quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Ditadura do amor eterno

Existe, no imaginário do senso comum, uma concepção de vida humana que se baseia no amor. A ideia de amor está diretamente ligada à família, pois é esta o resultado final daquele. Tudo começa antes mesmo do nosso nascimento, quando todos são obrigados a visitar a grávida da família, levar um pacote de fralda descartável no chá de bebê, alisar a barriga, e já começar a projetar a vida que gostariam que o feto levasse assim que nascesse. A chegada do filho deve ser celebrada pois ele é o fruto do amor daquele casal. Se duas mulheres engravidam em períodos próximos e de bebês de gêneros diferentes, a ditadura do amor começa antes mesmo do ser humano ver a luz do mundo. Mas até aí isso tudo é aceitável, pois existem pessoas na vida dos pais, e até eles mesmos, que valorizam estes momentos e acham de fundamental importância a participação de todos neles.
Na infância, as crianças brincam, normalmente, separadas em gênero. Meninas de um lado e meninos do outro. Isso causa um distanciamento, sobretudo com a concepção, que costuma vir dos adultos, de que a relação entre o menino e a menina só é permitida quando ambos são mais velhos. Isso cria, na cabeça da criança, uma ideia de que o gênero oposto só lhe terá serventia e só lhe proporcionará bons momentos quando a idade de ter relacionamentos amorosos for atingida. Ora, criança nenhuma nasce com essa ideia. A separação, feita por pais, professores e adultos responsáveis é que planta isso nas jovens mentes. É claro que meninas e meninos são diferentes e, portanto, desenvolvem brincadeiras e relações de amizade diferentes. Mas a separação dos grupos feita em casa, na escola, nos programas de tv, nos filmes infantis e em praticamente todo o cotidiano, reforça que meninas e meninos não só são diferentes como não vivem relações de amizade, apenas relações de interesse amoroso. Posso estar errada, mas acho muito mais saudável que uma criança interaja igualmente com todas as outras crianças ao invés dela crescer com a ideia de que amizade só é possível com um determinado grupo, enquanto o outro serve somente para o amor. Este tipo de pensamento acaba, automaticamente, descolando a relação de amor da relação de amizade, cumplicidade, como se estas duas não pudessem existir em um relacionamento amoroso. Isso também obriga a crinaça a atrair-se por alguém do grupo do amor desde muito cedo e, caso contrário, ela se sentirá excluída e diferenciada das demais. 
Na adolescência, período de muitos  amores não-correspondidos, as meninas já têm seu objetivo: encontrar o amor da sua vida. Os meninos também: se tornar o macho-alfa para poder escolher qual delas será a mulher da sua vida. Aquelas que não pretendem arrumar o amor da sua vida no momento e, naturalmente, acabam envolvendo-se com mais meninos do que as outras, são taxadas de putinhas, é claro. E os meninos que não querem ser garanhões são taxados de homossexuais (preconceito criado na separação de funções de cada gênero, durante a infância), perdedores, etc. Conforme crecem, a cobrança por um relacionamento "sério" aumenta cada vez mais. Muitos familiares dizem que a pessoa "precisa é arrumar um namorado (a)" frente a qualquer tipo de problema ou expressão que possa parecer de tristeza. Elas, ficarão para titias enquanto eles serão solteirões fadados à solidão. O amor é pregado em praticamento qualquer produção artística, televisiva, cinematográfica. A pessoa precisa amar alguém,  precisa encontrar a metade da sua laranja. Não é permitido  simplesmente viver a  vida e construir a uma história, de modo que os relacionamentos existam nela mas não sejam o único propósito dela. Quem faz isso não é normal e o pior, não ama de verdade.
Na obrigação de amar, as mulheres sofrem. Foi assim que elas viram acontecer durante toda a sua vida e essas pessoas que sofreram eram exemplos, pois estavam amando. Os homens, também na obrigação de amar e ainda, na obrigação de tomar a atitude que vai ser determinante para a existência deste amor, acabam se precipitando e procurando mulheres que nem sempre eles gostam suficientemente para lhes ter fidelidade ou lhes proporcionar felicidade. As mulheres, temendo ficar pra titia também se precipitam e embarcam em relacionamentos com homens que nem sempre possuem uma personalidade e um estilo de vida que combina com o delas. Frente ao medo de perder aquela pessoa para outra, sentem muito ciúmes e fazem exigências que obrigam um dos envolvidos a se adaptar àquela pessoa e àquele relacionamento que o outro projetou durante todos esses anos. Apesar de tudo, esses relacionamentos dão certo, sim. Muitas pessoas acabam se apaixonando ainda mais no decorrer da relacão e vivem felizes por muito tempo. Mas quando isso acaba, muitas pessoas não se permitem deixar um relacionamento infeliz de lado pelo medo ficar sozinhas, pela dependência da condição de fazer parte de um casal. Assim ocorrem brigas, desgastes, traições, sofrimento, abalo emocional e, as vezes, efeitos colaterais muito mais profundos na vida das pessoas.
Acredito que as relações amorosas seriam muito mais produtivas, muito mais saudáveis e acrescentariam muito mais positivamente na vida dos indivíduos sem este medo e esta cobrança, que se manifesta de maneiras diferentes para os homens e as mulheres. Um exemplo disto é que, na maioria das vezes, ao final de um longo relacionamento, o que fica dele é só mágoa. São raros os casos em que ex-namorados e ex-namoradas, sobretudo quando o casal é jovens, convivem em harmonia, conseguem manter uma relação saudável e conseguem deixar algo de positivo na vida do outro depois do relacionamento. As pessoas são descartadas umas pelas outras porque não lhes servem mais como parceiro amoroso. E claro, é muito estranho quando é diferente disso. Alguém sempre vai dizer que o outro está querendo reatar a relação. É impossível que uma pessoa que conhece, que viveu bons momentos ao lado da outra e que sabe que ela também lhe conhece, queira conversar. Muitas vezes, depois de um relacionamento, os grandes amigos se distanciaram e a amizade já não é mais a mesma. A única pessoa que, de fato, sabe como a outra é o ou a ex, e está proibido ter uma conversa com ele ou com ela.
Em seguida, começa outro relacionamento, pois o que não pode é ficar sozinho. O indivíduo que não faz parte de um relacionamento estável é infeliz e tem algum problema. O que está apaixonado, que sente muito ciúmes, chegando a pensar que uma pessoa lhe pertence e proibindo-a de viver certas coisas pelo simples fato do primeiro não gostar que o segundo as faça, este, é normal. É absurdo pensar que alguém pertence a alguém e que a vida do outro deve ser vivida da maneira que a outra ponta do casal gostaria que fosse. Não faz sentido uma pessoa saber exatamente como é o amor de sua vida, iniciar um relacionamento com outra que não é assim e querer transformá-la naquilo que foi projetado. As pessoas são o que elas são e as mudanças que ocorrem são a partir de experiências e opiniões das próprias pesssoas. O que faz do ser humano uma criatura apaixonante é exatamento o que ele é e as coisas que o diferem dos demais. Se não é possível viver em harmonia mas mesmo assim duas pessoas se gostam, sejam companhias agradáveis e não cônjujes cansativos. 
Amar é maravilhoso, e o amor correspondido é um prazer único. Mas é preciso saber reconhecer quando ele não é o suficiente para sustentar um compromisso. Duas pessoas podem, ou deveriam poder, se amar e manter um relacionamento sem combranças excessivas, projeções, ilusões, limitações e sofrimento. E uma pessoa pode, ou deveria poder, viver muitos pequenos relacionamentos que a satisfaçam amorosamente e que a outra ponta de todos eles esteja consciente disto. Mas existe a ditadura do amor eterno, e ela obriga o homem e a mulher a estarem sempre caçando alguém que se disponha a servir de parede branca para as projeções do outro. O amor, então, deixa de ser sinônimo de felicidade e torna-se obrigação.
Desta forma, tenho cada vez mais certeza de que farei parte do grupo das titias, solitárias, infelizes, e qualquer outro adjetivo que seja usado para definir uma pessoa que não encontrou alguém que não lhe exigisse ser a sua  parede. O grupo das pessoas que acabou sem um amor eterno por não ter conseguir enxergar quem eram as pessoas por trás da ânsia que elas estavam de encontrar o seu.