Volta pra casa, menino
Que este mundo é grande demais
Os teus pés nunca vão conseguir
Percorrer estas ruas inteiras
Os teus olhos não merecem ver
A desgraça que existe lá fora
Tuas mãos não querem tocar
Na sujeira das vidas mal feitas
Os pulmões nem saberão respirar
O vento forte que corre na rua
Que te leva pra longe daqui
Que te rouba do teu caminho
Que carrega as estranhas verdades
Volta pra casa, menino
Essa gente quer te machucar
Teu dinheiro, eles vão levar
Eles querem é te ver sofrer
Eles vão te fazer implorar pra voltar
E estas ruas, tu não conheces
As estradas são cheias de curvas
Vai que numa delas, tu te perdes
Volta pra casa, menino
Que de dentro, a janela te mostra
O que cabe no vidro e reflete
O que dentro daqui acontece
E quem passa lá fora não vê
Qus os teus olhos, curiosos, observam
E que aqui a nós ficamos seguros
Amanhã ou depois tudo muda
A paisagem, a janela e o aqui
Volta pra casa, menino
Que lá fora as pessoas são más
Elas te deixam chorando sozinho
Elas somem no meio do caminho
E lá fora elas crescem demais
E você nunca consegue enxergar
A maldade dos olhos delas
Nestas ruas elas ficam mais fortes
Você nunca vai conseguir enfrentar
Menino, volta pra casa
Por que aqui, eu consigo te ver
E te vendo eu me acalmo
Garanto os teus passos seguros
Te mostro como foi que eu fiz
Fica aqui só até quando eu for
E escuta bem o que eu te digo
Que mais tarde, quem falas é tu
Menino, volta pra casa
Já pensou se você tropeçar
Na rua, ninguém vai te segurar
Imagina, então, se cair
E pior, se a cara quebrar
E depois, se ela fortalecer
E mais tarde, do chão, se erguer
Imagina se você conhecer
Essas coisas das quais te protejo
Menino, volta pra casa
Essa gente vai te assaltar
Eles andam todos armados
E não tem medo de te atingir
Eles vão te ensinar a atirar
Mas as armas eles não vão te dar
Vão te fazer a todas conquistar
Eles querem te fazer chorar
Eles vão te fazer gritar
Que pra eles, somos todos iguais
E em casa, menino, não é
Em casa você é melhor
Do que eu e até do que eles
Mas na rua, eles vão te mudar
Eles querem te deseducar
Vão obrigar os seus olhos a se abrir
Menino, volta pra casa
Na rua vão querer te abraçar
Quem não te rouba, te leva
Se nada leva, acrescenta
Vão te fazer compreender as coisas
Que o medo nunca me deixou entender
Você nunca mais vai ser o mesmo
Nunca mais o meu menino
Volta pra casa, menino
Lá fora as coisas são diferentes
Estas pessoas caminham demais
Você vai querer ir com elas
E mais tarde, vai seguir junto à outras
Olha esse monte de gente
Todos eles querem te levar
Eles querem te fazer sentir
Eles vão te ensinar a amar
Uma vida querem te ver construir
Vão fazer você se entregar
E no fim, eu é que vou te perder
E no fim, tu é que vais te ganhar
Então, menino, volta pra casa
Esse mundo é grande demais.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Viajante
Olhando a estrada e as belas paisagens que ela proporciona, pensava no quanto sua vida era pequena e, ao mesmo tempo, no quanto ela crescera de uns tempos pra cá.
É estranho, a força. Ela é uma sensação estranha. A força sempre precede o medo. Nós, humildes seres humanos, quando tememos alguma coisa, ou fugimos, ou enfrentamos. São as únicas possibilidades que o medo nos oferece. Então, um dia qualquer, resolvemos enfrentar aquele medo ou o enfrentamos inconscientemente, e depois de perceber que passamos vivos por tamanho embaque, nós nos libertamos e nos fortalecemos. A partir dali, nada daquilo é capaz de nos assustar profundamente. Temos, no mínimo, a certeza que de sobreviveremos.
A estrada era quase eterna e o silêncio já não incomodava mais. Tinha uma certa vontade de fazer perguntas que faria aos seus amigos, na mesa do bar. Aquelas perguntas que só pessoas que se conhecem bastante adquiriram a naturalidade necessária para fazer. Mas preferiu guardar para si as perguntas, imaginando as respostas. Todas aquelas estradas para cidades desconhecidas lhe despertava vontade de correr o mundo inteirinho a pé, de ponta a ponta. Todos aqueles rostos suados, cansados e esgostados lhe convidavam para uma longa conversa depois de longas garrafas de bebidas baratas.
No canibalismo sistemático criado pela sociedade, foi capaz de nascer a mais rica das situações humanas: a pobreza. Os pobres coitados e fedidos sorriem da mesma maneira que você sorri. Com uma quantidade menor de dentes, talvez. Com os cabelos mais brancos e o vocabulário mais curto, também. O sorriso deles não possui os 32 dentes reluzentemente brancos que o seu possui, alguns cariáram ainda na infância e outros, a vida responsabilizou-se de levar. O vento não balança suavemente o cabelo dos pobres, como faz com os seus. O vento estralhaça de frio as casas contruídas quase que somente de esperança. O próprio frio, que você considera elegante, desespera os pobres numa única lembrança. Os pobres são feios, se vestem mal, não compram o celular mais bonito da loja, vivem todos em dois ou três cômodos, e mesmo assim, eles sorriem. O sorriso do pobre é aberto, é sem-vergonha, é leve, é constante. O sorriso do pobre é uma arma contra você, que acha um desrespeito essa gente feia e suja lhe sorrindo. E o seu achar não muda absolutamente nada no sorriso do pobre. O pobre precisa amar pessoas porque amar as coisas não lhe dá garantia alguma de reciprocidade. E o pobre é carente, por que nem sempre lhe sobra uns trocados para as pizzas ou para os chocolates que, em você, completam o espaço onde as pessoas não conseguem chegar. O pobre deixa que as pessoas cheguem em todos os lugares, por que eles já foram proibidos demais pelos outros. O pobre, já que não tem nada mesmo, também não tem medo de muita coisa. O medo do pobre é perder aqueles e aquilos que ele conquistou no ritmo de um conta-gotas preenchido do seu suor. Você tem medo de andar na rua durante a noite, sozinho, enquanto o pobre caminha tranquilamente à luz da lua, sentindo a brisa que só a noite consegue ter. O pobre nem reclama, como você faz o dia inteiro. Ele só comenta, superficialmente, os problemas e luta profundamente pelas soluções deles, como você nunca nem pensou em fazer.
Imagina quantas vezes já não pensaram nisso, neste mesmo trecho da estrada. Deve fazer muito tempo, apesar da estrada ainda estar nova. A estrada é sempre jovem, inclusive. Ela é mais ou menos humana, cada roda ou sola de sapato que passa por cima, renova. Bom é ser rodado, pisado. O Diabo, único capaz de assustar deus, não é tudo isso por ser mau e sim por ser vivido. E isso é o que dizem, por que nem deus nem diabo nem ninguém me ligou, até agora, pra me dar as coordenadas no meio de tanto asfalto, no meio desse monte de encruzilhadas. Ninguém veio me buscar, ainda, e, sinceramente, eu espero que nem venha mais ninguém mesmo. Buscar alguém é complicado demais.
Sente medo, ainda. Pelo menos possui a certeza de que os medos são compensadores.
Certeza é um verbete que deveria ser excluído do vocabulário humano em todos sotaques, porque enquanto um humano não viver cada um destes sotaques, ele não será capaz de utilizar da maneira correta, a certeza. Utilizará, portanto, a pré-certeza que é tão certa quanto qualquer outro questionamento que nos fizemos ao longo do expediente.
Caminhando pelo asfalto, enquanto o mesmo era dissolvido pelo sol, aqueles dois pobres sujismundos conversavam intimamente e sorriam. Um deles estendeu a mão num arbusto e puxou um pedaço de folha verde, que seguiu em sua mão durante boa parte do caminho. Ao lado, os carros passavam apressadamente, os vidros escuros os vendavam e o motor ensurdecia-os enquanto debatiam o futuro de uma conta bancária qualquer. Os pobres tinham suas contas no vermelho, nomes sujos e caderninhos pendurados no minimercado mais próximo. Caminhavam, suavam, conversavam, ouviam, olhavam, encostavam, sorriam.
É estranho, a força. Ela é uma sensação estranha. A força sempre precede o medo. Nós, humildes seres humanos, quando tememos alguma coisa, ou fugimos, ou enfrentamos. São as únicas possibilidades que o medo nos oferece. Então, um dia qualquer, resolvemos enfrentar aquele medo ou o enfrentamos inconscientemente, e depois de perceber que passamos vivos por tamanho embaque, nós nos libertamos e nos fortalecemos. A partir dali, nada daquilo é capaz de nos assustar profundamente. Temos, no mínimo, a certeza que de sobreviveremos.
A estrada era quase eterna e o silêncio já não incomodava mais. Tinha uma certa vontade de fazer perguntas que faria aos seus amigos, na mesa do bar. Aquelas perguntas que só pessoas que se conhecem bastante adquiriram a naturalidade necessária para fazer. Mas preferiu guardar para si as perguntas, imaginando as respostas. Todas aquelas estradas para cidades desconhecidas lhe despertava vontade de correr o mundo inteirinho a pé, de ponta a ponta. Todos aqueles rostos suados, cansados e esgostados lhe convidavam para uma longa conversa depois de longas garrafas de bebidas baratas.
No canibalismo sistemático criado pela sociedade, foi capaz de nascer a mais rica das situações humanas: a pobreza. Os pobres coitados e fedidos sorriem da mesma maneira que você sorri. Com uma quantidade menor de dentes, talvez. Com os cabelos mais brancos e o vocabulário mais curto, também. O sorriso deles não possui os 32 dentes reluzentemente brancos que o seu possui, alguns cariáram ainda na infância e outros, a vida responsabilizou-se de levar. O vento não balança suavemente o cabelo dos pobres, como faz com os seus. O vento estralhaça de frio as casas contruídas quase que somente de esperança. O próprio frio, que você considera elegante, desespera os pobres numa única lembrança. Os pobres são feios, se vestem mal, não compram o celular mais bonito da loja, vivem todos em dois ou três cômodos, e mesmo assim, eles sorriem. O sorriso do pobre é aberto, é sem-vergonha, é leve, é constante. O sorriso do pobre é uma arma contra você, que acha um desrespeito essa gente feia e suja lhe sorrindo. E o seu achar não muda absolutamente nada no sorriso do pobre. O pobre precisa amar pessoas porque amar as coisas não lhe dá garantia alguma de reciprocidade. E o pobre é carente, por que nem sempre lhe sobra uns trocados para as pizzas ou para os chocolates que, em você, completam o espaço onde as pessoas não conseguem chegar. O pobre deixa que as pessoas cheguem em todos os lugares, por que eles já foram proibidos demais pelos outros. O pobre, já que não tem nada mesmo, também não tem medo de muita coisa. O medo do pobre é perder aqueles e aquilos que ele conquistou no ritmo de um conta-gotas preenchido do seu suor. Você tem medo de andar na rua durante a noite, sozinho, enquanto o pobre caminha tranquilamente à luz da lua, sentindo a brisa que só a noite consegue ter. O pobre nem reclama, como você faz o dia inteiro. Ele só comenta, superficialmente, os problemas e luta profundamente pelas soluções deles, como você nunca nem pensou em fazer.
Imagina quantas vezes já não pensaram nisso, neste mesmo trecho da estrada. Deve fazer muito tempo, apesar da estrada ainda estar nova. A estrada é sempre jovem, inclusive. Ela é mais ou menos humana, cada roda ou sola de sapato que passa por cima, renova. Bom é ser rodado, pisado. O Diabo, único capaz de assustar deus, não é tudo isso por ser mau e sim por ser vivido. E isso é o que dizem, por que nem deus nem diabo nem ninguém me ligou, até agora, pra me dar as coordenadas no meio de tanto asfalto, no meio desse monte de encruzilhadas. Ninguém veio me buscar, ainda, e, sinceramente, eu espero que nem venha mais ninguém mesmo. Buscar alguém é complicado demais.
Sente medo, ainda. Pelo menos possui a certeza de que os medos são compensadores.
Certeza é um verbete que deveria ser excluído do vocabulário humano em todos sotaques, porque enquanto um humano não viver cada um destes sotaques, ele não será capaz de utilizar da maneira correta, a certeza. Utilizará, portanto, a pré-certeza que é tão certa quanto qualquer outro questionamento que nos fizemos ao longo do expediente.
Caminhando pelo asfalto, enquanto o mesmo era dissolvido pelo sol, aqueles dois pobres sujismundos conversavam intimamente e sorriam. Um deles estendeu a mão num arbusto e puxou um pedaço de folha verde, que seguiu em sua mão durante boa parte do caminho. Ao lado, os carros passavam apressadamente, os vidros escuros os vendavam e o motor ensurdecia-os enquanto debatiam o futuro de uma conta bancária qualquer. Os pobres tinham suas contas no vermelho, nomes sujos e caderninhos pendurados no minimercado mais próximo. Caminhavam, suavam, conversavam, ouviam, olhavam, encostavam, sorriam.
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