Morreu de inspiração. Aquilo lhe enchia e não esvaziava enquanto dali não saísse. O medo de se enxergar fora e de o que seria visto pelos outros não lhe deixava externar mais nada. O corpo machucado de tudo aquilo que debatia-se ali dentro, sangrando, fervendo, apodrecendo. Dolorido, cansado, inchado, ferido, ele se entregou. O corpo não mais conseguia suportar o peso. Morreu. Tinha espasmos mesmo depois de morto. O cadáver foi encontrado ferido, e logo descobriu-se que os ferimentos foram todos posteriores à morte. O medo foi-se junto com a vida e tudo que ali tinha ficado por tanto tempo correu desesperadamente para fora, jogando aquele pedaço de carne contra pedras, paredes, espinhos.
Não havia mais dor, não havia mais medo e agora, finalmente, a inspiração também conseguiu libertar-se.
Ainda cheirava bem pois de nenhum dos ferimentos saiu sangue. De cada abertura daquela pele saiu um pouco do havia lhe matado. Não apodreceu e, inclusive, sobreviveu. Sobreviveu depois de morrer de inspiração pois aquilo que os ferimentos exalavam era cheiroso para qualquer olfato. E cheirar era pouco. Queriam ver, ouvir, tocar, sentir.
Foi morrendo que finalmente libertou-se do medo. Só a morte o levou embora, e assim, abriu-se espaço para desconhecidos. Desconhecidos sentimentos e desconhecidos cadáveres tentando sobreviver também, perguntando-lhe como conseguiu, implorando por ajuda, tentando ter ali um lugar. O medo nunca mais voltou, nunca mais conseguiu espaço para entrar pois todas as portas eram vigiadas interna e externamente. Só o máximo de segurança podia garantir que o medo não entraria mais ali. Quando outras portas se abriam a segurança era reforçada, pois o medo, sabendo que todo o recente é vulnerável, logo tentaria utiliza-las de entrada. Não era fácil impedir mas conseguia e utilizaria de qualquer força para que assim continuasse.
domingo, 18 de dezembro de 2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
Diálogo
- Que qui tem te feito feliz?
- Ãnh? Feliz? Nem sei. Sei que eu tô sempre feliz, sim.
- Por isso te perguntei. Nem parece mais a mesma criatura melancólica que eu conheci esses dias. Há tanto tempo atrás.
- Na verdade, eu não sei. Não me lembro quem era e como era essa criatura. Mas a minha felicidade é melancólica, mesmo. Não repara.
- Não te parece mais. Eu não te vejo mais. Nunca aparece onde ando, como fazia antes. Quer dizer, até aparece, mas quando já estou sufucientemente fora de mim pra ser como tu.
- Nós somos iguais. Tu sabe disto. Não me venha com essa conversa de novo. Já sabemos qual vai ser o desfecho. Não quero choradeira hoje, por favor. Sabemos que tá tudo errado. Mas faz tanto tempo, tem tanta coisa pra falar. Não fica me analisando. Eu não gosto disso.
- Mas eu sei que tu tá sempre analisando todo mundo. Não consigo evitar.
- Só quando me pedem.
- Ninguém pede, ninguém quer isso.
- Mas me pedem, sim. Tu que não sabe. Porque nunca te pedem, tu nunca tá lá quando começam a pedir isso. Tu sempre vai embora cedo. Eu fico até amanhecer. Até mais, as vezes.
- Morro de sono e sei que vou querer ir embora muito antes de amanhecer. Daí já não tem mais ter como.
- Tem como, sim. Se tu quiser, fica até a hora que tu achar melhor. Mas a tua preguiça e teu comodismo e teu comprometimento excessvo com coisas que nem são tudo isso nunca te deixam ficar até a hora que tu quer.
- Ah, sim, meu comprometimento excessivo, sim. Como se tu soubesse te comprometer com alguma coisa.
- Não sei mesmo, não sei. Quando eu tiver que aprender, eu aprendo. Quando a água bate na bunda a gente aprende a nadar. Que se foda.
- Acho que já me bateu faz tempo. Meio que me afoguei mas tô tentando correr atrás. Pior tu que nem tenta. Na primeira brecha já tá boiando e parando na primeira costa.
- Sim. Eu sei. Tu quer mesmo ficar nessa? Logo hoje?
- Não.
- Toda vez é assim. Não queria que fosse assim. Não aguento isso, sempre se radiografando, que merda. A gente não julga ninguém, só nós. Vamos parar com isso, sério mesmo.
- Deu. Sério.
- Tá.
- Ãnh? Feliz? Nem sei. Sei que eu tô sempre feliz, sim.
- Por isso te perguntei. Nem parece mais a mesma criatura melancólica que eu conheci esses dias. Há tanto tempo atrás.
- Na verdade, eu não sei. Não me lembro quem era e como era essa criatura. Mas a minha felicidade é melancólica, mesmo. Não repara.
- Não te parece mais. Eu não te vejo mais. Nunca aparece onde ando, como fazia antes. Quer dizer, até aparece, mas quando já estou sufucientemente fora de mim pra ser como tu.
- Nós somos iguais. Tu sabe disto. Não me venha com essa conversa de novo. Já sabemos qual vai ser o desfecho. Não quero choradeira hoje, por favor. Sabemos que tá tudo errado. Mas faz tanto tempo, tem tanta coisa pra falar. Não fica me analisando. Eu não gosto disso.
- Mas eu sei que tu tá sempre analisando todo mundo. Não consigo evitar.
- Só quando me pedem.
- Ninguém pede, ninguém quer isso.
- Mas me pedem, sim. Tu que não sabe. Porque nunca te pedem, tu nunca tá lá quando começam a pedir isso. Tu sempre vai embora cedo. Eu fico até amanhecer. Até mais, as vezes.
- Morro de sono e sei que vou querer ir embora muito antes de amanhecer. Daí já não tem mais ter como.
- Tem como, sim. Se tu quiser, fica até a hora que tu achar melhor. Mas a tua preguiça e teu comodismo e teu comprometimento excessvo com coisas que nem são tudo isso nunca te deixam ficar até a hora que tu quer.
- Ah, sim, meu comprometimento excessivo, sim. Como se tu soubesse te comprometer com alguma coisa.
- Não sei mesmo, não sei. Quando eu tiver que aprender, eu aprendo. Quando a água bate na bunda a gente aprende a nadar. Que se foda.
- Acho que já me bateu faz tempo. Meio que me afoguei mas tô tentando correr atrás. Pior tu que nem tenta. Na primeira brecha já tá boiando e parando na primeira costa.
- Sim. Eu sei. Tu quer mesmo ficar nessa? Logo hoje?
- Não.
- Toda vez é assim. Não queria que fosse assim. Não aguento isso, sempre se radiografando, que merda. A gente não julga ninguém, só nós. Vamos parar com isso, sério mesmo.
- Deu. Sério.
- Tá.
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