segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Das asas que derretem.

Certo dia, numa pequena cidade interiorana, uma bela jovem de bom coração e palavras acolhedoras engravidara de um outro belo jovem de sorriso fácil e olhar sereno. Não havia possibilidade de dar errado uma cria provinda destes dois maravilhosos seres humanos, e o resultado foi mesmo surpreendente. Dali nasceu um pequeno menino que herdou tanto o sorriso fácil do pai quanto as palavras acolhedoras da mãe. Herdou também - apesar da visão debilitada do olho esquerdo - o olhar sereno e o bom coração dos progenitores, além de uma incrível capacidade de audição e observação de sabe-se lá qual parente ou entidade que por perto passara durante a formação de sua alma. O início de sua infância foi como de tantas outras crianças que neste mundo vivem. Ou não. 
Foi cercada de experiências que muitos adultos atravessam a vida sem presenciar ou sem prestar a devida atenção como ele costumava fazer com tudo que lhe cercava. Sua infância foi uma experiência peculiar por ser a primeira da vida, por ter pais como os que tinha, por ter ganhado um irmão, por ter peregrinado por diversos lugares, por ter presenciado atenciosamente cada minuto que vivera.
E esta mesma infância peculiar foi o que criou o jovem de sorriso fácil que se tornou. Um jovem simples, inteligente, amigo, compreensivo, forte. Reservado. Sempre disposto a participar da vida de todos mas nunca disposto a contar aos outros sobre como acreditava estar vivendo a sua. Sempre observando e gostando muito - ou não - do que via. Um jovem que foi se tornando malandro por admirar a malandragem daqueles que mesmo na pobreza, na limitação, na repressão e na própria infelicidade, conseguiam manter-se sorrindo e sambando e disseminando alegria por onde quer que estivessem. Este foi um jovem que viu os maiores motivos para ser triste transformarem-se em poesia e encantou-se com isso, fortalecendo seu perpétuo sorriso e seu semblante tranquilo. Um jovem cativante e apaixonante, que nunca teve o rosto dos cinemas mas sempre possuiu a leveza dos artistas. Seus absurdamente misteriosos olhos azuis eram capazes de acolher qualquer coração choroso e absorver todas as boas emoções que enxergavam. Estas emoções eram de onde seu coração tirava toda a esperança que aquele corpo emanava. A esperança da existência de seres humanos mais humanos, que compartilham cada uma das conquistas e fazem da felicidade do próximo a sua própria felicidade. 
Ele ouvia atentamente cada palavra que diziam próximo ou diretamente a ele, pois era assim que conseguia suprir sua infinita curiosidade. Inconscientemente, foi assim que aprendeu que a vida humana era realmente mais complexa do que pensou que seria, e foi assim também que percebeu que o mais valioso de um ser humano era sua confiança. Tamanha sabedoria tornou-o detentor da confiança de grande parte dos seres humanos que o cercavam. Havia transformado-se num ombro amigo coletivo, porém particular, com uma palavra acolhedora diferente para cada lágrima e com o mesmo olhar sereno que lhe era característico. Ele gostava muito das histórias contadas pelos outros, mas também vivia suas próprias histórias. Entretanto, ele não vivia histórias tristes como das outras pessoas, cheias de sofrimento e dor. Suas histórias eram simplesmente suas belas e longas histórias. 
Aquele menino simples, inteligente, amigo, compreensivo, forte e reservado possuía um vazio no peito que era simplesmente inexplicável, imensurável e ignorado. Por ele e por todos que nele confiavam. Um vazio constante e com o qual acostumou-se a viver. Quando já nem sentia mais o vazio, sentiu-se estufado pelo novo. Foi pressionado a mostrar-se, a abrir-se, mas resistiu bravamente por não saber como fazê-lo e continuou lacrado como um sigiloso esquema de desvio de sentimentos. Sofreu. Talvez tenha até chorado (sozinho, como de costume). Enozou toda a garganta e se perdeu nas mesmas palavras que usou para amenizar e fugir de todas as situações ao longo da vida. E foi justamente fugindo que encontrou uma fonte de felicidade capaz de transcender todo seu sofrimento. E foi fugindo que conseguiu eximir tudo que lhe machucou uma dia, pois a fuga era a esperança de que lá longe o sol brilhava de uma maneira diferente. Nem melhor, nem pior, mas diferente.
Sua fuga é saudável e rica. Aproveita cada momento do escape, cada palavra dita de uma maneira diferente daquela que seus ouvidos acostumaram-se, cada olhar, cada suspiro. Foge por curiosidade de saber até onde vai isso tudo. O menino sente-se menino novamente em cada estrada que observa modificar-se com o passar das horas. Sente-se o mais menino dos homens imaginando quantas vidas existem para serem descobertas pelos seus misteriosos olhos azuis naqueles metros quadrados. E hoje ele foge sem saber que foge e sem saber do que. Talvez da rotina, talvez do tédio, talvez da pessoa que estas coisas são capazes de transformá-lo. O menino este, anda quilômetros para não cansar e não desistir. E sorri, ele sempre sorri porque é sorrindo que ele aprende, que ele cresce, que ele vive, que ele sofre, que ele anda, que ele ama. E é sorrindo que ele vai embora. É seu sorriso que deixa a profunda saudade em cada um dos lugares dos quais ele foge, é o seu sorriso que é lembrado onde ele já viveu. É este sorriso que dá respaldo à sua fuga, sua esperança, sua tranquilidade. Suas asas já derreteram e ainda derreterão por muitas vezes, mas isto só ocorre para que ele, sozinho, possa construí-las novamente, voar ainda mais alto, chegar ainda mais longe e, principalmente, continuar sorrindo.