Morreu de inspiração. Aquilo lhe enchia e não esvaziava enquanto dali não saísse. O medo de se enxergar fora e de o que seria visto pelos outros não lhe deixava externar mais nada. O corpo machucado de tudo aquilo que debatia-se ali dentro, sangrando, fervendo, apodrecendo. Dolorido, cansado, inchado, ferido, ele se entregou. O corpo não mais conseguia suportar o peso. Morreu. Tinha espasmos mesmo depois de morto. O cadáver foi encontrado ferido, e logo descobriu-se que os ferimentos foram todos posteriores à morte. O medo foi-se junto com a vida e tudo que ali tinha ficado por tanto tempo correu desesperadamente para fora, jogando aquele pedaço de carne contra pedras, paredes, espinhos.
Não havia mais dor, não havia mais medo e agora, finalmente, a inspiração também conseguiu libertar-se.
Ainda cheirava bem pois de nenhum dos ferimentos saiu sangue. De cada abertura daquela pele saiu um pouco do havia lhe matado. Não apodreceu e, inclusive, sobreviveu. Sobreviveu depois de morrer de inspiração pois aquilo que os ferimentos exalavam era cheiroso para qualquer olfato. E cheirar era pouco. Queriam ver, ouvir, tocar, sentir.
Foi morrendo que finalmente libertou-se do medo. Só a morte o levou embora, e assim, abriu-se espaço para desconhecidos. Desconhecidos sentimentos e desconhecidos cadáveres tentando sobreviver também, perguntando-lhe como conseguiu, implorando por ajuda, tentando ter ali um lugar. O medo nunca mais voltou, nunca mais conseguiu espaço para entrar pois todas as portas eram vigiadas interna e externamente. Só o máximo de segurança podia garantir que o medo não entraria mais ali. Quando outras portas se abriam a segurança era reforçada, pois o medo, sabendo que todo o recente é vulnerável, logo tentaria utiliza-las de entrada. Não era fácil impedir mas conseguia e utilizaria de qualquer força para que assim continuasse.