertencia.
A fada, como sempre fazia para projetar suas histórias, sabia que precisava buscar forças para encontrar seu caminho. E hoje conseguia enxergar perfeitamente que seu caminho era tão rico e belo que ela não podia deixar que sua dor lhe impedisse de seguir. Ela sabia que a vida ainda lhe reservava coisas inimaginavelmente grandes e que ela deveria ser forte o suficiente para viver cada uma destas coisas da forma que era necessário. Naquele momento, deparava-se com uma situação que jamais imaginara deparar-se e sabia caber somente a ela encontrar a maneira menos devastadora de começar de novo. Ela sempre convivera com grandes responsabilidades e neste momento, carregava a maior delas: sua própria felicidade.
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