quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Mal educados

Nunca estudei educação ou didatismo, mas acredito que o nosso método de ensino tem  divergido do modo como deveria funcionar. Concluí isto observando a geração que se forma. As pessoas que, naturalmente, vão dominar o mundo nos próximos anos, têm em suas telas quantidade de informação suficiente para mudar o mundo. Apesar disto, não é esta a prioridade daqueles que possuem tal tesouro.
Para esta geração o mundo já está perdido, mesmo. Estas grandes mudanças exigem muito esforço e existem indivíduos responsáveis para isto. Apaixonada pela tecnologia, a nova não-tão-nova geração está constantemente conectada.  E não existe problema nenhum nisto, o problema é não ter plena consciência da dimensão que a tecnologia trouxe à vida humana. A mudança global está diretamente ligada ao desenvolvimento tecnológico mas mesmo aqueles que são tão próximos à ele não levam a sério a revolução pela qual a internet nos fez e tem nos feito passar.
Estas pessoas acompanharam o processo modernização do mundo. São aquelas que suaram com as provas mimiografadas, mas são as mesmas que, anos depois, encontraram o conteúdo de outra avaliação na internet. Estas pessoas observaram a internet virar necessidade com os mesmos olhos que viram seus pais trabalhando sem computador. Sequencialmente a isto, ganharam seu primeiro computador. Com internet discada ou não, ter um artigo deste porte era uma revolução na vida daquele ser humano com sua personalidade em formação. 
Talvez estas pessoas nem tenham tido tempo de aprender como funciona de verdade a vida profissional, social e até emocional sem um computador com internet.
Tentando imaginar o tamanho da internet (porque imaginar isto é algo quase sem fim e com poucos resultados) e da reviravolta que ela trouxe à vida humana, pode-se imaginar a dimensão de pensamento que estas pessoas "da transição" possuem. Muitos jovens desta época sofreram de depressão ou algum outro problema emocional, pois o excesso gera profunda dúvida e traz à consciência do quanto uma pessoa é pequena em meio ao todo. As referências foram derrubadas. O pai, exemplo de vida, fala que determinado autor foi quem transformou-o em tudo que é hoje. Na internet, uma crítica destrói o livro e o autor e ainda cita  outro, que seu pai não conhece, e que faz a maior contribuição que a literatura já recebeu, na opinião de dois ou três sites. Esta geração acredita ver muita coisa errada no país onde nasceu mas comprou o sonho americano ainda criança e, hoje, não consegue perceber onde os dois fatos colidem.
Esta geração precisa ser estimulada. Precisa ser orientada. Quem se informa pela internet precisa acreditar em alguma das fontes para levar a sério alguma informação. Não é que a informação paute a vida das pessoas. É que esta geração sempre possuiu alguma referência.
No momento que vivemos, em que os mais velhos colocam suas convicções como referência para suas atitudes, as convicções antigas já não são satisfatórias para quem dispõe de qualquer convicção que deseje. Esta geração sabe demais. A geração intermediária se renova para pautar as próximas e não para convencer as anteriores, o que aproxima ela muito mais do novo do que da história. O ser humano registra e comunica o que ele faz, é uma atitude tomada por instinto. 
Hoje, tanto o registro como as atitude são momentâneas demais. A história se repete em contextos diferentes. Por isso, é necessário saber como é a estrada antes de segui-la. Sem este conhecimento, os mesmos erros se repetirão. É o instinto humano. A razão sobrepõe-se ao instinto e, por isso, as coisas evoluem. Aprende-se sabendo como se faz e a maneira mais comum de aprender é errando. Os erros que não se repetem são aqueles que mais se aproximam dos acertos. É preciso mostrar um pouco mais de vida real para a geração embriagada com a tecnologia, de modo que a vida real permaneça.
O objetivo da educação é formar pessoas. Enquanto a educação não se adaptar ao mundo onde as pessoas de verdade vivem, ela nunca será capaz de preparar um ser humano para participar dele. E não é aprender internet, pois, esta, é auto-didata. Mas aqueles que se incluem na velha guarda e também aqueles que desejam ver alguma continuidade no que acreditam, precisam aprender a viver, a crescer e a evoluir no mundo dos cliques. Desta forma, ele torna-se uma ferramenta para o desenvolvimento da vida humana, com resultados voltados ao mundo real. Os mais jovens já nasceram digitais, e por este motivo, somente a velha guarda, que ainda se adapta ao ritmo virtual, pode ensinar a vida real aos cidadão de um futuro próximo.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Das cartas que não chegaram.

Eu sempre te amei mas isso não é tão simples assim. Não importa, não existia maneira de fazer ser simples. Eu nunca fui sincera e me dando o direito de ser, agora, posso afirmar: eu sempre te amei. Digo isso do lado mais sério que ainda resta na pessoa mais sarcástica que tu conheceste, segundo tuas próprias palavras. Eu sempre gostei do jeito como tu debochavas de mim e de todo mundo. E eu também sempre soube que o teu deboche é o teu refúgio. Tu não tens coragem de levar as coisas muito a sério para evitar de enlouquecer. Sei disso porque só eu ouvi aquelas tuas palavras confusas na madrugada, que falavam baixinho pra não acordar ninguém e, principalmente, pra não correr o risco de serem audíveis para alguém além de mim. Quando eu te deixava falar por bastante tempo, lembro que tu ouvias as palavras e pensavas no que estavas dizendo durante alguma frase. Depois disso, não conseguias dizer mais nada. Tenho certeza deste sentimento por que sinto-o até hoje nas conversas que resolvo desmembrar as coisas que julguei melhor não dividir com ninguém.
Eu passava a semana inteira só pra poder te abraçar na madrugada de sexta para sábado. Na verdade eu acho que a sexta-feira chegava só para eu poder passar a mão no meio dos teus cabelos embaraçados e para caminhar com os meus dedos pelas tuas costas. Nada poderia ser mais compensador. Sempre me acordava antes de ti mas não ficava te olhando dormir. Não costumo observar as pessoas quando elas não podem se defender. Em contrapartida, lembro da tua respiração profunda e dos teus suspiros abafados pelo barulho da chuva e dos meios de transporte que já, ou ainda, ocupavam a rua naquele horário.
Nunca tive medo da chuva ou dos raios mas lembro que, ouvindo a água atingir as telhas, eu te trazia para o mais próximo de mim que os meus braços eram capazes de trazer. Certo dia menti dizendo que, sim, sentia medo da chuva e de um ou outro raio barulhento. Na verdade nunca senti. Da mesma forma, jamais tive coragem de admitir que o meu medo era de que nós nos perdêssemos, enquanto o som da chuva já se tornava a trilha sonora daquele inverno. 
Meu medo de lhe admitir isto surgiu quando percebi que, de fato, nos perderíamos. Ali eu já não tinha mais nenhuma opção a não ser a de te manter como aquela pessoa que eu amei. A coragem também me faltou quando precisei te dizer que não, não poderia ser sempre assim. Jamais me perdoei por ficar em silêncio depois da pergunta. Quase afirmei que poderíamos (pela simples vontade que eu tinha de te dar tal resposta). Fugi.
Amanhã, quem sabe lhe envio esta carta e te recebo de volta na minha vida. Amanhã, quem sabe eu desisto de ter medo de nos admitir. E amanhã, quem sabe, eu faço como tu fizeste e encontro outro destinatário para estas palavras.
Eu sempre te amei. Nunca foi tão simples assim.