Eu sempre te amei mas isso não é tão simples assim. Não importa, não existia maneira de fazer ser simples. Eu nunca fui sincera e me dando o direito de ser, agora, posso afirmar: eu sempre te amei. Digo isso do lado mais sério que ainda resta na pessoa mais sarcástica que tu conheceste, segundo tuas próprias palavras. Eu sempre gostei do jeito como tu debochavas de mim e de todo mundo. E eu também sempre soube que o teu deboche é o teu refúgio. Tu não tens coragem de levar as coisas muito a sério para evitar de enlouquecer. Sei disso porque só eu ouvi aquelas tuas palavras confusas na madrugada, que falavam baixinho pra não acordar ninguém e, principalmente, pra não correr o risco de serem audíveis para alguém além de mim. Quando eu te deixava falar por bastante tempo, lembro que tu ouvias as palavras e pensavas no que estavas dizendo durante alguma frase. Depois disso, não conseguias dizer mais nada. Tenho certeza deste sentimento por que sinto-o até hoje nas conversas que resolvo desmembrar as coisas que julguei melhor não dividir com ninguém.
Eu passava a semana inteira só pra poder te abraçar na madrugada de sexta para sábado. Na verdade eu acho que a sexta-feira chegava só para eu poder passar a mão no meio dos teus cabelos embaraçados e para caminhar com os meus dedos pelas tuas costas. Nada poderia ser mais compensador. Sempre me acordava antes de ti mas não ficava te olhando dormir. Não costumo observar as pessoas quando elas não podem se defender. Em contrapartida, lembro da tua respiração profunda e dos teus suspiros abafados pelo barulho da chuva e dos meios de transporte que já, ou ainda, ocupavam a rua naquele horário.
Nunca tive medo da chuva ou dos raios mas lembro que, ouvindo a água atingir as telhas, eu te trazia para o mais próximo de mim que os meus braços eram capazes de trazer. Certo dia menti dizendo que, sim, sentia medo da chuva e de um ou outro raio barulhento. Na verdade nunca senti. Da mesma forma, jamais tive coragem de admitir que o meu medo era de que nós nos perdêssemos, enquanto o som da chuva já se tornava a trilha sonora daquele inverno.
Meu medo de lhe admitir isto surgiu quando percebi que, de fato, nos perderíamos. Ali eu já não tinha mais nenhuma opção a não ser a de te manter como aquela pessoa que eu amei. A coragem também me faltou quando precisei te dizer que não, não poderia ser sempre assim. Jamais me perdoei por ficar em silêncio depois da pergunta. Quase afirmei que poderíamos (pela simples vontade que eu tinha de te dar tal resposta). Fugi.
Amanhã, quem sabe lhe envio esta carta e te recebo de volta na minha vida. Amanhã, quem sabe eu desisto de ter medo de nos admitir. E amanhã, quem sabe, eu faço como tu fizeste e encontro outro destinatário para estas palavras.
Eu sempre te amei. Nunca foi tão simples assim.