segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Naturalmente

Certo dia ela apareceu no fim da tarde, convidando-o para dar uma volta por ali. Assim mesmo, sem avisar. Era o dia mais quente do ano e o sol ainda estava imperdoavelmente escaldante àquela hora. Como não poderia deixar de ser, andaram até o boteco de preço mais acessível da redondeza, sentaram-se na única mesa de ferro da calçada e pediram um cinzeiro e a cerveja mais barata que o estabelecimento oferecia. Conversaram por horas. Riram como há tempos não riam. Conseguiram até esquecer do quão corridos foram os últimos dias, do estresse, da insatisfação, das dívidas, dos questionamentos, dos juros, das dores. Esqueceram até mesmo do calor que os castigava durante aquela estação. 
Já anoitecia quando começaram a contabilizar os gastos e os ganhos. Na verdade, os gastos não importavam muito naquele momento. Os salários recém-depositados ainda passavam a impressão de inesgotabilidade, sobretudo depois de alguns copos e tantas risadas. Os ganhos eram contabilizados não só deste dia ou semana, mas desde o início de todo o processo de aproximação. Uma das coisas mais interessantes das relações humanas é este processo de aproximação entre duas pessoas interessadas em fazê-lo. Vontade mútua de saber mais do outro, pretextos para estar próximo, contatos físicos discretos e involuntariamente forçados são algumas das diversas pequenas construções de casualidades, que variam de interessado para interessado, e que caracterizam esta aproximação.
Já era tarde da noite quando levantaram-se para ir embora. Caminharam pela rua vazia, ouviram uma música qualquer e ensaiaram alguns passos de um dança que só eles conheciam, talvez por terem criado naquele mesmo instante. Um trocar de pernas colocou eles no chão e por ali mesmo ficaram. A chuva caiu-lhes sobre os ombros, sobre as cabeças, sobre as pernas, fazendo questão de manter os dois calados. Sentiram aquela chuva de verão como se fossem estas as últimas gotas que o céu lhes ofereceria. 
Deitaram-se na cama, nus, com a água do chuveiro ainda espalhada pelo corpo. Se olharam naquela luz baixa que entrava pela janela entreaberta. Sorriram. Noite adentro, passearam um no outro com a liberdade de quem já conhecia cada trecho do passeio. E conheciam. Nos pensamentos de cada um deles, conheciam, sim. Tanto imaginaram aquele momento que ele acabou por acontecer naturalmente. É assim que acontece o amor. Naturalmente. Não importa a circunstância, importante é ele acontecer.
Eles, por exemplo, amaram-se muito. 
Apesar disto, naquela manhã de calor, questionamentos e dívidas, acordaram não mais se amando. Mas amaram-se. Infinitamente. Desde o primeiro gesto de aproximação, até a hora de acordar. Infinitamente.

domingo, 27 de novembro de 2011

As vezes

Sou invisível. Desconheço o motivo. Pode ser a feiura, mas também pode ser o sobrepeso. Não tenho nada a ver com nenhum de vocês. Eu sou desespero e medo, exalando solidão. Sempre. Vocês são sorrisos, expectativa, promissão. Posso estar no mesmo lugar onde milhares de pessoas estão, mas minha solidão acontece pelo fato de que nenhuma destas pessoas está neste espaço pelo mesmo motivo que eu. Estou sozinha nos meus motivos, e, portanto, estou constante e completamente sozinha. É uma questão de perspectiva. 
Eu não existo no lugar onde estou. É como se não ocupasse lugar nenhum. E é muito constrangedor não ocupar lugar nenhum. Sou incômodo aos outros.
A tristeza disso tudo é uma questão de consciência. Um indivíduo só é triste quando se dá por conta de que as atitudes dele interferem negativamente em contextos onde ele acreditava que elas interfeririam positivamente. 
Eu sou triste demais. As vezes.

domingo, 20 de novembro de 2011

Em casa

Mais uma vez arrasto os pés como quem caminha à procura dos seus sonhos perdidos em outras horas, em outras vidas, em outras camas. Só não estou mais em casa quando os arrasto e os procuro. Já nem sei mais onde ela fica. Desconheço o lugar exato onde posso estar em casa. Talvez me sinta em casa numa quantidade muito grande de lugares distintos. 
O importante de se sentir em casa, acredito eu, é estar à vontade. Eu consigo me sentir à vontade em tantos lugares que acabei por perder minha própria casa. E a questão não é lugar, e sim, as pessoas. De novo, as pessoas. Elas sempre são o fator determinante. 
Em casa, tenho as pessoas que ali vivem, sendo elas as mesmas com as quais vivi parte da minha vida. Nos demais lugares onde me sinto em casa também existem pessoas com as quais vivi parte da minha vida. Esta parte é pequena, mas, dela, é imensa a importância.
No mesmo lugar onde me senti desconfortavelmente isolada, me senti em casa. Uma única pessoa conseguiu fazer-me inverter as sensações. Poucos detalhes me fizeram estar à vontade.
Tranquilamente, eu disse coisas absurdas. Sou sempre assim. Absurda, mas tranquila. Não me importo com as percas de controle. Gosto delas. Gosto de ver, gosto de me envolver nisto e é a única maneira de saber que isto está acontecendo, quando, no futuro, decorrer-se novamente. 
Eu dispenso o rancor. Só sei guardar a saudade. Dói muito mais. É muito melhor, e não pela dor, mas porque a saudade é quando a gente lembra do que sentiu e quer de novo. E sempre me falta um pouquinho. De tudo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Pressa

O relógio não me acompanha. Sempre pro mesmo lugar, ele parece também estar constantemente parado. Me entristece. Não sou assim. Passo rápido demais e corro em diversos sentidos. Não faço voltas completas e fico sempre com o gosto amargo do inacabado. Vou embora mais cedo, deixo todos dormindo sozinhos. Todos os meus breves amores eternos foram abandonados assim, covardemente joguei-os de volta à solidão. Na verdade, estava me devolvendo à ela.
Eu não consigo ter as pessoas tampouco deixar que elas me tenham. Anseio por amar todos numa única vida e compreender amplamente este sentimento, ponto exato onde erro. Não é de se compreender e sim de sentir, responderia-me um romântico qualquer. Mas corro porque desejo compreender de tudo, por mais errado que isto seja. Sou breve e logo associo a resposta à outra dúvida que persigo apressadamente.
A pressa tem me cegado. Preciso dormir melhor para conseguir ficar atenta.